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Inteligência artificial: que palavras nos tornam humanos?

Inteligência artificial: que palavras nos tornam humanos?Foto:

Atualmente, é fácil distinguir os seres humanos das máquinas, mas, à medida que elas ficam mais inteligentes, precisaremos encontrar formas de identificar o conteúdo gerado por robôs

Por: Pablo Marques, Do R7 Com Reuters / Imagem: Pixabay - 21/12/2018 - 20:21:14

Imagine que você e um robô dotado de inteligência artificial estejam diante de um juiz que não consegue vê-los. Ele precisa adivinhar qual de vocês é humano, que vai sobreviver, enquanto o outro vai morrer.

Tanto você quanto o robô querem viver. O juiz é justo e inteligente. E diz: "Cada um deve me dizer uma palavra que conste no dicionário de inglês. Com base nesta palavra, vou adivinhar quem é humano".

Que palavra você escolheria?

Alguma expressão que remeta a um conceito espiritual elevado como "alma"? Algo que reflita seus gostos pessoais, como "música"? Ou uma necessidade fisiológica básica do organismo, como "pum"?

Este experimento mental pode parecer fantasioso. Mas cientistas cognitivos acreditam que esta análise pode ajudar a esclarecer premissas básicas sobre a inteligência artificial, ao mesmo tempo em que revela percepções surpreendentes sobre nossas próprias mentes.

Afinal de contas, os "chatbots" (robôs que simulam seres humanos em bate-papos online) e os sistemas de processamento de linguagem automatizados usam cada vez mais inteligência artificial para travar diálogos conosco e escrever textos que encontramos diariamente na internet.

Como podemos dizer, por exemplo, se o representante do serviço de atendimento ao cliente com quem conversamos em um chat online é uma pessoa real ou apenas um algoritmo? Ou se uma história de ficção foi redigida por uma máquina, em vez de ter sido cuidadosamente escrita por um ser humano?

Atualmente, é fácil distinguir os seres humanos das máquinas, mas, à medida que elas ficam mais inteligentes, precisaremos encontrar formas de identificar o conteúdo gerado por robôs

O fato é que a inteligência artificial não é mais uma perspectiva puramente teórica no campo da comunicação — e precisamos estar preparados para lidar com ela.

John McCoy, um dos pesquisadores envolvidos em uma pesquisa no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), conta que conduziu um experimento inspirado inicialmente em uma conversa casual com seus colegas.

Eles estavam discutindo o Teste de Turing, criado pelo cientista britânico Alan Turing em 1950, que tem como objetivo medir se o comportamento inteligente de uma máquina é equivalente ao de um ser humano.

Em sua formulação mais comum, cada juiz recebe uma interface de bate-papo online padrão. Em cada rodada, podem estar conversando com um ser humano real, ou um "chatbot" de computador alimentado por inteligência artificial. A missão do juiz é adivinhar com quem está falando. Se o "chatbot" conseguir enganar um número pré-determinado de juízes, ele passou no Teste de Turing.

"Nós nos perguntamos qual seria a versão minimalista do Teste de Turing que poderia ser criada", explica McCoy, antes de especular se a distinção poderia ser feita por meio de uma única palavra.

"A questão era: quais são as palavras que as pessoas realmente diriam?".

Esta pergunta inspiraria o trabalho de pesquisa publicado neste ano no periódico Journal of Experimental Social Psychology.

No primeiro experimento, McCoy e seu colega, Tomer Ullman, pediram a mais de mil participantes para responder à pergunta acima. Eles então analisaram as palavras citadas para encontrar padrões comuns.

As 10 principais palavras, em ordem de popularidade, foram:

Amor (134 respostas)

Compaixão (33)

Humano (30)

Por favor (25)

Piedade (18)

Empatia (17)

Emoção (14)

Robô (13)

Humanidade (11)

Vivo (9)

"O grau de convergência entre as pessoas foi impressionante", diz McCoy, que agora está na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. "Eles podiam escolher qualquer palavra que quisessem de um dicionário de inglês padrão e, ainda assim, houve uma enorme convergência entre os indivíduos".

Considere a palavra "amor". Cerca de 10% dos participantes escolheram essa palavra entre outras centenas de milhares de possibilidades; no geral, um quarto dos participantes escolheu uma das quatro principais palavras.

Em termos de assuntos, eles descobriram que palavras que remetem a funções fisiológicas (como "cocô"), fé e perdão (como "piedade" ou "esperança"), emoções (como "empatia") e comida (como "banana") foram as categorias mais populares.

McCoy e Ullman realizaram então um segundo experimento para ver como outras pessoas reagiriam às palavras geradas no primeiro experimento. As mais populares seriam realmente tão eficazes em transmitir um senso de humanidade quanto os participantes originais acreditavam? Se a resposta for positiva, quais seriam as melhores?

Para descobrir, os pesquisadores agruparam as palavras mais populares em várias combinações (como "humano" e "amor") e pediram que o outro grupo de participantes determinasse qual das duas era mais provável de ser gerada por um ser humano do que por um computador.

Como observado no primeiro estudo, "amor" acabou sendo uma das mais bem-sucedidas. Mas dentre as escolhas disponíveis, a palavra melhor ranqueada foi "cocô".

Pode parecer surpreendente que as fezes venham a ser uma "senha" para identificar os seres humanos. Mas os resultados sugerem que quebrar conscientemente um tabu e provocar, em vez de simplesmente descrever, uma emoção pode ser a maneira mais direta de manifestar sua humanidade compartilhada.

Outras palavras vistas como exclusivamente humanas suscitaram reações emocionais igualmente fortes - muito além da definição do dicionário. Como "úmido", por exemplo, ou "por favor". Outras são simplesmente agradáveis de se dizer. Experimente falar "onomatopeia".

A razão para isso pode ser um reflexo do estágio atual da inteligência artificial. Embora os robôs consigam escrever frases descritivas básicas e até mesmo contos inteligíveis, eles ainda têm dificuldade com o humor e o sarcasmo.

O humor, no fim das contas, requer uma compreensão profunda do contexto e das muitas associações culturais que estão embutidas em cada palavra.

Além das especulações curiosas, McCoy acredita que esse experimento pode ser uma ferramenta útil para entender as suposições implícitas que os indivíduos têm a respeito de outros grupos de seres humanos.

Que palavra você escolheria para provar que é mulher, por exemplo? Ou para comprovar que é francês ou socialista?

Em cada caso, as escolhas devem revelar as qualidades que supomos que todos os membros do grupo reconheçam em si, que podem ser mal compreendidas ou ignoradas por pessoas de fora.

Enquanto isso, McCoy descobriu que a versão minimalista do Teste de Turing é uma provocação útil para mais debates sobre a natureza da inteligência artificial.

"É divertido levar essa questão a psicólogos conceituados, vê-los pensar muito e voltar horas depois animados para mudar sua resposta", diz McCoy.

"Essa pergunta muito simples faz com que você reflita profundamente sobre o ser humano versus o computador e como eles se comunicam", acrescenta.

Sua palavra favorita é aparentemente simples. "Uma das palavras que eu gostei foi 'errar'… É inteligente."

De uma maneira geral, no entanto, vale a pena lembrar que se você alguma vez precisar provar que é humano em um mundo cada vez mais povoado por máquinas, seja imperfeito e seja engraçado.

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