Ser brasileiro com consciência ambiental e de cidadania exige muita saúde ou ter um amparo psicológico permanente
Por ilza Maria Tourinho Girardi E Sergio Pereira - Observatório Da Imprensa, Edição 1369 - 03/01/2026 10:27:01 | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A COP30, realizada em Belém (PA) no mês de novembro, deixou muito a desejar pelas decisões aguardadas e que não aconteceram. Além disso, foi liberada a exploração, em forma de estudos iniciais, do petróleo na foz do rio Amazonas. As vozes indígenas, demais povos da floresta, dos cientistas e dos ecologistas não foram ouvidas. Nem os pedidos do cacique caiapó Raoni sensibilizaram Lula. Agora, o presidente da República pede a seus ministros das pastas de Minas e Energia, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Fazenda e da Casa Civil que elaborem o mapa para a substituição dos combustíveis fósseis. Então, por que liberar agora?
Vivemos no Brasil tempos de dissonância cognitiva. Nesse cenário político perturbador somos surpreendidos com a matéria da independente Matinal Jornalismo do dia 8 de dezembro sobre as atividades da associação De Olho no Material Escolar (DONME). Assinado pela jornalista Brenda Fernández, a reportagem “ Como o agro quer controlar o que é ensinado nas escolas gaúchas ” traz alerta importante para organização criada por produtores rurais e que está tentando mudar a forma como o agronegócio é abordado nas escolas públicas.
Conforme a matéria, a DONME já palestrou em 18 cidades gaúchas, a maioria conhecidas por sua tradição agrícola, como Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Pelotas, Rio Grande e Dom Pedrito, entre outras. As atividades quase sempre são realizadas em feiras agrícolas ou em formato de visita a fazendas modelos de empresas associadas ao projeto. Conforme dados da entidade, até agora, cerca de 3,7 mil alunos e professores do RS foram impactados com os seus cursos entre 2024 e 2025.
A principal missão da associação é tentar fazer prevalecer seu discurso sobre como o agronegócio é importante para a economia. “Na pauta da DONME, estão sete prioridades elencadas em uma cartilha divulgada pela associação ( leia aqui ) em que a entidade deixa claro os seus objetivos. Entre as propostas para o PNE, está aplicar uma prova em professores ‘inspirada na experiência bem-sucedida do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil’, aumentar a participação da sociedade na indicação de avaliadores responsáveis pela revisão dos livros e criar uma etapa em que órgãos e instituições científicas auditem ‘de forma independente’ os conteúdos dos livros antes da publicação”, relata a jornalista na reportagem.
O agro quer agora fazer prevalecer sobre o imaginário de nossos estudantes uma narrativa parcial, incompleta e, por vezes, negacionista. A exemplo do movimento de extrema direita Escola Sem Partido, a entidade tenta apagar da realidade informações sobre o agronegócio brasileiro e seus problemas. É o caso da silenciosa destruição dos biomas brasileiros, inclusive o Pampa afetado sem perdão pelo avanço da soja ; do uso indiscriminado de agrotóxicos ; ou do grave problema da deriva de pesticidas que afeta não somente a saúde de todos, mas também a economia de produtores de outras culturas.
As últimas notícias não têm dado descanso aos brasileiros que travam a luta ambiental e que defendem um país melhor para todos, não apenas para alguns, como a classe ruralista. É grande a força do agro, cada vez mais mecanizado, com sua majoritária bancada no Congresso Nacional determinando os rumos da política, com a predominância em nossas lavouras da monocultura da soja, exportada em sua grande maioria como ração para gado. A escola, no entanto, não é lugar para versões, mas sim um espaço para o aprendizado, a convivência social e, agora mais do que nunca, para consolidação da verdade.
Publicado originalmente em Observatório de Jornalismo Ambiental.
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Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS – E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br
Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS. E-mail: sergiorobpereira@gmail.com
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