EUA ignoram pedido do Brasil para reunião com Bachelet, candidata à ONU
Igor Gielow-são Paulo, Sp (folhapress) - 14/08/2026 14:15:40 | Foto: Agência de Notícias da Indústria
O governo de Donald Trump pretendia coroar sua declaração em defesa do domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina com uma demonstração de força militar inédita, empregando bombardeiros pesados B-52 com apoio dos aliados Chile e Argentina, mas ela foi adiada na terça-feira (11).
A ação coincidiria com a publicação, pelo Departamento de Estado americano, de uma postagem na qual era exaltada a Doutrina Monroe, que desde o século 19 define a América Latina como zona de influência exclusiva de Washington.
Ela foi atualizada, segundo a releitura de Trump, na Estratégia de Segurança Nacional publicada no fim de 2025, servindo de arcabouço teórico para a renovada agressividade americana na região -como a captura do ditador Nicolás Maduro e a transformação da Venezuela em um Estado cliente dos EUA mostrou.
Segundo um diplomata com conhecimento do assunto nos EUA, o governo Trump quis demonstrar alinhamento com seus seguidores ideológicos na América do Sul, em oposição ao crescente mal-estar com o governo Lula (PT) no Brasil.
Essa é a percepção também de membros do governo brasileiro ouvidos pela reportagem. É a mais aberta sugestão de pressão militar dos EUA contra o Brasil na atual crise. Questionada, a Embaixada dos EUA em Brasília ainda não comentou o caso.
Pelo plano inicial, três bombardeiros estratégicos com capacidade para ataques nucleares B-52H Stratofortress voariam de sua base em Minot, na Dakota do Norte, para o Chile e a Argentina. Lá, seriam acompanhados por aviões de reabastecimento e caças dos dois países governados por aliados de Trump.
A viagem seria apoiada, no caminho até o Cone Sul, por sete aviões-tanque baseados em MacDill, na Flórida. Mas uma falha ainda não confirmada em um desses KC-135 Stratotanker, segundo o site chileno Zona Defensa, acabou fazendo com que todas as aeronaves retornassem a seu ponto de partida, cerca de seis horas e meia após a primeira decolagem.
Segundo disse por e-mail à Folha o Comando Sul das Forças Armadas dos EUA, a missão "foi postergada devido a outras exigências operacionais", sem detalhar o motivo. Como é sugerido, ela ainda deverá acontecer.
Os itinerários das aeronaves, que estavam com seus sistemas de localização ligados, foram acompanhados por sites de monitoramento de tráfego aéreo. Por sua natureza, uma operação dessas requer planejamento de no mínimo uma ou duas semanas dada a coordenação regional.
O voo dos B-52 estava previsto para durar até 29 horas, sem pouso na região, e a missão entra no escaninho BTF (Força-Tarefa de Bombardeiros, na sigla inglesa), operações de deslocamento rápido de amplo poder de fogo.
Os chilenos têm 46 caças americanos F-16, 10 deles comprados novos dos EUA nos anos 2000, além de 3 KC-135 de reabastecimento. Já o governo de Javier Milei fez a primeira compra de renovação de sua Força Aérea no ano passado, quando adquiriu 24 F-16 de modelo A/B, mais antigos, da Dinamarca.
Seis dos caças argentinos já estão no vizinho, e Milei não perde oportunidade de exibi-los em sobrevoos de Buenos Aires ou em eventos, embora do ponto de vista militar sejam mais decorativos por ora.
A presença em si dos B-52 no continente não é inédita, e sim o grau de engajamento com dois aliados fora de um exercício multinacional -que são rotineiros, como no caso da manobra Salitre-2026, realizada no Chile no mês passado com seis Aeronáuticas, inclusive EUA e Brasil. Além disso, nunca os bombardeiros voaram tão ao sul do continente.
Em 2016, por exemplo, dois bombardeiros operaram em coordenação com a Colômbia. Em 2020 e 2024, os gigantes com oito motores participaram de manobras conjuntas na região. Já em 2025, voos com os B-52 fizeram parte da estratégia de pressão sobre a Venezuela que culminou com a captura de Maduro em janeiro deste ano.
A missão dos bombardeiros poderia ter ocorrido se tudo estivesse calmo na seara política, mas o timing chamou a atenção de oficiais da Força Aérea Brasileira ouvidos pela reportagem. A Aeronáutica não foi informada da manobra porque ela não utilizaria o espaço aéreo nacional.
A relação entre EUA e Brasil está em sua pior fase na história. Trump sobretaxou importações de produtos brasileiros e, como forma de pressionar pela confirmação da indicação feita sem consulta prévia do novo embaixador em Brasília, cassou o visto da representante do Brasil em Washington.
Adensando o enredo, a China, rival estratégica número 1 dos EUA, demonstrou apoio a Lula e pediu para integrar a ação brasileira sobre o caso na Organização Mundial do Comércio. A pedra angular da retomada da Doutrina Monroe sob Trump é buscar reduzir a influência de Pequim, maior parceiro comercial da América Latina, na região.
Ídolo do clã do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe, Trump tem sido usado tanto por Lula quanto pelo seu rival no pleito de outubro Flávio Bolsonaro (PL) como item de campanha.
Segundo o Datafolha, 52% dos brasileiros veem no tarifaço uma medida para favorecer o senador fluminense, mas o petista ainda não colheu frutos de sua campanha pela soberania como no atrito análogo em 2025.
A política também contaminou os laços com a Argentina desde que Mile veio ao lançamento da candidatura de Flávio à Presidência e criticou o petista e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo. O Itamaraty chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires de volta, degradando o nível da relação diplomática com o vizinho.
Já a relação de Lula com o presidente chileno, José Antonio Kast, é distante, mas cordial. O brasileiro não foi à sua posse, no começo do ano, mas eles se encontraram posteriormente.
EUA ignoram pedido do Brasil para reunião com Bachelet, candidata à ONU
MAYARA PAIXÃO - RICARDO DELLA COLETTA-NOVA YORK, EUA, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo de Donald Trump não respondeu a um pedido da diplomacia brasileira para receber a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, 74, em reunião que trataria de sua candidatura a secretária-geral da ONU.
A candidatura da chilena é patrocinada pelo Brasil e pelo México, e ela disputa o cargo, até o momento, com outros sete concorrentes. O atual secretário-geral, o português António Guterres, deixa o posto em 31 de dezembro, após dois mandatos consecutivos.
Pessoas envolvidas na candidatura disseram à reportagem que Bachelet visitou oficialmente 12 dos 15 países-membros do Conselho de Segurança, o órgão mais importante da ONU e decisório na eleição.
Ficaram de fora a Dinamarca, a República Democrática do Congo e os EUA, este último o mais importante por ser membro permanente do colegiado e, portanto, ter poder de veto. Com os dois primeiros países, no entanto, houve esforço para realizar encontros. No caso da Dinamarca, Bachelet conversou por telefone com a primeira-ministra, Mette Frederiksen.
Já no caso da República Democrática do Congo, sua viagem não ocorreu por recomendação do próprio país devido às restrições ligadas à epidemia de ebola, que exigem quarentena para viajantes. Temia-se que isso prejudicasse a agenda de campanha de Bachelet.
Ainda assim, ela esteve com a chanceler daquele país em Nova York. Inicialmente, reuniria-se com o presidente, Félix Tshisekedi, mas ele cancelou sua visita à cidade.
No caso dos EUA, não houve nenhuma resposta ao pedido brasileiro para que uma figura de alto nível do governo Trump -por exemplo, o secretário de Estado, Marco Rubio- a recebesse em Washington. Ela visitou os EUA ao menos quatro vezes neste ano, para agendas ligadas à ONU. Procurada por meio de sua assessoria, Bachelet não respondeu a pedidos de comentário.
Um porta-voz do Departamento de Estado disse à reportagem que o órgão não comenta discussões diplomáticas privadas. Mas destacou que os candidatos a secretário-geral da ONU precisam voltar ao básico e se comprometer publicamente com as mudanças que os EUA exigem.
"Qualquer novo secretário-geral deve fazer a ONU retornar ao seu propósito primordial de manter a paz e a segurança no mundo, em vez de seguir a ideologia absurda, politizada e progressista que tem prejudicado a eficácia da instituição", declarou o porta-voz, que falou sob condição de anonimato para discutir o tema.
O nome de Bachelet foi oficializado para concorrer ao cargo máximo da ONU em fevereiro deste ano, com apoios do Brasil, do México e do Chile, seu país natal. A costura havia sido feita com a administração do então presidente chileno, Gabriel Boric. Em março, após assumir a Presidência chilena, o ultradireitista José António Kast retirou o apoio a Bachelet, que é do Partido Socialista.
Além de ex-presidente do Chile (2006-2010, 2014-2018), ela foi ministra das pastas de Defesa e Saúde e posteriormente desenvolveu carreira na própria ONU: foi diretora-executiva da ONU Mulheres e comissária de direitos humanos da organização.
Brasil e México argumentam sobre a importância de ter uma candidata que represente a América Latina (o último da região a ocupar o posto foi o peruano Javier Pérez de Cuéllar, de 1982 a 1991) e que seja uma mulher (só homens chefiaram a ONU desde sua criação, em 1946).
Neste sentido, há outras quatro candidatas de perfil em partes semelhante.
A mais bem cotada é Rebeca Grynspan, 70, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual presidente do escritório da ONU para Comércio e Desenvolvimento. Latino-americana e mulher, ela também acrescenta um aspecto importante ao ser judia, após anos de tensão entre a chefia da ONU e Israel no contexto da guerra na Faixa de Gaza.
A Folha enviou email para a equipe de Grynspan para perguntar se ela teve alguma agenda com autoridades dos EUA, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Depois, a segunda mais bem colocada é Carolyn Rodrigues Birkett, 52, atual representante permanente da Guiana na ONU. Em que pese o fato de o país ser caribenho e anglófono, está na América do Sul e tem similaridades com muitas outras nações da região.
Há ainda María Fernanda Espinosa Garcés, 61, diplomata do Equador que foi indicada a concorrer ao cargo por Antígua e Barbuda; e Virginia Gamba, 72, argentina que foi indicada pelas Maldivas.
Também concorrem ao cargo o argentino Rafael Grossi, hoje diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica); Macky Sall, do Senegal; e Olara Otunnu, de Uganda. Este último foi apresentado há apenas duas semanas, evidenciando que mais nomes podem aparecer na disputa, dado que não há um prazo estrito para o fim de candidaturas.
Grossi teve uma reunião com Rubio em novembro do ano passado, um dia depois de ser anunciado candidato ao mais importante posto da ONU. Ele se encontrou com o chefe da diplomacia americana na condição de diretor da AIEA.
No final do mês passado, o Conselho de Segurança realizou sua primeira pesquisa secreta para avaliar os nomes dos candidatos. No processo, cada país tem de dizer se encoraja, desencoraja ou fica neutro em relação a cada nome. Por ora, não se sabe se o país votante é um membro permanente ou não.
Em rodadas futuras, essa informação será revelada, de modo que nomes que receberem uma carta de desencorajamento de membros permanentes tendem a sair da disputa, já que um nome só é aprovado quando não há veto de nenhum dos membros permanentes.
Naquela primeira rodada, Grynspan, da Costa Rica, foi a mais bem avaliada. Recebeu dez votos de incentivo, um de desencorajamento e quatro neutros. Em seguida, Birkett, da Guiana, recebeu nove incentivos, dois desencorajamentos e quatro neutros. Em terceiro, o argentino Grossi ficou com sete incentivos, dois desencorajemos e seis neutros. Então veio Bachelet, a quarta colocada, com seis incentivos, cinco desencorajamentos e quatro neutros.
Não há um prazo para a eleição do próximo secretário-geral da ONU, e o processo é, em geral, pouco transparente. Ainda haverá outras rodadas de pesquisas secretas, mas o número delas é incerto. Também não se sabe quando será revelada a posição de membros permanentes e membros rotativos.
Um nome é escolhido apenas quando houver consenso na maioria dos 15 membros do Conselho de Segurança -em especial, é claro, entre os cinco permanentes (os vencedores da Segunda Guerra Mundial China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), uma vez que um veto de qualquer um deles impossibilita a eleição de um nome.
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