BRB controla oito fundos ligados ao Master, e dois investiram em negócios ligados a Vorcaro
Nathalia Garcia-brasília, Df (folhapress) - 23/01/2026 15:56:45 | Foto: Pedro França/Agência Senado
O Banco Central saiu em defesa do diretor Ailton de Aquino (Fiscalização) nesta sexta-feira (23) e afirmou que ele jamais recomendou ao BRB (Banco de Brasília) adquirir carteiras fraudadas do Banco Master.
Em nota à imprensa, a autoridade monetária também disse que Aquino abriu mão de seus sigilos e colocou à disposição do MPF (Ministério Público Federal) e da PF (Polícia Federal) suas informações bancárias, fiscais e dos registros das conversas que realizou com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Segundo o blog da Malu Gaspar, no jornal O Globo, Aquino enviou mensagens ao então presidente do banco estatal pedindo a aquisição de créditos para ajudar o banco de Daniel Vorcaro a resolver seus problemas de liquidez.
Ainda segundo a reportagem, as mensagens foram apresentadas aos conselheiros do BRB durante reunião, em março de 2025. No encontro, foi aprovada a oferta de compra de 58% das ações do Master.
O Banco Central disse ter a obrigação legal de acompanhar permanentemente as condições de liquidez, inclusive aquisições de ativos entre instituições financeiras, visando a assegurar a estabilidade do sistema financeiro nacional.
"A área de Supervisão do Banco Central, na forma da legislação em vigor, rotineiramente monitora riscos e busca soluções para eventuais problemas de liquidez que venham a ser identificados em toda e qualquer instituição financeira", disse a autoridade monetária.
O regulador afirmou também que compete à instituição financeira a "integral responsabilidade pela análise da qualidade dos créditos que adquire em mercado", sendo necessário manter procedimentos e controles internos para "adequado gerenciamento dos riscos de seus negócios."
BRB controla oito fundos ligados ao Master, e dois investiram em negócios ligados a Vorcaro
LUCAS MARCHESINI E ADRIANA FERNANDES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O BRB (Banco de Brasília) controla oito fundos que aparecem na ciranda fraudulenta do Banco Master. Todos eles são listados pelo Banco Central como parte do conglomerado da instituição do Distrito Federal.
Para analisar o risco no setor financeiro, o BC agrupa todas as instituições controladas por uma líder, no caso, o BRB. O BC encara tudo isso como um grupo para evitar problemas como efeito dominó no setor financeiro.
Seis dos fundos foram listados pelo Master em balanços do banco, como acionista ou administrador. Outros dois compõem a rede de fundos que parte dos indicados pelo BC como suspeitos de fazer parte da fraude.
A sobreposição de fundos na carteira do BRB e os identificados na teia do Master está na mira da auditoria externa contratada pelo banco estatal de Brasília para levantar os problemas na relação com o banco de Daniel Vorcaro.
A reportagem procurou o BRB, o governador Ibaneis Rocha e o Banco Master, mas eles não responderam aos questionamentos.
Ao todo, os fundos que aparecem nessa sobreposição possuem R$ 8 bilhões em ativos, de acordo com dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Entre os investimentos, estão dois negócios ligados a Daniel Vorcaro.
O fundo de investimentos imobiliários Supreme Realty investiu R$ 145 milhões na Mgi Desenvolvimento Imobiliario Spe, empresa que tem Natalia Vorcaro como diretora.
Natalia é irmã de Daniel Vorcaro e é casada com Fabiano Zettel, que chegou a ser preso pela PF na segunda fase da Operação Compliance Zero, na semana passada.
O fundo Strelitzia tem uma participação de R$ 452 milhões na empresa A.Life Partners, dona de diversos bares e restaurantes, como o Nino Cucina e o Ninetto.
Em 23 de outubro de 2024, o fundo adquiriu R$ 210 milhões em ações da A.Life, e o nome de Daniel Vorcaro aparece como interveniente anuente -parte que formaliza o consentimento do contrato- da operação do Strelitzia.
A compra por parte do fundo foi feita em dinheiro, mas com o compromisso de que o montante fosse investido pelos vendedores em CDBs do Banco Master com rendimento de 100% do CDI. A informação consta da demonstração financeira do Strelitzia.
Do total pago pelo fundo aos acionistas da A.Life, R$ 180 milhões foram para um fundo da XP, que aplicou em papéis do Master. Eles tinham prazo de um ano, que se encerrou em outubro do ano passado, um mês antes da liquidação do banco, que aconteceu no dia 17 de novembro.
Uma quantia de R$ 29 milhões foi repassada para a própria A.Life, que também comprou CDBs, mas com prazo de vencimento de três anos. Não é possível saber se a companhia manteve os papéis em sua tesouraria ou revendeu-os no mercado secundário antes da liquidação do Master. A empresa não respondeu aos questionamentos da Folha.
A XP informou que a exposição a papéis do Banco Master "ocorreu exclusivamente por meio de um de seus fundos de Private Equity, sem qualquer capital proprietário".
"A venda da participação foi realizada em processo competitivo que atraiu potenciais compradores de diversos segmentos da economia, como parte do ciclo natural de desinvestimentos do fundo. O processo foi concluído muito antes de se tornarem públicos os eventos recentes envolvendo a instituição compradora", acrescentou.
A XP disse ainda que seguiu as melhores práticas de compliance e mercado, e foi integralmente aprovada pelos órgãos reguladores competentes.
Dois dos fundos são citados nas investigações do Ministério Público Federal que apuram a relação entre o BRB e o Banco Master. O BRB é controlado pelo governo do Distrito Federal, comandado por Ibaneis Rocha (MDB).
Os fundos citados são o Texas 1 e o Kyra. Ambos investiram em ações da Ambipar. Os dois fundos em conjunção com um terceiro chegaram a ter 15% do capital social da empresa.
As operações desses fundos com ações da Ambipar provocaram uma valorização dos papéis que foram alvo de investigação também na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
As operações reduziram a quantidade de ações em livre negociação em aproximadamente 70%, o que teria provocado uma valorização vertiginosa nos papéis, que saltaram de R$ 13 para R$ 97,35 entre 28 de junho e 9 de agosto de 2024.
O dono do Texas era o Banco Voiter, que foi comprado pelo Master e depois vendido a Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também investigado pela PF. O Kyra tinha como cotista um outro fundo, o Borgonha, cujo cotista é um outro executivo do Master.
Entre março e setembro de 2025, o BRB acertou a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Banco Master. A operação foi vetada pelo Banco Central, que identificou uma venda de cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas do Master para o banco de Brasília. O caso também é investigado pela PF.
Nesta semana, o BC decretou a liquidação do Will Bank, banco digital que fazia parte do conglomerado do Master. E a execução das garantias revelou uma outra ligação entre o Master e o BRB.
O Will havia dado como garantia ações do BRB em operações com a Mastercard.
Com o não pagamento pelo Will, a bandeira ficou com 33.684.706 ações do BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. Isso equivale a 6,93% do capital total, ou cerca de R$ 230 milhões.
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