Lucro das companhias aéreas deve cair pela metade em 2026, prevê associação internacional

Apesar de apontar impacto para todos os segmentos, Rodgerson afirma que, a longo prazo, a aviação regional pode sentir mais os efeitos do aumento do preço do QAV

Lucro das companhias aéreas deve cair pela metade em 2026, prevê associação internacional
Lucro das companhias aéreas deve cair pela metade em 2026, prevê associação internacional

Paulo Ricardo Martins-são Paulo, Sp (folhapress) - 07/06/2026 17:22:30 | Foto: Aeronave da Airbus: companhias aéreas brasileiras estão à espera de suas encomendas, principalmente do modelo A320 - Divulgação

PAULO RICARDO MARTINS-RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O lucro das companhias aéreas cairá para US$ 23 bilhões (cerca de R$ 119 bilhões), segundo previsão da Iata (Associação Internacional do Transporte Aéreo) divulgada neste domingo (7) durante a 82ª Assembleia-Geral Anual da entidade, realizada no Rio de Janeiro neste fim de semana.

O número representa metade do lucro estimado em 2025 (US$ 45 bilhões). Anteriormente, a associação previa, em 2026, lucro de US$ 41 bilhões. A previsão considera companhias aéreas de todos os continentes.

Segundo Willie Walsh, diretor-geral da Iata, as empresas aéreas foram impactadas pelos efeitos da guerra no Irã e pela alta no preço dos combustíveis.

"Todos os resultados financeiros das companhias aéreas estão sendo afetados pela rápida alta de 70% nos preços do combustível de aviação. Parte desse custo adicional está sendo compensada por ajustes de preços e ganhos de eficiência, mas isso não será suficiente para manter a lucratividade nos níveis do ano anterior", disse Walsh durante discurso neste domingo.

De acordo com Walsh, companhias menores, que iniciaram o ano com balanços financeiros mais frágeis, estão enfrentando dificuldades. "Em nível regional, todas as regiões continuam no azul, mas com desempenho financeiro significativamente reduzido."
A exceção, segundo ele, são as companhias aéreas do Oriente Médio, que vivem um cenário ainda pior.

"As empresas do Golfo enfrentam incertezas operacionais após o fechamento quase total do espaço aéreo no início da guerra. Essas companhias estão fazendo um trabalho extraordinário para manter a conectividade, mas impactos financeiros significativos são inevitáveis", afirmou Walsh.

Ainda de acordo com as previsões da Iata, a margem líquida de lucro das companhias aéreas deve ser de 2,0% em 2026, quase metade dos 3,9% previstos anteriormente. Também representa menos da metade da estimativa de 4,2% para 2025.

Já o lucro líquido por passageiro transportado deve ser de US$ 4,50, metade dos US$ 9,10 alcançados em 2025.

Segundo a entidade, o lucro operacional das empresas em 2026 deve atingir US$ 48 bilhões, queda superior a 37% em relação ao ano anterior. A margem operacional líquida deve ser de 4,1%, contra 7,2% em 2025.

A previsão aponta para um retorno sobre o capital investido de 4,3%, abaixo do custo médio ponderado de capital estimado em 8,5%. "Essa diferença volta a evidenciar a fragilidade estrutural do setor aéreo, no qual choques de rentabilidade corroem rapidamente a eficiência do capital", diz a associação em nota.

Apesar do cenário difícil, o fator de ocupação das aeronaves deve continuar batendo recordes, diz a Iata. As companhias aéreas preencherão, em média, 84% dos assentos disponíveis ao longo do ano, acima dos 83,5% registrados em 2025, segundo a previsão.

O número de passageiros transportados, por sua vez, deve atingir 5,1 bilhões em 2026, crescimento de 2,4% em relação ao ano anterior.

AMÉRICA LATINA PODE TER DESACELERAÇÃO MAIS ACENTUADA
De acordo com as estimativas da Iata, o lucro das companhias aéreas da América Latina deve alcançar o patamar de US$ 1,2 bilhão em 2026, queda de quase 37% na comparação com o ano passado. Na mesma base comparativa, a margem líquida de lucro deve cair de 3,8% para 2,1%
A entidade diz que as condições de demanda na América Latina continuam mais sensíveis do que em outras regiões, refletindo níveis de renda mais baixos e uma menor participação das viagens de negócios na demanda total por transporte aéreo.

"As companhias aéreas latino-americanas normalmente operam com menor flexibilidade financeira em seus balanços e custos de financiamento mais elevados, o que restringe sua capacidade de absorver choques ou investir na expansão de frota e de rotas. A relação entre o Ebit (lucro antes de juros e impostos) e a margem líquida é cerca de quatro vezes superior à média global, evidenciando essa limitação, que reduz a capacidade das empresas de reagir de forma dinâmica a mudanças na demanda ou nos custos", afirma a Iata em nota.

Ainda segundo a associação, esses fatores sugerem que a região provavelmente enfrentará uma desaceleração mais acentuada do crescimento, mesmo que a demanda permaneça positiva.

O jornalista viajou a convite da Iata

Azul cortou 5% da capacidade após escalada do preço do combustível, diz CEO

Sob impacto do aumento do preço do QAV (querosene de aviação), a Azul cortou até o momento cerca de 5% de sua capacidade, disse à Folha o CEO da companhia aérea, John Rodgerson. A medida, segundo ele, abrange todos os tipos de voos: internacionais e domésticos, incluindo os regionais e os que operam em grandes aeroportos do país.

"Até agora nós cortamos mais ou menos 5% da nossa capacidade. E, se você pega uma empresa do nosso tamanho, isso vai refletir em milhões de passageiros ao longo de um ano. A gente espera que esta guerra se resolva logo", afirma o executivo à reportagem. "[O corte] É internacional, regional e para cidades grandes também. Curitiba-São Paulo não tem o mesmo número de frequências que tinha antes. Tem que cortar geral."
De acordo com Rodgerson, a empresa tem seguido duas estratégias: ajuste de malha, com redução de rotas, e diminuição no número de frequências.

"Acho que nenhuma empresa aérea do mundo tem capacidade para repassar tudo isso [aumento dos custos] para o cliente. Todo mundo vai ficar um pouco menos rentável neste ano por causa da guerra."
O CEO da Azul diz que o cenário desfavorável ao setor não provocará um novo Chapter 11 (equivalente à recuperação judicial) para a companhia.

"Nós saímos do Chapter 11 em fevereiro com alavancagem muito menor do que as outras [companhias aéreas brasileiras] quando elas saíram. A gente está confortável onde nós estamos. O que eu acho que nós podemos perder é uma oportunidade de ver o mercado crescer."
Apesar de apontar impacto para todos os segmentos, Rodgerson afirma que, a longo prazo, a aviação regional pode sentir mais os efeitos do aumento do preço do QAV. "Eu acho que é possível, porque o combustível nessas regiões mais remotas é mais caro."
Em entrevista a jornalistas neste sábado (6), o vice-presidente da Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos) para as Américas, Peter Cerdá, disse que a entidade prevê redução na demanda no mercado doméstico brasileiro por causa do aumento no preço da passagem aérea.

De acordo com a previsão de Cerdá, a movimentação de passageiros em voos domésticos no Brasil deve cair para um patamar anual abaixo de 90 milhões. Em 2025, a Iata registrou um fluxo recorde de mais de 100 milhões de viajantes no mercado doméstico brasileiro, um crescimento de 17% na comparação com o ano anterior.

Segundo Rodgerson, o governo "está sendo mais proativo". Ele cita a linha de crédito prometida pela gestão Lula para as companhias aéreas.

Em maio, o Ministério de Portos e Aeroportos disse que o CMN (Conselho Monetário Nacional) havia aprovado a resolução com as condições para a concessão de financiamento de até R$ 1 bilhão para capital de giro de companhias aéreas brasileiras.

A resolução prevê operações com prazo de até seis meses para pagamento, taxa equivalente a 100% do CDI e limite de financiamento correspondente a até 1,6% do faturamento bruto anual de 2025 de cada empresa, limitado a R$ 330 milhões. Segundo a pasta, os recursos serão administrados pelo Banco do Brasil, com risco de crédito integralmente assumido pela União.

FIM DA ESCALA 6X1
Rodgerson afirma que a companhia aérea está tendo conversas com o governo sobre a proposta de fim da escala 6x1, que pode afetar a jornada de trabalho no setor aéreo. O foco das discussões, segundo ele, são os aeronautas -categoria que inclui pilotos e comissários de bordo. "Acho que aeroviários [profissionais da aviação que trabalham em terra] é uma coisa que a gente já aceita que vai passar assim."
"Nós tivemos algumas reuniões com o governo, eles acham que não deve ter um grande impacto nos aeronautas, mas eu acho que nós temos que ver. Acho que só com o tempo nós vamos ver isso", afirma.

Em entrevista a jornalistas em maio, o CEO da Latam, Jerome Cadier, disse que, se a proposta pelo fim da escala 6x1 passasse da forma como estava, a companhia sofreria impactos na operação internacional.

"Alguns projetos vão além de simplesmente tocar o que a gente chama de aeroviários. Alguns incluem até aeronautas nas mudanças da escala de trabalho, o que obviamente não faz sentido nenhum. Se um dos projetos que está aí for implementado, o Brasil não vai ter mais operação internacional, porque a gente não vai poder voar voos de mais de oito horas", disse Cadier na ocasião.

Sindicatos de aeroviários e aeronautas defendem a redução da jornada. Em entrevista à Folha em maio, Diego Barrionuevo, diretor de Relações Internacionais do Sindicato Nacional dos Aeronautas, disse que a escala 5x2 "não é um freio" para a operação das empresas. Segundo ele, as entidades que representam os trabalhadores da aviação encontram dificuldade em negociar com as companhias aéreas.

O jornalista viajou a convite da Iata

Fluxo em voos domésticos no Brasil deve cair para menos de 90 milhões de pessoas, diz associação

PAULO RICARDO MARTINS-RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos) prevê que o alto custo da passagem aérea vai reduzir a demanda no mercado doméstico brasileiro.

O vice-presidente para Américas da entidade, Peter Cerdá, disse em entrevista a jornalistas que a movimentação de passageiros em voos domésticos no Brasil deve cair para um patamar anual em torno de 90 milhões. Em 2025, a Iata registrou um fluxo recorde de mais de 100 milhões de viajantes no mercado doméstico brasileiro, um crescimento de 17% na comparação com o ano anterior.

"Em um país como o Brasil, onde neste [último] ano [2025] tivemos um recorde de mais de 100 milhões de passageiros em voos domésticos, infelizmente voltaremos a ficar abaixo de 90 milhões por causa do alto custo das viagens. Simplesmente não será acessível para muitas pessoas", disse Cerdá.

A associação realiza o IATA AGM (Annual General Meeting) no Rio de Janeiro neste fim de semana. O evento voltou à América do Sul após 27 anos.

Durante a entrevista, Cerdá criticou a alta judicialização do setor no Brasil e a grande carga tributária imposta por governos da América Latina.

"Temos nos reunido com o Ministério da Fazenda e com outras áreas do governo para explicar a importância do transporte aéreo e mostrar o que tem sido feito em outros países ao redor do mundo, onde a aviação recebe um desconto ou uma alíquota menor de imposto, de forma que isso não prejudique a continuidade do crescimento das viagens aéreas", afirmou.

Segundo estimativas da Iata, as mudanças previstas na reforma tributária farão o preço das passagens domésticas e internacionais aumentar, além de reduzir a demanda em 30% no setor.

De acordo com a entidade, o valor médio da passagem aérea para voos domésticos no Brasil daria um salto de 23% e chegaria a US$ 160 (quase R$ 827 na cotação atual). Para os bilhetes internacionais, a alta seria ainda maior, de 26,3%, alcançando a média de US$ 935 (cerca de R$ 4.836).

Cerdá afirma que, se o cenário não melhorar, o setor também sofrerá impacto no transporte aéreo de carga.

"Se o mercado encolher, haverá menos voos e menos espaço disponível nos porões das aeronaves. No fim das contas, outros setores da economia também serão afetados, já que essas mercadorias não poderão ser transportadas com a mesma facilidade", diz.

Ainda segundo Cerdá, a indústria da aviação enfrenta fortes desafios, especialmente devido aos custos com combustível, que vêm crescendo desde a escalada da guerra no Irã.

"Há fatores estruturais que afetam as companhias aéreas e tornam as viagens mais caras. Atualmente, entre 30% e 40% dos custos das companhias aéreas estão relacionados ao combustível, e essa volatilidade continua exercendo pressão sobre o setor", disse.

"E isso certamente não é apenas uma questão financeira. Esse cenário leva ao aumento dos preços das passagens, reduz a conectividade e limita os investimentos. No fim das contas, os mais impactados são os passageiros, o turismo na região e, sem dúvida, as economias dos países", completou Cerdá.

O jornalista viajou a convite da Iata

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