Papa diz que abusos sexuais representam praga para a Igreja e cobra reparação

No final de março, o governo do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e a Igreja espanhola assinaram um acordo para indenizar as vítimas de crimes sexuais

Papa diz que abusos sexuais representam praga para a Igreja e cobra reparação
Papa diz que abusos sexuais representam praga para a Igreja e cobra reparação

São Paulo, Sp (folhapress) - 08/06/2026 11:12:16 | Foto: Papa Leão 14 - Vatican News

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O papa Leão 14 afirmou nesta segunda-feira (8) que os abusos sexuais cometidos por integrantes do clero representam uma praga para a Igreja Católica e cobrou uma resposta com "escuta, verdade, justiça e reparação" às vítimas.

A declaração foi feita durante encontro com bispos da Espanha, onde o sumo pontífice faz visita oficial. E em um contexto de críticas de ativistas que acusam a Igreja de ainda não enfrentar o problema da forma adequada. "Uma das experiências mais dolorosas é encontrar aqueles que foram feridos precisamente por quem deveria cuidar deles, incluindo membros do clero", afirmou o papa.

Leão 14 pediu que toda pessoa prejudicada encontre na Igreja "escuta sincera, acolhimento, proteção e caminhos reais para a cura". O papa também defendeu um compromisso mais forte com medidas de prevenção e com a criação de uma cultura de proteção para crianças e pessoas vulneráveis.

Trata-se da referência mais direta feita pelo sumo pontífice ao escândalo dos abusos clericais durante sua viagem à Espanha, país onde as denúncias de violência sexual praticada por religiosos prejudicaram a credibilidade da Igreja nas últimas décadas, de acordo com analistas. "Diante desta praga, a comunidade eclesiástica é chamada a responder com escuta, verdade, justiça e reparação", disse o papa.

O Vaticano informou que Leão 14 se reuniria com um grupo de vítimas durante a visita, mas não divulgou detalhes do encontro. Segundo a imprensa espanhola, a reunião ocorreria de forma reservada na Nunciatura Apostólica, em Madri.

A decisão motivou críticas de associações de ativistas, que afirmam não terem sido convidadas. Integrantes desses grupos protestaram em frente à representação diplomática do Vaticano para denunciar o que consideram falta de transparência.

Ativistas cobraram também ações concretas, incluindo atendimento psicológico permanente, indenizações justas e apoio educacional e profissional às vítimas.

A dimensão do problema na Espanha foi evidenciada por um relatório divulgado em 2023 pelo Defensor do Povo, órgão de direitos humanos do país. O documento estimou que mais de 200 mil menores podem ter sofrido abusos sexuais cometidos por integrantes do clero católico desde 1940.

Em resposta à pressão, o governo espanhol e a Igreja firmaram, em março deste ano, um acordo para indenizar vítimas de crimes sexuais, após anos de resistência e acusações de falta de transparência por parte da hierarquia eclesiástica.

Além da questão dos abusos, Leão 14 aproveitou a visita para apresentar uma mensagem política ao Congresso. Falando em espanhol diante dos parlamentares, o papa afirmou que o mundo vive uma "profunda crise espiritual e cultural", marcada pelo aumento da violência, da polarização e da desconfiança entre as sociedades.

"O mundo atravessa uma profunda crise espiritual e cultural, que se manifesta em múltiplas formas de violência, polarização e desconfiança mútua", disse ele.

O papa também falou sobre migração. Segundo Leão 14, nenhum país consegue enfrentar sozinho os desafios migratórios. Ele defendeu uma resposta internacional coordenada, com base em acolhimento, proteção e integração.

Segundo ele, a incapacidade da comunidade internacional de lidar adequadamente com o fenômeno migratório coloca em risco os fundamentos éticos da ordem global. O papa também pediu que os governos combatam as causas que levam milhões de pessoas a deixar seus países, como guerras, pobreza e mudanças climáticas.

O tema tem especial relevância na Espanha, cuja rota das Ilhas Canárias se tornou uma das principais portas de entrada de migrantes na Europa. Mais de 3 mil pessoas morreram em 2025 tentando alcançar o arquipélago em embarcações precárias, segundo organizações humanitárias.

E em um momento em que o governo do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, discute a possibilidade de incluir o direito ao aborto na Constituição espanhola, Leão 14 reafirmou a posição tradicional da Igreja Católica sobre a defesa da vida desde a concepção.

"Toda vida humana deve ser reconhecida e protegida, desde a concepção até seu fim natural", afirmou. Na Espanha, a eutanásia é permitida.

Ao longo da semana, o papa ainda visitará a cidade de Barcelona para abençoar uma nova torre da Basílica da Sagrada Família e seguirá para as Ilhas Canárias, onde encerrará a viagem.

Casos de abuso sexual ainda são ferida aberta, diz papa Leão 14 ao chegar à Espanha

O papa Leão 14 chegou neste sábado (6) a Madri, primeira etapa de uma visita de sete dias à Espanha durante a qual deve discutir questões migratórias e se reunir com vítimas de violência sexual na Igreja Católica. "Os abusos são uma ferida ainda aberta", disse o pontífice a jornalistas durante a viagem.

Relatório publicado em 2023 pelo "defensor del pueblo", um cargo inspirado na função de ombudsman, da Suécia, que foi instituído na Espanha na Constituição de 1978, estimou que mais de 230 mil crianças e adolescentes podem ter sofrido agressões por parte de religiosos católicos desde 1940.

No final de março, o governo do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e a Igreja espanhola assinaram um acordo para indenizar as vítimas de crimes sexuais, após anos de reticências e falta de transparência por parte da hierarquia eclesiástica.

O rei Felipe 6º, que deu as boas-vindas a Leão 14 no Palácio Real, ao lado da rainha Letizia e do premiê Pedro Sánchez, cumprimentou o religioso pela forma como lida com o assunto. "Vossa clareza e firmeza, que também quero reconhecer, são essenciais no processo de cura e reparação do dano infligido", disse.

Trata-se da primeira visita do pontífice à União Europeia além da Itália. Após a cerimônia no Palácio Real, o papa fará uma vigília de oração próxima do estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, onde espera reunir 400 mil pessoas. No domingo (7), celebrará uma missa na praça de Cibeles, na qual espera reunir 1 milhão de fiéis.

"Eles percebem que há um vazio, e talvez minha visita tenha ajudado a despertar algo que nem eles mesmos sabem bem como definir", disse Leão 14 durante a viagem sobre o interesse dos jovens pelo catolicismo. "Se forem questionados se querem ver Bad Bunny ou o papa, acho que muitos irão ver Bad Bunny, mas também acho que haverá alguns que venham ver o papa, e isso diz algo."
Na segunda-feira (8), Leão 14 se tornará o primeiro pontífice a discursar no Parlamento espanhol. Na terca (9), em Barcelona, deve inaugurar uma nova torre na basílica da Sagrada Família. Já no arquipélago das Ilhas Canárias, na quarta (10), o religioso se encontrará com migrantes que enfrentaram o oceano Atlântico para chegar à Europa e organizações dedicadas a ajudá-los.

Sánchez acompanhará o papa em uma cerimônia de homenagem aos migrantes que morreram na travessia para tentar chegar ao território -em 2025, foram mais de 3.000 pessoas, segundo a ONG Caminando Fronteras. Ao contrário de países vizinhos, o governo do premiê impulsionou um plano de regularização de migrantes que deverá normalizar a situação de cerca de 500 mil pessoas.

Papa diz que Deus está ao lado dos pobres em missa com 1,2 milhão em Madri

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 1,2 milhão de pessoas lotaram as ruas de Madri neste domingo (7) para uma missa do papa Leão 14. No evento, ele pediu uma renovação da fé católica na Espanha e disse que Deus "está ao lado dos pobres, dos oprimidos, dos que estão sozinhos e abandonados".

O rei Felipe 6 e a rainha Letizia se juntaram a multidões de devotos que agitavam bandeiras espanholas e do Vaticano na Praça Cibeles. Alguns jogaram pétalas de flores quando o papa chegou ao local em seu papamóvel branco, ao som de gritos de "viva o papa".

Em sua homilia, Leão disse que os espanhóis não deveriam encarar a religião como "um museu do passado a ser visitado, mas uma escola de fé da qual se pode extrair algo ainda hoje", e exortou os fiéis a viverem a fé católica ajudando os outros.

A missa acontece no segundo dia da visita de sete dias de Leão 13 à Espanha, onde a prática religiosa tem caído de forma acentuada nos últimos anos, assim como em boa parte da Europa ocidental.

Uma grande operação logística e de segurança foi montada para o evento. Após a missa, o papa conduziu uma procissão por um trajeto ladeado de cravos brancos e amarelos -as cores da bandeira vaticana.

Os organizadores informaram que mais de 1,2 milhão de pessoas estavam presentes na praça e no entorno.

Nico Aldeanueva, 28 anos, que visitava Madri vindo da Filadélfia, nos Estados Unidos, disse que o papa é "uma força muito unificadora em um momento em que temos divisão em tantas frentes diferentes".

"Parece que temos conflitos intermináveis e, por um momento aqui, dá para dar uma pausa, aproveitar o instante e sentir a fé", afirmou.

Ana Milagros, 64 anos, que agitava uma bandeira vaticana, disse achar o papa -nascido nos Estados Unidos- "acessível" e "muito sincero".

"Há muita polarização e diferenças na política, nas questões sociais, na economia", disse ela, acrescentando: "O papa está tentando, com esta visita, ajudar a todos nós."
Mais tarde neste domingo, Leão 14 se reunirá em particular com membros de sua ordem religiosa agostiniana antes de encontrar representantes do entretenimento, do esporte e da cultura em uma arena no centro de Madri, com o objetivo de fomentar o diálogo entre a fé e a sociedade civil moderna.

Cerca de 56% dos espanhóis se identificam como católicos, ante 90% na década de 1970, segundo pesquisa divulgada no mês passado pelo Centro de Pesquisas Sociológicas, órgão público autônomo.

No sábado, o papa se reuniu com migrantes e pessoas em situação de rua antes de uma vigília de oração com cerca de 600 mil jovens do lado de fora do estádio Bernabéu, do Real Madrid, que se estendeu pela noite.

O papa iniciou a visita ao país com pompa e cerimônia em uma recepção no palácio real de Madri, onde pediu o fim de "narrativas polarizadoras" e "simplificações estéreis". Leão também elogiou a Espanha -cujo governo de esquerda tem se desentendido com seu país natal, os Estados Unidos, e com Israel sobre as guerras no Oriente Médio- por seu "compromisso ativo com a paz e a solidariedade entre os povos".

Leão disse ainda esperar que a visita, a primeira a um país da União Europeia fora da Itália, sirva de exemplo ao mundo sobre o respeito a "todo ser humano", e pediu a líderes que deixem de dividir os eleitores.

O papa deve visitar Barcelona na terça (9) e na quarta-feira (10), quando abençoará a torre recém-concluída da basílica da Sagrada Família, que fez do templo a igreja mais alta do mundo.

A viagem terminará com foco na migração nas Ilhas Canárias, destino chave das chegadas irregulares, com milhares de pessoas morrendo no Oceano Atlântico na tentativa de alcançá-las. Lá, o papa se encontrará com migrantes que arriscaram a vida ao cruzar o oceano vindos da África Ocidental.

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