Na visão do paraguaio, o documento tem potencial para reparar a estagnação da integração entre Europa e América do Sul
Douglas Gavras-assunção, Paraguai (folhapress) - 18/01/2026 18:52:39 | Foto: Presidente do Paraguai, Santiago Peña - EBC
Coube ao presidente do Paraguai, Santiago Peña, ser o anfitrião da assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que se concretizou neste sábado (17), após uma espera de mais de duas décadas e meia.
Na visão do paraguaio, o documento tem potencial para reparar a estagnação da integração entre Europa e América do Sul. Sobre os agricultores europeus contrários ao acordo e que defendem uma pauta protecionista, Peña diz que falta informação, em entrevista exclusiva dada à Folha, na sede do Executivo, o Palácio de López.
O político também afirmou que o atrito com o Brasil, após o episódio de espionagem aos paraguaios pela Abin –que segundo o governo foi autorizada durante a gestão de Jair Bolsonaro–, já está superado e que os dois países precisam pensar o futuro de Itaipu.
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Folha - Qual é a importância deste acordo, após tanta espera, ter sido assinado no Paraguai, na mesma cidade em que o tratado que deu origem ao Mercosul foi assinado?
Santiago Peña - Para nós, trata-se de retornar às nossas raízes. Assunção tem essa essência de ser um centro de encontros, a cidade está prestes a celebrar 500 anos desde a sua fundação. Foi uma das primeiras fundadas pelos espanhóis, o berço da colônia. Eles estiveram aqui por 300 anos e, daqui, expedições partiram para fundar outras cidades.
O Paraguai foi pioneiro na conquista da independência, atingiu níveis muito altos de desenvolvimento, o que gerou as complicações que nos levaram à guerra com o Brasil, a Argentina e o Uruguai, que nos deixaram à beira do extermínio. Mas a guerra nunca afetou nossa essência e nossa natureza.
Então, em 1991, Assunção tornou-se novamente um centro de integração. O Mercosul nasceu no Paraguai. Então, hoje, este acordo, o maior do mundo entre a Europa e o Mercosul, foi assinado. Para nós, ele tem valor, mas também reafirma quem somos. Queremos ser o centro de integração da América do Sul e de toda a América Latina.
Folha - O acordo levou mais de 25 anos em negociação. É uma integração tardia?
Santiago Peña - A Europa perdeu a oportunidade de desenvolver o Mercosul e a América Latina. E o acordo do Mercosul com a União Europeia é uma oportunidade. Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai não só combinam um enorme potencial na produção de alimentos, integração e transição energética, como também têm uma população jovem que possui exatamente tudo o que falta à Europa.
A Europa está passando por uma transição energética, principalmente devido ao conflito com a Rússia e, além disso, pelo encolhimento da população. E essa população agora enfrenta desafios migratórios significativos. Nós não temos nenhum desses problemas. Então, acho que para nós, é uma oportunidade de colocar o Mercosul no mapa, de sermos vistos, e isso permitirá mais investimentos, maior acesso ao mercado e mais oportunidades para o nosso povo.
Folha - O sr. costuma dizer que, para o Paraguai, tudo tem de estar dentro do Mercosul. Vocês querem fortalecer o bloco?
Santiago Peña - É tudo dentro do Mercosul. Consideramos o bloco a nossa melhor plataforma. Com o Mercosul, finalizamos acordos com Singapura, com a EFTA [bloco com Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein] e os países europeus. Também estamos propondo que o Mercosul negocie com os Emirados Árabes Unidos, a Coreia do Sul, o Japão, a Indonésia, o Vietnã e o Canadá. Tudo isso nos permitirá acessar cada vez mais mercados.
Folha - E como o sr. vê a reação tensa dos agricultores europeus que são contra o acordo?
Santiago Peña - Falta de conhecimento. Eles não nos conhecem, e é por isso que o acordo é uma chance para eles nos colocarem no mapa. Se você for ao sul do Brasil, a Santa Catarina, encontrará agricultores que são filhos e netos de imigrantes europeus. São os mesmos imigrantes que vieram para cá há cem anos, e agora esses agricultores europeus precisam vir à América do Sul para encontrar agricultores como eles, que trabalham a terra, que cuidam do meio ambiente.
Folha - O sr. acha que Venezuela, que chegou a ser suspensa pelos demais sócios ao não cumprir as obrigações assumidas quando se incorporou ao bloco, poderia retornar ao Mercosul?
Santiago Peña - Sim, definitivamente. Acredito que, se a situação na Venezuela se normalizar, se houver eleições e o povo venezuelano eleger um presidente, tenho certeza de que eles voltarão a fazer parte do Mercosul.
*Folha - Podemos dizer que, dentro do Mercosul, o presidente Lula e o sr. eram os principais embaixadores desse tratado?
Santiago Peña - A verdade é que hoje nos encontramos em uma posição em que todos nos apoiamos e caminhamos mutuamente, e é por isso que conseguimos chegar a este ponto. Às vezes, quando o Brasil queria, a Argentina não queria, e vice-versa.
Hoje, nos encontramos numa posição em que o presidente Lula quer, o presidente Santiago Peña quer, o presidente [da Argentina] Javier Milei também queria, o ex-presidente [do Uruguai] Luis Lacalle Pou antes, e agora o presidente Yamandú Orsi também. É por isso que conseguimos chegar a este ponto, e acho que é um grande momento. Como eu disse no meu discurso, isso não teria sido possível sem a liderança do presidente Lula. Foi fundamental, porque ele trabalhou muito para tornar isso realidade; ele conversou com líderes europeus.
Folha - O presidente Lula foi o único líder do Mercosul a não participar da cerimônia em Assunção. Vocês se falaram nos últimos dias?
Santiago Peña - Não conversamos recentemente. Encontrei-me com ele na cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu [em 20 de dezembro]. Foi uma cúpula importante, onde tivemos a oportunidade de conversar abertamente, e bem, eu sempre mantenho um bom relacionamento com ele, mas ele teria preferido, claro, que o acordo tivesse sido assinado em dezembro.
E ele entendeu que a assinatura era um evento que envolvia ministros de Relações Exteriores, e preferiu não participar.
Folha - Foi por isso que ele não veio?
Santiago Peña - Foi por isso que ele não veio.
Folha - Como está a relação entre Brasil e Paraguai?
Santiago Peña - Muito boa, mas também é um pouco como o acordo União Europeia-Mercosul. Estamos felizes por termos assinado, mas não estamos satisfeitos. Acreditamos que demorou demais; acreditamos que poderíamos ter feito muito mais.
O mesmo acontece com o Brasil. O Brasil é um país muito grande e complexo, enquanto o Paraguai é mais ágil, se move rapidamente, somos competitivos. Portanto, gostaríamos de avançar mais rapidamente em uma agenda de integração em que todos ganhem: o Brasil, o Paraguai, as empresas brasileiras e as empresas paraguaias.
Então, acho que ainda temos muito trabalho a fazer. Provavelmente farei outra visita a São Paulo nas próximas semanas ou meses, que já está planejada. Estive lá no ano passado, em Mato Grosso do Sul e no Paraná.
Folha - A relação se complicou depois do caso de espionagem da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), sobre as posições de Assunção em duas negociações em torno da energia gerada por Itaipu?
Santiago Peña - Está tudo bem. Para nós, é um capítulo encerrado. Pedimos ao governo brasileiro uma explicação, um relatório, e o Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, veio ao Paraguai. Em dezembro, eles apresentaram o relatório. Isso claramente deixou um gosto amargo, mas acreditamos que não devemos nos apegar ao passado. Precisamos seguir em frente.
Folha - E Brasil e Paraguai retomaram a negociação sobre a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu? Como andam as negociações?
Santiago Peña - Sim, estamos negociando, logo na semana seguinte à apresentação do relatório, retomamos as negociações com uma equipe muito importante do Paraguai e do Brasil, que está trabalhando para levar aos presidentes as conclusões desse trabalho para que possamos projetar uma Itaipu para os próximos 50 anos, assim como o Brasil e o Paraguai fizeram há 50 anos, quando assinaram o tratado que hoje nos permite ser líderes mundiais em energia limpa e renovável.
Folha - Como os paraguaios veem o futuro de Itaipu?
Santiago Peña - Precisamos considerar que não há energia suficiente para atender às necessidades que surgirão nos próximos anos. Portanto, precisamos ver como continuar investindo na geração de eletricidade. Há um enorme potencial. As turbinas de Itaipu são bastante antigas; precisamos continuar investindo para aumentar a produção.
O reservatório de água de Itaipu está demonstrando seu potencial como um importante gerador de energia utilizando painéis solares. Portanto, acreditamos que todos esses investimentos são muito, muito importantes.
RAIO-X: SANTIAGO PEÑA, 47
É presidente do Paraguai desde 2023, sendo filiado ao Partido Colorado. Formado em economia, já foi diretor do banco central paraguaio e ministro da Fazenda
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