O caso aconteceu no Maranhão e é considerado pelo grupo a primeira morte relacionada a homofobia do país
Jorge Abreu Brasília, Df (folhapress) - 21/04/2026 15:42:38 | Foto: Thiago Yawanawa/Divulgação
A questão de identidade de gênero e sexualidade ganha cada vez mais espaço no movimento indígena do Brasil. A luta do grupo LGBTQIAP+ é por políticas públicas específicas e contra a invisibilidade dentro deste recorte étnico. Neste domingo (17) é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas.
Para ampliar o diálogo, o grupo se organizou e criou, em 2019, o coletivo Tybyra, nome do indígena morto, em 1614, por europeus colonizadores após ser acusado de práticas homossexuais. O caso aconteceu no Maranhão e é considerado pelo grupo a primeira morte relacionada a homofobia do país.
O coletivo conseguiu fortalecer a articulação dentro da luta geral dos povos originários, como a inclusão de atividades específicas no Acampamento Terra Livre, a maior manifestação indígena da América Latina, que é realizado anualmente em Brasília.
Danilo Tupinikim, um dos fundadores do coletivo Tybyra, afirma que os indígenas LGBTQIA+ sempre estiveram na linha de frente da principal pauta dos povos originários: a demarcação de território. Contudo, o grupo enfrenta dificuldades de debater suas próprias demandas.
"A gente tem essa frente de luta reforçando a importância da nossa participação, que nós sempre estivemos articulados dentro do movimento indígena a partir das bases", disse. "Somo diversos povos indígenas com diferentes visões de mundos e cosmovisões relacionadas à questão de identidade, gênero e sexualidade."
Segundo Tupinikim, é necessário o fortalecimento da luta por demarcação de território para outros assuntos serem debatidos, como saúde, educação e as pautas LGBTQIA+. Para o grupo, a falta de informações é o que leva muitos vezes ao preconceito dentro e fora do território.
"O que precisamos entender é ter o olhar a partir de uma perspectiva plural e diversa, porque se a gente propõe políticas, pensando num único perfil, acaba desassistindo outros grupos. Então, é a partir desse entendimento que lutamos por um debate mais interseccional", continuou.
Para além do movimento indígena, o coletivo Tybyra também se faz presente em outras frentes. Em 2024, o grupo participou pela primeira vez da Parada LGBT de São Paulo, a maior do mundo, que reúne cerca de 1,5 milhão pessoas na Avenida Paulista.
Dentro do movimento, o coletivo chegou a promover uma ballroom, que é a cultura dos bailes de movimentos negros e latinos, nascida em Nova York entre décadas de 1960 e 1970 como um espaço seguro para pessoas queer marginalizadas se apresentarem.
A primeira ballroom, dentro do Acampamento Terra Livre em 2023, causou estranheza e manifestações de algumas pessoas contrárias dentro do movimento indígena, o que levou a ser suspensa nos outros anos. Contudo, a segunda edição aconteceu neste ano, com a presença da deputada Erika Hilton (Psol), que também esteve no primeiro evento.
"A luta dos povos indígenas é a luta do povo negro, é a luta da comunidade LGBTQIA+. Eu tenho muito orgulho a comunidade indígena LGBTQIA+", ressaltou a deputada. "Nós estamos aqui reafirmando que a nossa dignidade, o nosso brilho, o nosso glow, que não vai ser apagado pelo ódio, pela intolerância e pelo fascismo."
Feira indígena reúne peças de artes ancestrais de mais de 50 etnias no Ibirapuera
JORGE ABREU-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A terceira edição da Feira de Arte dos Povos Indígenas reúne cem expositores que carregam tradições ancestrais de mais 50 etnias do Brasil, no parque Ibirapuera, em São Paulo. As outras duas edições foram realizadas em Brasília e em Belém.
A programação começou na quinta e se encerra neste domingo (19), Dia dos Povos Indígenas. Artes em forma de cerâmicas, biojoias, produtos de fibras, brincos, cocares, foram expostas tanto para compra, quanto para narrar as histórias daqueles que os produziram.
A feira recebeu personalidades como o ator e modelo Klebber Toledo e a bancada do cocar, formadas pelas deputadas federais Célia Xakriabá (PSOL-MG), Juliana Cardoso (PT-SP), da etnia terena, e Sonia Guajajara (PSOL-SP), primeira indígena a se tornar ministra de Estado.
Para a estilista e influenciadora digital We'e'ena Tikuna, o evento é uma oportunidade de ocupar espaços que ainda são negados para os povos indígenas. Ela, sendo uma das representantes do Amazonas, levou suas peças de moda indígena e bonecas artesanais inspiradas em seu povo.
"A feira acontece para nós, indígenas, nos conectarmos com as pessoas que não conhecem ainda a nossa cultura. Quando elas vêm, entendem a nossa história. A cultura não é peça de museu, ela é uma história viva", destacou.
A programação é organizada pela Mídia Indígena, com apoio do Ministério dos Povos Indígenas e outros parceiros, com curadoria do designer Marcelo Rosenbaum. O evento é parte da programação da Bienal de Arquitetura Brasileira.
"São produtos diretos dos territórios", diz Hony Riquison, produtor do Mídia Indígena e um dos organizadores da feira. "A arte indígena é de uma diversidade gigante, composta por diversos elementos culturais que vêm das raízes ancestrais desses povos."
Ainda neste domingo, após o fim da feira, a organização realiza, também, o Festival Raízes Ancestrais, que reúne, no Espaço Cultural Elza Soares, no bairro Campos Elíseos, nomes da música brasileira, entre eles as cantoras Maria Gadú e Djuena Tikuna e o DJ Eric Terena.
O evento ocorre a partir das 14h e deve contar apresentações dos artistas Gean Pankararu, Eriya Yawanawa, Katú Mirim, Brisa Flow, Kaê Guajajara, Yura Yuxãnaívu, Ian Wapichana, Owerá e Dj Nelson D. Os ingressos podem ser retirados gratuitamente neste link.
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