O labirinto da história oral -passada de geração em geração e contada até hoje- assumiu inúmeras formas no decorrer dos séculos
João Perassolo São Paulo, Sp (folhapress) - 15/05/2026 17:00:11 | Foto: Divulgação
Há mais ou menos 4.000 anos, o rei Minos, da ilha de Creta, ordenou a construção de um labirinto no qual seria aprisionada uma criatura com corpo de homem e cabeça de touro, o Minotauro. Segundo o mito grego, o cárcere do monstro foi concebido por Dédalo, que entrou para a história como o primeiro arquiteto da humanidade -e, sua criação, como o projeto inaugural da arquitetura.
O labirinto da história oral -passada de geração em geração e contada até hoje- assumiu inúmeras formas no decorrer dos séculos. Ele estampou moedas na Grécia antiga e pisos de igrejas medievais na França, serviu de inspiração para jardins da aristocracia europeia e, já no século 20, pôde ser encontrado em obras de arte, a exemplo dos penetráveis de Hélio Oiticica e das grandes esculturas de Richard Serra.
Toda a história do labirinto, da origem como mito grego até a materialização em construções do século 21, é retomada em "O Livro dos Labirintos", de Francesco Perrota-Bosch. O pesquisador e escritor -também autor da biografia da arquiteta Lina Bo Bardi- passou anos vasculhando arquivos em Veneza, "com pó na narina", como ele diz, para reconstruir uma das narrativas fundantes do imaginário ocidental.
Com cerca de 400 páginas e fartamente ilustrado com imagens de labirintos de época, o livro acaba de sair pela editora Martins Fontes e é um desdobramento da tese de doutorado do autor, feita na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo e na Università Iuav di Venezia.
Numa conversa por vídeo, Perrota-Bosch destaca como os mitos, por serem não factuais, permitem interpretações diversas. Além disso, "muitos mitos gregos acabam tendo um caráter vivo, assumem diferentes formas no sentido literal, visível, palpável ao longo do tempo, e no sentido cultural amplo", afirma ele. A narrativa de Dédalo "é perene e não se encerra, nunca vai se encerrar".
Para os contemporâneos, uma das maneiras de compreender os labirintos, segundo o livro, é pensar sobre o desenho dos shopping centers e das áreas de imigração dos aeroportos internacionais. São locais criados para causar alguma desorientação com seus muitos corredores, de modo que o consumidor ou o viajante não sabe bem para onde vai -assim como na edificação que prendia o Minotauro.
"O labirinto foi apropriado pelo capitalismo e por estratagemas de segurança", afirma o autor, no livro. Perrota-Bosch escreve que aeroportos e shoppings adotaram características já presentes no labirinto de Dédalo, como a "supressão da profundidade, a disjunção com o mundo ao redor e a perda de referências". No caso dos centros de compras, por exemplo, a ideia é que os consumidores se percam por lá e fiquem mais tempo, para ver lojas e desejar consumir.
Num sentido histórico e mais poético, um dos capítulos do livro se debruça sobre como os labirintos em jardins foram empregados por paisagistas, em castelos e propriedades privadas da aristocracia europeia, como locais para encontros de amantes, já que a vegetação escondia aqueles que nela penetravam. Chamados de labirintos do amor, acolhiam amores permitidos e proibidos, heterossexuais e homossexuais, diz Perrota-Bosch, porque ali eram vivenciados longe do julgamento da sociedade.
Numa das passagens mais interessantes do livro, o autor narra a sua experiência percorrendo o labirinto verde da Villa Barbarigo, um grande jardim de 400 anos tornado atração turística na Itália e que também foi cenário de uma cena de amor no filme "A Noviça Proibida", de 1960. Os corredores retos cercados por vegetação alta fazem com que o visitante perca a apreensão visual do contexto, escreve ele.
"Estar dentro do labirinto é a experiência da desorientação. Quando se está diante de duas ou três alternativas, há a dúvida de qual será a rota certa para se chegar ao centro ou à saída. É uma contínua sucessão entre o perder-se e o encontrar-se", escreve. "Não é uma situação domesticável ou cômoda."
O LIVRO DOS LABIRINTOS
Preço R$ 124,90 (416 págs.); R$ 87,43 (e-book)
Autoria Francesco Perrotta-Bosch
Editora Martins Fontes
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