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Como o agronegócio brasileiro irá se reinventar nos próximos dez anos

Como o agronegócio brasileiro irá se reinventar nos próximos dez anosFoto: Cristiano Mariz/Divulgação/Exame

Joe Valle, produtor de orgânicos em Brasília: as 5.000 toneladas de hortaliças são vendidas em grandes varejistas e na rede de lojas próprias que ele criou

Por Carla Aranha, Carolina Riveira - Revista Exame - 22/04/2021 - 16:16:28

Os novos saltos de produção precisarão ser conjugados com as demandas dos consumidores e as exigências ambientais — tudo isso regado com muita tecnologia

Há quatro anos, a agricultora Carminha Maria Gatto Missio, uma das maiores produtoras de soja do oeste da Bahia, decidiu tomar uma rota diferente de muitos de seus vizinhos. Em 2017, ela passou a comprar insumos naturais, feitos à base de bactérias e fungos, desenvolvidos para combater pragas e aumentar a fertilidade do solo. Ela também certificou sua propriedade, de 6.000 hectares, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para utilizar micro-organismos desenvolvidos pela instituição no controle de doenças como alternativa a agrotóxicos. A iniciativa está longe de ser experimental, mas não é prática tão comum entre os grandes produtores. Hoje, o mercado de bioinsumos, como são chamados esses produtos, movimenta cerca de 1 bilhão de reais por ano, o dobro do registrado cinco anos atrás.

Missio está animada com os resultados dessa nova abordagem no campo. No ano passado, a produtividade média de sua fazenda foi de 63 sacas de soja por hectare (a média nacional foi de 55 sacas). Neste ano, ela deve faturar cerca de 36 milhões de reais, 12,5% mais do que em 2020.

“Nosso agronegócio é conhecido por ser muito produtivo e inovador, mas o que impressiona os clientes hoje são os avanços em relação à preservação ambiental”, diz a produtora que, em 2019, recebeu na fazenda um grupo de 15 embaixadores que foram à região a convite da Confederação Nacional de Agricultura. No tour pela propriedade, os diplomatas puderam acompanhar trabalhos de reflorestamento das margens de nascentes de rios e da mata local.

“Nosso agronegócio é conhecido por ser muito produtivo e inovador, mas o que impressiona os clientes hoje são os avanços em relação à preservação ambiental”, diz a produtora que, em 2019, recebeu na fazenda um grupo de 15 embaixadores que foram à região a convite da Confederação Nacional de Agricultura. No tour pela propriedade, os diplomatas puderam acompanhar trabalhos de reflorestamento das margens de nascentes de rios e da mata local.

A agricultora de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, é uma entre muitos produtores rurais brasileiros que estão conscientes de que o agronegócio está em profunda transformação. Como ela, 57% dos fazendeiros do país já utilizam métodos de fertilização naturais e 78% fazem o controle biológico de pragas, segundo uma pesquisa da consultoria McKinsey realizada no início do ano.

“Há uma demanda crescente pelo uso mais eficaz e produtivo de defensivos agrícolas e pela preservação ambiental, o que se reflete também em novas exigências das empresas de comércio exterior e das redes de varejo”, diz Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey. “Muitos já entenderam que é preciso começar a implementar uma série de tecnologias e inovações sustentáveis para estar bem posicionado no mercado no médio e longo prazo.”

Quem não entender o recado corre o risco de sofrer no bolso. O Banco Central lançou em março uma consulta pública para a incorporação de critérios relativos à agricultura de baixa emissão de carbono e a utilização de energias renováveis na fazenda para a concessão de crédito rural. A medida deverá entrar em vigor no início de julho. Os fazendeiros que adotarem essas práticas deverão ter acesso a condições melhores de financiamento.

O banco Santander já utiliza critérios semelhantes para negociar empréstimos para cooperativas agrícolas e grandes empresas do setor. Iniciativas como a revitalização de nascentes podem gerar descontos na taxa de juro. “Temos um departamento de sustentabilidade com funcionários que cuidam só desse tipo de avaliação”, diz Carlos Aguiar, diretor de agronegócio do Santander.

Não é por acaso que 33% dos produtores rurais brasileiros consideram altamente estratégico medir o impacto ambiental de seu negócio e 47% dizem que é importante reportar de maneira mais eficiente esse aspecto da gestão, de acordo com uma pesquisa da consultoria PwC publicada com exclusividade pela EXAME.

“O agronegócio está passando por uma revolução para se preparar para o futuro, o que envolve aprimorar a gestão e investir em novas tecnologias e políticas ESG [sigla em inglês para ambiental, social e governança]”, diz Mauricio Moraes, líder de agronegócio da PwC. Tudo isso, claro, em meio a uma crise sanitária. “Apesar do contexto econômico e social da pandemia, o agronegócio superou as expectativas no último ano”, diz Pedro Parente, presidente do conselho de administração da BRF.

O tema foi debatido no dia 8 de abril no evento online Superagro 2021, promovido pela EXAME, que contou com a participação de executivos de grandes empresas, governadores, embaixadores, especialistas e fundadores de startups.

A história de sucesso do campo nacional já marca quatro décadas. Nos últimos dez anos, o cultivo de grãos aumentou 72,5%, chegando a 257 milhões de toneladas na última safra, um recorde histórico. Neste ano, deverá ser batido um novo marco, com a colheita de 272 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento.

Para 2030, o Ministério da Agricultura projeta um cenário com quase 370 milhões de toneladas de produção de grãos, o principal motor da agricultura brasileira. Esse avanço virá, sobretudo, do aumento da produtividade média, de 3% ao ano (percentual que se mantém consistente desde os anos 1970).

Nessa toa­da, o PIB do agronegócio, que em 2020 respondeu por 24% do total da geração de riqueza no país, deverá alcançar o patamar de quase 3 trilhões de reais no fim da década, a preços de hoje. No ano passado, o agronegócio movimentou 2 trilhões de reais.

Esse crescimento virá da produção de commodities consagradas, como a soja, mas também de segmentos considerados nichos de mercado ou de lavouras que nem sequer existiam no país. Esse é o caso da cannabis cultivada para fins medicinais. Proibida no Brasil, a cultura foi legalizada em países como Canadá e Estados Unidos.

Há quem já se prepare para o cenário aqui. Criada em 2015, a Entourage passou seus primeiros cinco anos em projetos de pesquisa sobre a aplicação da cannabis na fabricação de medicamentos. A empresa, que já recebeu aportes da ordem de 25 milhões de reais de grupos estrangeiros e investidores particulares, deverá lançar os primeiros remédios à base de canabidiol para combater dores crônicas e enjoos fortes, comuns em quem faz quimioterapia (é necessário ter prescrição médica).

“A expectativa é que o cultivo para fins medicinais seja permitido no Brasil, o que deve impulsionar esse mercado”, diz Caio Abreu, fundador da empresa.

Claudinei Saldanha Júnior, produtor de leite orgânico no interior de São Paulo: na fazenda que fornece para a Nestlé, o lema é vacas “felizes” produzem um leite melhor (Leandro Fonseca/Exame)

Outro mercado promissor para o agro é o de carnes vegetais. Símbolo da transformação dos desejos do consumidor, a startup brasileira Fazenda Futuro chegou a 15 países com produtos como hambúrguer, linguiça e almôndegas à base de plantas e desembarca em maio no concorrido mercado americano.

Por lá, a concorrente Beyond Meat, desde sua oferta inicial de ações em 2019, foi de pouco mais de 1 bilhão para 8 bilhões de dólares em valor de mercado. Para o fundador da Fazenda Futuro, Marcos Leta, o mercado para as carnes de planta é um caminho sem volta.

Neste ano, a empresa também lançou seu hambúrguer de planta “versão 2030”, com menos sódio e mais produtos orgânicos — uma acusação comum aos produtos do setor é de serem ultraprocessados.

Críticas à parte, empresas de todos os tipos têm lançado produtos vegetais nos últimos anos — de laticínios, como as multinacionais Nestlé e Danone, a produtores de ovos, como o grupo brasileiro Mantiqueira.

Entre os gigantes de carne bovina, um dos destaques é a Marfrig : depois de lançar seu hambúrguer vegetal em 2019 e emplacar uma parceria com o Burger King no Brasil, criou no ano passado uma joint venture com a americana ADM, de processamento de grãos.

A companhia brasileira controla 70% da nova empresa, batizada de PlantPlus Foods. A consultoria Euromonitor aponta que o mercado de substitutos da carne cresceu 70% no Brasil no último ano, embora ainda seja incipiente, chegando a 82,8 milhões de dólares em 2020 — e projeção de 132 milhões de dólares em 2025.

Um estudo recém-lançado da consultoria Boston Consulting Group estimou que os alimentos à base de planta vão capturar de 11% a até 22% do mercado de proteína global em 2035 (o relatório também ganhou as notícias por afirmar que o consumo de carne atingirá seu “pico” em 2025 nos Estados Unidos e na Europa). “O Brasil pode se tornar um polo de produção de plant based para o mundo”, diz Leta.

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