Indígenas criticam resposta da Petrobras após vazamento na Foz do Amazonas

A Petrobras anunciou, no último dia 4, a paralisação temporária da busca por petróleo no bloco 59 da Foz do Amazonas

Indígenas criticam resposta da Petrobras após vazamento na Foz do Amazonas
Indígenas criticam resposta da Petrobras após vazamento na Foz do Amazonas

Jorge Abreu-são Paulo, Sp (folhapress) - 16/01/2026 07:36:10 | Foto: Felipe Werneck/Ibama – Wikimedia - Portal USP

"Nossa preocupação triplicou". O cacique Edmilson Karipuna resume dessa forma a angústia de seu povo na Terra Indígena Uaçá, em Oiapoque (AP), após o vazamento de fluido durante perfuração da Petrobras em busca de petróleo na bacia Foz do Amazonas. A região é a mais próxima do empreendimento em alto-mar, a cerca de 175 quilômetros da costa do município.

"Até agora a gente não teve nenhuma informação oficial sobre esse acidente. Ninguém chamou os povos indígenas para sentar, conversar e explicar o que aconteceu e quais são as medidas que serão tomadas diante desta situação", disse à Folha de S.Paulo.

A Petrobras anunciou, no último dia 4, a paralisação temporária da busca por petróleo no bloco 59 da Foz do Amazonas. A medida de segurança ocorreu após o acidente com um fluido injetado na operação da sonda perfuradora, em duas linhas (tubulações) auxiliares. A empresa afirma que o material não causa danos.

A estatal estima que vazaram cerca de 15 m³ (15 mil litros) deste produto no mar e afirmou, em nota, que não há problemas com a sonda ODN II (NS-42) ou com o poço, que permanecem em segurança.

"A Petrobras reitera que a perda de fluido de perfuração não causou dano ao meio ambiente, tampouco risco à segurança da operação. O fluido é biodegradável e atende a todos os parâmetros exigidos pelo regramento ambiental", diz trecho do comunicado enviado à reportagem.

Edmilson Karipuna é coordenador do Conselho dos Caciques dos Povos Indígenas de Oiapoque, o CCPIO, que junto da Apoianp (Articulação dos Povos Indígenas do Amapá e Norte do Pará) lançou uma carta cobrando uma consulta livre, prévia e informada sobre o projeto de petróleo na região, conforme a convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que trata de povos indígenas e tribais.

"O acidente confirma nossos piores temores, denunciados desde o início: a atividade petrolífera na nossa costa é uma ameaça aos ecossistemas dos quais nossos povos, especialmente os do Oiapoque, dependem para sua subsistência física e cultural. Este incidente, ainda em fase de pesquisa, evidencia os riscos inaceitáveis do projeto", diz a carta.

As duas entidades relatam que não receberam uma comunicação oficial da Petrobras e aguardam uma reunião com a estatal junto à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) nas próximas semanas para explicações sobre a atividade e o incidente.

"Desde quando a gente ouviu falar sobre essa possível exploração de petróleo aqui na costa do Amapá, ainda em 2023, isso vem tirando o nosso sossego", acrescentou o cacique Edmilson.

Luene Karipuna, coordenadora da Apoianp, manifesta preocupação sobre os impactos das etapas da atividade petrolífera na região. Segundo ela, a pesquisa, realizada sem a consulta prévia, demonstrou fragilidade, o que eleva o alerta sobre a continuidade da ação após a possível confirmação da presença de petróleo.

"A gente precisa entender o que são esses fluidos, se são contaminantes ou não", frisa. "Nós soubemos do vazamento pelos jornais. Em nenhum momento a Petrobras comunicou oficialmente os povos indígenas e os moradores de Oiapoque", diz. "Precisamos saber os reais impactos do incidente sobre os territórios."
Além do processo de escuta, Luene cobra que seja apresentado "um plano de contingência que atenda a necessidade dos povos indígenas".

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), responsável pela aprovação da licença de perfuração, ressaltou que acompanha o caso. "As áreas técnicas aguardam informações e documentos adicionais da Petrobras para prosseguir na análise dos riscos e impactos ambientais decorrentes da perda de fluido da sonda no mar."
O órgão, ligado ao Ministério de Meio Ambiente, pediu uma reunião com a Petrobras para tratar do vazamento de fluido. Em ofício enviado no último dia 7, o Ibama citou "a grande preocupação já manifestada [...] acerca dos riscos e potenciais impactos da atividade" na região.

A ANP (Agência Nacional do Petróleo) condicionou a retomada da atividade de perfuração à prestação de esclarecimentos sobre o que causou o vazamento de fluido sintético nas águas da região, considerada ambientalmente sensível.

A decisão da agência reguladora, assinada em reunião, afirma que, antes de retomar as operações, a petroleira precisa apresentar uma avaliação inicial das causas do evento e de seus potenciais impactos e ações mitigadoras.

O MPF (Ministério Público Federal) no Amapá também cobrou explicações da Petrobras sobre o vazamento. O prazo dado para respostas foi de 48 horas. Os desdobamentos sobre o pedido feito no último dia 6 não foram divulgados.

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