Lagos, rios e aquíferos estão em colapso, colocando em risco produção mundial de alimentos; especialista afirma que situação pode impulsionar conflitos sociais; em muitas regiões, o que antes eram secas ocasionais transformaram-se em escassez permanente de água
Agência Onu News - 21/01/2026 09:08:44 | Foto: Agência Onu News
O abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de uso excessivo, poluição e perturbações causadas pelas mudanças climáticas.
Esse é o quadro trágico apresentado no relatório “Falência Hídrica Global”, lançado nesta terça-feira pelo Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.
Quase metade da produção mundial de alimentos sob risco
O estudo revela que muitos sistemas hidrológicos importantes ao redor do mundo chegaram num ponto sem volta, em que o volume de água extraida é muito maior que a reposição natural. Cruzar essa linha significa que aquíferos, lagos e zonas úmidas não podem mais ser restaurados.
O diretor do Instituto para Água, Meio Ambiente e Saúde, Kaveh Madani, disse que é preciso encarar a verdade incômoda de que “muitos sistemas hídricos essenciais já estão em colapso”. A situação afeta áreas responsáveis por quase metade da produção global de alimentos.
Falando a jornalistas em Nova Iorque, ele afirmou que se a humanidade continuar a lidar com essa falha como uma crise temporária, com soluções de curto prazo, “o dano ecológico só vai se aprofundar, alimentando conflitos sociais”. Ele enfatizou que a falência da água é uma questão séria de justiça e segurança globais.
Lagos, aquíferos e zonas úmidas estão desaparecendo
Os dados indicam que metade dos grandes lagos do mundo, dos quais 25% da humanidade depende, perderam água desde o início da década de 1990. Além disso, 70% dos principais aquíferos apresentam declínio.
Nas últimas cinco décadas, 410 milhões de hectares de zonas úmidas naturais foram destruídos, quase o equivalente ao tamanho de toda a União Europeia.
O estudo ressalta que embora nem todas as bacias hidrográficas ou países estejam nessa situação de falência hídrica, muitas áreas cruciais já foram afetadas, com consequências no comércio, migração, equilibrio climático e relações geopolíticas.
Usando analogias financeiras, o relatório afirma que muitas sociedades não só gastaram em excesso sua "renda" anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve derretida, como também esgotaram suas "reservas" de longo prazo em aquíferos, geleiras, zonas úmidas e outros reservatórios naturais.
Águas cada vez mais tóxicas
O levantamento ressalta o impacto das escolhas e atividades humanas no esgotamento dos recursos hídricos, criando situações crônicas. Em muitas regiões, o que antes era uma seca ocasional transformou-se em escassez permanente de água, que persiste mesmo em anos com chuvas “normais”, devido a uma demanda maior do que o ambiente pode oferecer.
Paralelamente a essas mudanças físicas, a qualidade da água também caiu em muitos locais, devido a aditivos usados na agricultura, despejo de esgoto, resíduos de mineração, poluição por plásticos e contaminantes como produtos farmacêuticos e de higiene pessoal.
Essa poluição degradou rios, lagos e águas costeiras. Bacias hidrográficas densamente povoadas estão sendo afetadas pela proliferação de algas nocivas, contaminação por patógenos e altos níveis de tóxicidade, o que dificulta o reaproveitamento da água para uso humano.
Fase de “gestão da falência”
Os autores do relatório enfatizam que os governos devem agora focar na “gestão da falência”, prevenindo danos irreversíveis, transformando setores que consomem muita água e priorizando transições justas para comunidades vulneráveis.
O documento foi divulgado antes de uma reunião de alto nível em Dacar, no Senegal, marcada para 26 a 27 de janeiro. O encontro terá como foco a preparação da Conferência da ONU sobre a Água de 2026, que será de 2 a 4 de dezembro, nos Emirados Árabes Unidos, com apoio do Senegal.
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