O mundo fechou a semana com menos pressão comercial direta
Por João Zisman - 23/02/2026 11:21:32 | Foto: Divulgação João Zisman
A semana passada terminou sob um gesto que alterou a direção imediata do comércio internacional. A Suprema Corte dos Estados Unidos suspendeu o tarifaço defendido por Donald Trump, retirando do horizonte próximo uma escalada protecionista que vinha sendo incorporada aos cálculos de risco global. A decisão não resolveu divergências estruturais, mas afastou um choque tarifário que poderia ter contaminado cadeias produtivas e expectativas de investimento.
O mundo fechou a semana com menos pressão comercial direta.
Mas a nova semana não começou mais tranquila.
O foco deslocou-se para o Oriente Médio, onde o cenário interno iraniano se deteriora sob um regime que responde a manifestações com repressão crescente e controle de informação. Não se trata de instabilidade episódica. Trata-se de um processo acumulado de insatisfação popular que vem sendo sufocado por força estatal. Em regimes fechados, a aparência de normalidade raramente é sinônimo de equilíbrio; ela costuma ser resultado de medo e contenção.
Nesse ambiente já tenso, os Estados Unidos elevaram o patamar de resposta. Não houve apenas retórica. Houve movimentação de frota para a região, sinalizando presença militar concreta. Ao mesmo tempo, declarações oficiais indicaram que, caso a situação avance para ameaça regional mais ampla, a hipótese de ação não está descartada. Do lado iraniano, a resposta foi igualmente direta, afirmando que eventual ataque poderia gerar retaliação não apenas contra Israel, mas também contra países do Golfo alinhados a Washington.
Essa troca não é trivial.
Quando forças navais são deslocadas e ameaças deixam de ser implícitas, o risco geopolítico deixa de ser especulação teórica e passa a compor cálculo econômico. A região envolvida concentra parte significativa da produção global de energia. Petróleo reage a expectativa, não apenas a conflito consumado. A simples elevação do risco altera prêmio de seguro, rota de transporte, custo de capital e projeção inflacionária.
A semana anterior terminou com alívio tarifário.
A semana atual começa com pressão estratégica sobre energia.
A natureza do risco mudou.
Para o Brasil, esse deslocamento importa. O dólar, que vem recuando nas últimas semanas, mantém trajetória de acomodação sem movimentos abruptos, refletindo, até aqui, ausência de choque imediato. Não há corrida cambial. Mas em ambiente de tensão energética, o câmbio tende a precificar risco antes que qualquer barril deixe de circular. O impacto não é automático, mas é plausível.
Enquanto o mundo ajusta sua equação externa, o cenário político doméstico também entra em fase mais explícita de definição.
O caso Master/BRB continua produzindo desdobramentos institucionais, com reunião convocada na Polícia Federal, o que mantém o tema no centro do debate político-financeiro. Não é episódio isolado, é processo em andamento.
No plano eleitoral, a formação de chapas majoritárias já revela disputa aberta dentro do próprio campo conservador. O PL orienta suas lideranças a buscar protagonismo nas composições estaduais, preservando o comando estratégico nacional. Em estados como Santa Catarina, a definição de nomes para o Senado gerou tensionamento interno, evidenciando que a engenharia eleitoral não está pacificada.
Em São Paulo, a troca pública de declarações entre Kassab e Tarcísio expôs sensibilidade política antecipada, com referência a submissão de um lado e lealdade de outro. Não se trata de mal-entendido. Trata-se de delimitação de espaço.
O que se observa não é desorganização, mas disputa por centralidade antes do calendário apertar.
E há ainda o efeito residual do desfile que homenageou Lula e gerou reação entre conservadores e evangélicos, tema que ultrapassou a avenida e entrou na arena política, com aliados de oposição avaliando que o episódio ofereceu munição estratégica, enquanto o governo negou ingerência. A festa terminou. O cálculo político não.
A transição de uma semana para outra revela algo mais relevante do que qualquer manchete isolada. O comércio internacional ganhou trégua jurídica, mas a energia voltou ao centro da tensão. Internamente, alianças deixam o campo da suposição e entram no da afirmação pública. Nada disso é colapso iminente. Tampouco é calmaria.
É um cenário de camadas sobrepostas.
Se a repressão interna no Irã continuar a escalar sob blackout informacional, a pressão externa tende a aumentar. Se a movimentação militar ganhar novos contornos, o impacto será econômico antes de ser bélico. Se as disputas internas no campo conservador se intensificarem, a reorganização eleitoral será mais complexa do que aparenta hoje.
A semana não começa sob sobressalto cambial nem sob manchete de guerra declarada. Começa sob tensão acumulada.
E tensão acumulada raramente explode de uma vez. Ela se infiltra.
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