Instituição premiada usa IA para prever desmatamento na Amazônia

Instituição premiada pela ONU usa IA para prever desmatamento na Amazônia

Instituição premiada usa IA para prever desmatamento na Amazônia
Instituição premiada usa IA para prever desmatamento na Amazônia

Felipe De Carvalho / Agência Onu News - 08/01/2026 16:06:15 | Foto: Unep/Thomas Mendel

Imazon venceu categoria ciência e inovação do prêmio Campeões da Terra de 2025; organização criou modelo preditivo altamente eficaz.

Em menos de 40 anos, a Amazônia perdeu 21% da sua área total. Os cientistas teorizam que se a destruição passar de 25%, a floresta vai entrar num caminho sem volta e se transformar em uma savana. Esse cenário teria consequências climáticas catastróficas para o Brasil e para o mundo.

O combate ao desmatamento ilegal é crucial e um grande desafio em uma floresta que é maior que toda a Europa Ocidental. Uma pequena instituição científica brasileira está provando que, com o uso da tecnologia, é possível não só monitorar em tempo real o que está acontecendo, mas também prever esse crime antes que ele ocorra.

Inteligência artificial para manter a floresta de pé
O Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia, Imazon, foi o vencedor do prêmio “Campeões da Terra” em 2025 no eixo ciência e inovação, se tornando a primeira instituição brasileira a vencer nesta categoria.

O co-fundador do Imazon, Beto Veríssimo, conversou com a ONU News, de Belém, e disse que o prêmio, concedido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma, trouxe uma “grande satisfação” para a equipe. Ele explicou que o trabalho envolve análises de imagens de satélite e a criação de modelos preditivos.

“E começa a se perceber usando essas ferramentas de inteligência artificial, um padrão. E esse padrão cria esse modelo do 'previsIA', que soma o conhecimento que a gente tem da paisagem, da perda de floresta ao longo do tempo, com a abertura de estradas, com os padrões socioeconômicos e de infraestrutura que acabam determinando o desmatamento no futuro próximo”.

Desde 2007, o instituto usa imagens de satélite para medir, a cada dois dias, a perda de floresta na Amazônia e depois soma todas as imagens para gerar um relatório mensal. Mais recentemente foram incorporadas ferramentas de inteligência artificial, dando origem a um modelo capaz de antecipar o desmatamento com “um grau de acurácia muito expressivo”, de acordo com Veríssimo.

Mudanças na “geografia do desmatamento”
“A geografia do desmatamento se deslocou mais para dentro. O desmatamento já aconteceu nas bordas da Amazônia, no chamado arco, e agora se desloca mais para essas regiões mais centrais. E aí é onde está concentrado o esforço do trabalho do Imazon, que passa essas informações, publica elas amplamente na imprensa. Essas informações estão disponíveis para órgãos de fiscalização e eles usam nas suas estratégias de comando e controle”.

Em 2021 o Imazon ajudou a descobrir 99% dos casos de desmatamento ilegal e a identificar 15 mil km² de áreas florestais de alto risco, das quais 71% foram preservadas.

O co-fundador da instituição sem fins lucrativos disse que estimativas recentes indicam que 90% das atividades de desmatamento na Amazônia são ilegais e representam um problema de natureza policial, além de uma grave questão ambiental.

A floresta como infraestrutura
Beto Veríssimo explicou que o Brasil é um país que depende muito da natureza para sua economia, especialmente do regime de chuvas que se origina na Amazônia e chega ao sudeste, centro-oeste e sul do país, abastecendo rios e irrigando plantações.

“A água tem muito a ver com a floresta. A floresta tem um papel chave na regulação do clima e os rios voadores. A Amazônia, na verdade, tem 400 bilhões de árvores de 40, 50 metros de altura e essas árvores estão bombeando para atmosfera a umidade, que geram então essas condições climáticas favoráveis. Ou seja, é uma infraestrutura. A floresta tem muitos valores econômicos, sociais, culturais etc. Um dos valores mais importantes, e uma das descobertas mais recentes, é o papel da floresta como infraestrutura. Ela é como se fosse uma infraestrutura que irriga o país. Então, cada árvore é parte dessa infraestrutura”.

Veríssimo enfatizou que desmatar desnecessariamente significa “destruir a riqueza do país”, afetando a segurança hídrica, energética e a capacidade de produção agrícola.

Ele ressaltou que o principal motor do desmatamento na Amazônia é a grilagem de terras, que consiste na invasão de áreas públicas para a venda futura. Segundo o especialista, essa atividade especulativa ocorre “numa escala monumental” e, no meio tempo, a área ocupada sofre desmatamento, alimentando a indústria madeireira ilegal, e depois permanece sem atividade econômica relevante.

Antecipação de secas e queimadas
O co-fundador do Imazon reconheceu que o desmatamento caiu de 13 mil km² para 5 mil km² nos últimos anos, mas afirmou que precisaria estar em menos de 3 mil km². Ele enfatizou que até 2030 o ritmo de restauração de áreas devastadas tem que se tornar maior que o da perda de floresta.

O Imazon pretende investir mais em outras frentes de monitoramento como extração de madeira, disponibilidade de água e processos de regeneração natural das florestas. O objetivo é contribuir com estratégias para lidar com cada “ponto de pressão”.

Beto Veríssimo comentou que o modelo baseado em IA criado pelo instituto para prever o desmatamento também pode ser aplicado no futuro para antecipar fenômenos climáticos extremos, como incêndios florestais.

Ele ressaltou que as árvores gigantescas da Amazônia não evoluíram para condições de seca e queimada e dependem da disponibilidade de água no solo. Segundo o especialista, com as mudanças climáticas “boa parte da floresta que está em pé está na UTI”, aproximando a Amazônia cada vez mais do temido “ponto de não retorno”.

*Felipe de Carvalho é redator da ONU News português

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