Especialistas explicam o que é morte súbita por epilepsia

Especialistas explicam o que é morte súbita por epilepsia, provável causa da morte de Ricardo Spencer

Especialistas explicam o que é morte súbita por epilepsia
Especialistas explicam o que é morte súbita por epilepsia

Luis Eduardo De Sousa-campinas, Sp (folhapress) - 08/10/2026 06:34:59 | Foto: Reprodução / Bons Fluidos - Portal de Notícias Terra

A causa da morte do diretor e cineasta Ricardo Spencer, encontrado sem vida em seu apartamento no Copan, no centro de São Paulo, tem relação com seu quadro de epilepsia. É o que aponta o resultado do laudo necroscópico do IML (Instituto Médico Legal), cujas informações a família tornou públicas.

Ricardo tinha 49 anos e era epiléptico. Foi encontrado morto na manhã de 20 de julho, sem sinais de violência, intoxicação ou atentado contra a própria vida. Um mês depois, o laudo indica que a causa mais provável é uma sudep (acrônimo para morte súbita inesperada em epilepsia, em inglês).

O neurologista Frederico Haidar Jorge, doutor pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e membro do Ambulatório de Esclerose Lateral Amiotrófica, diz que a sudep é sempre uma causa provável, geralmente difícil de concluir como certa.

"Só se conclui que houve sudep quando a pessoa morre, o que permite a associação entre o óbito e uma crise de epilepsia grave. Porém, a sudep ainda é uma incógnita no que tange à sua descrição. Na maior parte das vezes, uma crise dessa magnitude pode ser resolvida se a pessoa estiver acompanhada, e não terminar em morte", afirma.

Segundo o médico, mortes por epilepsia são eventos raros, geralmente associados a quadros mais graves, como as generalizadas, e a momentos de crise. "A proporção de óbito é de 1 ou 2 a cada mil pessoas com a doença", explica Haidar.

O neurologista William Ferreira, líder da linha de cuidado em Epilepsia do Vera Cruz Hospital, afirma que esses quadros são mais comuns em quem não tem adesão medicamentosa; ou seja, entre pacientes que não seguem adequadamente o tratamento medicamentoso.

"O mecanismo desse evento está relacionado com uma supressão cardiorrespiratória. Em uma crise noturna, por exemplo, o paciente que mora sozinho vai passar por isso muitas vezes sem recursos para evitar", explica. Isso porque, diz o médico, é comum que, além dos sintomas respiratórios, a pessoa fique desorientada, dificultando ainda mais a procura por ajuda.

É comum que crises epilépticas também apareçam à noite, tornando mais difícil a identificação pelo paciente, explica o médico.

Suspeita-se que Ricardo tenha morrido na noite anterior. O porteiro do prédio relatou que ele havia pedido comida por delivery, mas não respondeu ao contato da portaria quando a entrega chegou. Desde então, não falou mais com familiares e amigos.

Segundo os médicos, quando controlada, a epilepsia dificilmente vai resultar em crises tão graves a ponto de resultar em morte. É possível, inclusive, que a estimulação física feita por um acompanhante alivie o sistema respiratório quando o paciente está em crise.

A epilepsia é uma doença neurológica caracterizada pela predisposição do cérebro a apresentar crises epilépticas recorrentes, provocadas por alterações temporárias e anormais da atividade elétrica dos neurônios.

As crises podem se manifestar de diferentes formas, dependendo da região cerebral afetada, desde episódios de ausência e alterações de percepção até convulsões com perda de consciência e movimentos involuntários. O diagnóstico leva em conta o histórico clínico e, quando necessário, exames como eletroencefalograma e exames de imagem.

Se forem focais, ou centradas em uma região específica do cérebro, as crises vão resultar em manifestações sutis, como movimentos involuntários dos olhos, das mãos e da mandíbula (mastigação). Quando se espalha, apresenta um quadro parecido com a convulsão, em que a pessoa treme todo o corpo involuntariamente e pode morder a língua.

Segundo Ferreira, o tratamento medicamentoso, se bem escolhido, pode controlar até 80% dos casos de epilepsia. Existe uma ampla gama de medicamentos, definida a partir do tipo de epilepsia do paciente e de suas comorbidades.

Descontinuação de remédio para epilepsia preocupa médicos e pacientes

LAIZ MENEZES-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O laboratório farmacêutico Abbott vai descontinuar em dezembro o Depakote Sprinkle 125 mg, medicamento à base de divalproato de sódio usado no tratamento da epilepsia em adultos e crianças. A retirada preocupa entidades médicas, que dizem não haver no país outro remédio com a mesma combinação de dose baixa, liberação retardada e facilidade de administração.

Em carta de repúdio, a SBNI (Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil) e a LBE (Liga Brasileira de Epilepsia) afirmam que a existência de outros medicamentos com divalproato ou ácido valproico não resolve a questão, porque nenhum deles reproduz as características do Depakote Sprinkle.

O medicamento é uma cápsula com microesferas que pode ser engolida inteira ou aberta, com o conteúdo misturado a uma pequena quantidade de alimento macio, sem perder a liberação retardada. Segundo as entidades, a forma de administração é especialmente útil para pacientes com disfagia (dificuldade para engolir) e para crianças com deficiência intelectual ou dificuldades comportamentais.

O valproato pode ser usado sozinho ou associado a outros antiepilépticos e é empregado em algumas formas de epilepsia generalizada e em síndromes como Dravet e Doose, que podem ser de difícil controle.

O uso não é exclusivo de crianças. Segundo Kette Valente, neurologista infantil e coordenadora do Departamento Científico de Epilepsia da SBNI, o Sprinkle também pode ser útil para adultos que continuam tendo dificuldade para engolir comprimidos, inclusive alguns pacientes com deficiência intelectual ou TEA (transtorno do espectro autista).

As demais apresentações de divalproato de sódio no mercado são comprimidos de 250 mg e 500 mg de liberação prolongada, que, segundo a bula, devem ser engolidos inteiros. Já as versões líquidas, xaropes, são saborizadas e adoçadas e podem ser mal toleradas por algumas crianças.

A médica afirma que o xarope pode ser uma alternativa em alguns casos, mas afirma que as duas apresentações não são farmacologicamente idênticas. Segundo Valente, o Sprinkle libera o valproato de forma mais lenta do que a versão líquida, o que produz perfis diferentes de concentração do medicamento no sangue.

Segundo ela, há respaldo na literatura médica para substituir o Sprinkle pelo xarope em determinadas situações, mas a resposta pode variar de um paciente para outro. A principal preocupação é a perda do controle das crises em pacientes que estavam estabilizados.

Crises epilépticas podem causar quedas e outros acidentes e, quando prolongadas, podem exigir atendimento de emergência e representar risco à vida.

As sociedades dizem ainda que o Depakote Sprinkle é a única formulação de divalproato de sódio sem carboidratos. Por isso, consideram o medicamento uma opção para pacientes que seguem dieta cetogênica, usada em alguns casos de epilepsia resistente a medicamentos.

A empresária Giovanna Uchoa, 29, é uma das mães preocupadas com a mudança, para tratamento do filho, Zion, 3. Ela gastou R$ 5.000 para fazer um estoque de pelo menos 12 meses.

O menino recebeu há cerca de três meses o diagnóstico de síndrome de Doose, um tipo de epilepsia que pode causar crises mioclônico-atônicas, com contrações musculares súbitas seguidas de perda momentânea do tônus e, consequentemente, da sustentação do corpo.

Antes do Sprinkle, ele usava a versão líquida. Segundo Giovanna, o xarope provocava ardência na boca e precisava ser administrado em um volume grande, o que dificultava o tratamento. Com o Sprinkle, os microgrânulos são misturados a alimentos pastosos. Hoje, segundo ela, o filho está há um mês e dez dias sem crises após começar a usar o medicamento.

As crises começaram com uma ocorrência por dia e foram aumentando progressivamente, chegando a 20 ou 50 em alguns dias. Elas duravam cerca de dois segundos, com um espasmo seguido de perda de tônus muscular.

"A gente nunca quer que a crise chegue. Cada dia sem crise para a gente já é muito bom", afirma.

Segundo Valente, a Abbott informou à SBNI que pretende oferecer uma versão líquida sem açúcar do remédio. Para a médica, a alternativa pode reduzir parte do problema, mas não elimina as dificuldades. Além da diferença no perfil de absorção, o medicamento líquido é mais difícil de transportar e pode exigir volumes maiores conforme a dose. "Alivia, mas não resolve", afirma.

A família de Zion soube da descontinuação em setembro. Giovanna afirma ter encontrado preços de até R$ 180 por caixa, ante R$ 79 a R$ 89 que costumava pagar, devido ao aviso de interrupção de fornecimento e fabricação.

A Abbott informou que a descontinuação ocorrerá porque seu fabricante terceirizado deixará de produzir o medicamento.

Segundo a empresa, a decisão não está relacionada à qualidade, segurança ou eficácia do produto, e as unidades que continuam no mercado podem ser usadas normalmente até o fim do prazo de validade.

A empresa orientou pacientes e familiares a procurar seus médicos e a não alterar ou interromper o tratamento por conta própria.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que a Abbott comunicou em 30 de junho de 2026 a descontinuação definitiva de fabricação e importação do produto, sob a justificativa de motivação comercial.

A agência diz ainda que o Depakote Sprinkle é o único medicamento comercializado no país com divalproato de sódio a 125 mg em cápsula de liberação retardada.

Pela regra geral da Anvisa, as empresas devem avisar sobre a descontinuação com pelo menos 180 dias de antecedência. Quando o produto é o único com aquela concentração e apresentação, porém, a empresa deve manter o mercado abastecido por 12 meses. Contado a partir da notificação, o prazo iria até junho de 2027, seis meses depois da data de descontinuação informada pela Abbott.

A reportagem questionou a empresa se o abastecimento será mantido até lá e se há previsão de substituir o fabricante ou retomar a produção. A Abbott disse apenas que "informou proativamente à Anvisa sobre a descontinuação global" do remédio.

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