A saída de Lewandowski abriu na cúpula do governo Lula uma discussão sobre a conveniência de desmembrar o Ministério da Justiça no início do último ano de seu mandato
Caio Spechoto-brasília, Df (folhapress) - 12/01/2026 08:36:46 | Foto: Nelson Jr./SCO/STF
A saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça, oficializada na sexta-feira (9), serviu como novo argumento para defensores da criação de uma pasta dedicada exclusivamente à segurança pública pressionarem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a criar a nova estrutura.
Lula prometeu ainda durante a campanha eleitoral de 2022 criar o Ministério da Segurança Pública, mas não colocou a ideia em prática ao longo dos três primeiros anos do atual mandato. O petista tem condicionado esse plano à aprovação de uma emenda à Constituição que aumente as atribuições da União na área.
No sábado (10), o Consesp (Conselho de Secretários de Segurança Pública) divulgou um documento em que defende a criação de uma pasta exclusivamente sobre o tema, que hoje está sob responsabilidade do Ministério da Justiça.
"O momento revela-se oportuno e estratégico para a criação do Ministério da Segurança Pública, não apenas pela conveniência do período de transição, mas sobretudo porque a segurança pública deve ser tratada como elemento estabilizador, tendo como fundamentos o diálogo e a capacidade de articulação permanente entre União, estados, Distrito Federal e municípios", afirma o texto assinado pelo presidente do Consesp, Jean Francisco Bezerra Nunes -que também é secretário de Segurança Pública da Paraíba.
O órgão afirma que a segurança pública é a única das áreas mais importantes do governo que não tem um ministério específico para administrá-la. Também afirma que a existência de uma estrutura dedicada ao setor, no final do governo de Michel Temer (MDB), foi bem-sucedida.
Além disso, o Consesp considera que o Ministério da Justiça tem múltiplas funções, o que compromete, na análise do órgão, a atenção que deveria ser dedicada à segurança.
O documento elaborado pelo conselho no sábado afirma que o secretário de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, têm as qualificações necessárias para assumir o eventual novo ministério.
A saída de Lewandowski abriu na cúpula do governo Lula uma discussão sobre a conveniência de desmembrar o Ministério da Justiça no início do último ano de seu mandato.
O próprio presidente já condicionou uma eventual cisão do ministério à aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança, em tramitação na Câmara dos Deputados, o que na sua visão lhe garantiria ferramentas para execução de um plano para a área.
Uma ala do governo defende que o presidente aproveite a saída de Lewandowski para promover a divisão do ministério de forma imediata. Segundo relatos, essa ideia tem respaldo entre ministros palacianos.
Mas outra parte dos aliados de Lula receia que a PEC demore para ser aprovada, empurrando a criação da pasta para perto demais da eleição de outubro. Lula deve ser candidato à reeleição.
Nesse cenário, não haveria tempo hábil para uma nova estrutura produzir resultados práticos. A segurança pública tende a ser um dos principais temas da eleição. Como mostrou Datafolha, o assunto ganhou espaço entre as preocupações dos brasileiros.
Lula ainda não deu sinais claros sobre dividir ou não o Ministério da Justiça. Os dois principais cotados para a pasta, na avaliação de políticos próximos ao presidente da República, são o ministro da Educação, Camilo Santana, e o advogado Wellington César Lima e Silva.
Hoje à frente do departamento jurídico da Petrobras, por indicação do próprio Lula, Wellington estreitou a relação com o presidente nos 18 meses em que ocupou a Secretaria de Assuntos Jurídicos da Presidência da República.
Ele despachava frequentemente com Lula, na função de análise de atos da Presidência e avaliação de indicações.
A favor de Camilo pesam a visibilidade nacional, a experiência administrativa e o fato de já ter experiência no enfrentamento à criminalidade durante sua gestão no Ceará.
Além disso, aliados de Lula avaliam que o governo precisa de um ministro disposto ao enfrentamento político para promover as ações da gestão na segurança pública junto ao eleitorado. Mencionam, por exemplo, que os resultados da operação Carbono Oculto, que mirou estruturas de lavagem de dinheiro do crime organizado, poderiam ser mais explorados no debate público.
Contra Camilo, pesa o fato de ele não ser da área jurídica, o que é levado em conta nas escolhas dos titulares da Justiça. Ele é engenheiro agrônomo.
Além disso, Lula estaria resistente à necessidade de novas mudanças na Esplanada neste momento, como escolher um novo ministro da Educação. O presidente também tem elogiado o desempenho de Camilo em seu atual cargo.
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