Os animais aprenderam rapidamente que bicar a forma única rendia minhocas como recompensa
São Paulo, Sp (uol/folhapress) - 12/03/2026 17:37:42 | Foto: © Fernando Frazão/Agência Brasil - Ilustrativa
Um estudo recente revelou que corvos podem ser considerados verdadeiros 'mestres' da geometria e conseguem detectar simetria e formas regulares com uma precisão que supera até a de primatas.
O estudo publicado em abril do ano passado na revista Science Advances revelou a aptidão incrível dessas aves. A pesquisa mostrou que os corvos distinguem formas usando irregularidades geométricas como pista cognitiva. "Distinguir formas com base em propriedades geométricas, como comprimentos de lados ou ângulos internos, é muito mais difícil do que parece", diz Giorgio Vallortigara, neurocientista da Universidade de Trento.
A equipe de pesquisadores trabalhou com dois corvos-necrófagos machos treinados para interagir com uma tela sensível ao toque. As aves, que já tinham mais de dez anos e sabiam contar, precisavam escolher a forma geométrica diferente em um conjunto de seis imagens.
Os animais aprenderam rapidamente que bicar a forma única rendia minhocas como recompensa. Após o sucesso com padrões simples, como estrelas e luas, os cientistas introduziram imagens mais complexas, deslocando um único canto para distorcer a simetria ou os ângulos retos.
As aves tiveram um desempenho muito acima do esperado, mesmo sem conhecer aquelas comparações antes. Na primeira tentativa, um corvo acertou 50% e o outro, 60%, números superiores aos 16,7% esperados caso fizessem escolhas aleatórias entre as seis opções.
A precisão impressionante se manteve mesmo com as formas rotacionadas e alteradas de tamanho. Uma análise estatística confirmou que os corvos identificavam as imagens intrusas com mais facilidade quando as figuras base seguiam regras geométricas mais fortes, como lados paralelos e ângulos retos.
ORIGEM DA HABILIDADE
A razão para essa capacidade avançada provavelmente tem origem evolutiva e ligação com a orientação espacial. "Suspeito que a origem e o impulso para o desenvolvimento dessas habilidades têm principalmente a ver com orientação espacial. Pode ser que, dependendo dos hábitos de forrageamento ou outras coisas, [os corvos] tenham tido mais necessidade de desenvolver isso [do que] outras espécies", avalia Vallortigara.
A inteligência geométrica também é uma parte fundamental do reconhecimento de rostos. O neurocientista sustenta que usamos a posição de características como olhos e boca para distinguir indivíduos, e os corvos podem usar essa mesma inteligência para selecionar parceiros ou reconhecer membros do grupo.
Pesquisas anteriores com babuínos indicavam que nossos primos evolutivos não reconheciam quadriláteros regulares. Esse fato levou alguns cientistas a acreditar que a intuição geométrica seria unicamente humana, mas a família dos corvídeos provou o contrário ao discernir diferenças sutis.
A descoberta refutou a ideia de que apenas os humanos conseguem detectar regularidade geométrica. "A alegação de que isso é específico de nós humanos, de que só humanos conseguem detectar regularidade geométrica, agora foi refutada, porque temos pelo menos o corvo", afirma Andreas Nieder, neurofisiologista da Universidade de Tübingen e pesquisador principal do estudo.
Os especialistas concordam que outras espécies também podem ser capazes de feitos semelhantes. Nieder completa que "todas essas capacidades, no final das contas, do ponto de vista biológico, evoluíram porque proporcionam uma vantagem de sobrevivência ou reprodutiva".
O pesquisador principal espera que estudos futuros revelem quais partes do cérebro do corvo controlam essa inteligência. "É muito importante que possamos trabalhar com animais e também explorar esses animais. Aprendemos muito sobre seus cérebros, mas também sobre os nossos, porque temos habilidades fundamentais que compartilhamos com eles", finaliza Nieder.
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