Medo de morrer, crises de soluço e Flávio candidato: Relembre rotina de Bolsonaro na prisão

Moraes fixa prazo de 90 dias para domiciliar a Bolsonaro, que precisará voltar a usar tornozeleira

Medo de morrer, crises de soluço e Flávio candidato: Relembre rotina de Bolsonaro na prisão
Medo de morrer, crises de soluço e Flávio candidato: Relembre rotina de Bolsonaro na prisão

Ana Pompeu, Isadora Albernaz E Luísa Martins Brasília, Df (folhapress) - 24/03/2026 15:45:04 | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

ANA GABRIELA OLIVEIRA LIMA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) Desde que violou a tornozeleira eletrônica usada na prisão domiciliar, em novembro de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pressionou o STF (Supremo Tribunal Federal) para, na impossibilidade de escapar da sentença por ter liderado um golpe de Estado, cumpri-la em casa.

A violação da tornozeleira foi seguida pela condenação na corte e o encarceramento na Superintendência da PF (Polícia Federal) de Brasília. Entre idas e vindas do hospital, o político escreveu carta aos brasileiros na qual anunciava o aval ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para concorrer à Presidência e, por meio de advogados, pediu uma SmartTV e reclamou do barulho do ar-condicionado.

Em janeiro, ele foi para a Papudinha, onde saiu para fazer uma cirurgia de hérnia e viu a possibilidade de receber a visita de Darren Beattie, conselheiro do presidente americano Donald Trump, além de receber políticos em busca de apoio para as eleições 2026.

Tudo isso aconteceu entre relatos do ex-presidente a aliados, como mostrou a Folha de S.Paulo, sobre medo da morte e de um atentado contra Flávio.

Neste mês, um quadro de broncopneumonia foi tratado por sua equipe médica como agravamento das condições clínicas do ex-presidente, e a defesa solicitou pedido de prisão domiciliar, que foi concedida nesta terça-feira (24) pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Relembre os principais momentos de Bolsonaro desde a tentativa de romper a tornozeleira até a mais recente ida ao hospital.

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'SURTO' E TORNOZELEIRA
Em novembro de 2025, o ex-presidente cumpria prisão domiciliar quando tentou romper sua tornozeleira eletrônica. O equipamento era uma das medidas cautelares alternativas à prisão determinadas pela Justiça em contexto no qual Bolsonaro havia descumprido uma proibição de usar as redes sociais.

O político alegou ter tido um surto e uma crise de paranoia. Depois do episódio, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou sua prisão preventiva. Além da violação da tornozeleira, o magistrado citou risco de fuga para a embaixada dos EUA e uma vigília convocada pelo filho Flávio em frente ao condomínio do ex-presidente.

PRISÃO PREVENTIVA NA PF
A prisão preventiva de Bolsonaro ocorreu no dia 22 de novembro. O político já havia sido condenado pela Primeira Turma do Supremo a 27 anos e 3 meses de prisão, mas o período era de recurso antes do trânsito em julgado.

Ele foi levado à Superintendência da PF do Distrito Federal, onde ficou em uma sala no térreo, de 12 m², com cama, banheiro privativo e mesa de trabalho. O local é reservado a figuras públicas e autoridades.

CONDENAÇÃO DEFINITIVA E AR-CONDICIONADO
Três dias depois de ter ido preventivamente para a sala da PF, Jair Bolsonaro recebeu a condenação definitiva pela tentativa de golpe. Isso aconteceu 656 dias após o início das investigações.

O início do cumprimento da pena foi na sala da PF. O espaço também tinha frigobar, televisão e um ar-condicionado que virou alvo de reclamação do político. Segundo sua defesa, o barulho do equipamento comprometia o repouso e afetava a saúde do ex-presidente. No período, os advogados também pediram uma SmartTV.

HÉRNIA, SOLUÇO E HOSPITAL
Em 24 de dezembro, Jair Bolsonaro deixou pela primeira vez a prisão na Polícia Federal para fazer uma cirurgia de correção de hérnia inguinal bilateral, condição na qual um tecido do abdômen incha e gera uma protuberância na região da virilha.

Ele também passou por procedimentos para controlar crises de soluço e registrou picos de hipertensão. O político recebeu alta no dia 1º de janeiro, quando voltou a cumprir pena na sede da Superintendência.

FLÁVIO PRÉ-CANDIDATO A PRESIDENTE
No dia 25 de dezembro, Flávio Bolsonaro leu, em frente ao hospital no qual o pai estava internado, uma carta em que o ex-presidente indicava o filho para assumir seu espólio e concorrer à presidência da República.

Jair Bolsonaro falou em pagar um preço alto, com sua saúde e família, para fazer o que acredita "ser o melhor para o nosso Brasil". Ele repetiu discurso sobre injustiça e falou da necessidade de indicar o filho. Antes disso, Flávio havia barganhado sua candidatura. Depois, falou da intenção de não abrir mão do objetivo e tem sido apontado em pesquisas como o principal opositor de Lula.

QUEDA NA SALA DA PF
No início de janeiro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) relatou que o marido caiu na prisão enquanto dormia.

"Meu amor não está bem. Durante a madrugada, enquanto dormia, teve uma crise, caiu e bateu a cabeça no móvel", disse em postagem. "Como o quarto permanece fechado, ele só recebeu atendimento quando foram chamá-lo para minha visita."
A defesa falou em suspeita de risco de traumatismo. Já o médico da PF constatou ferimentos leves e disse que não era necessário encaminhar o presidiário ao hospital.

O ministro do STF Alexandre de Moraes autorizou a ida do político ao hospital DF Star de Brasília para a realização de exames.

PAPUDINHA
Em 15 de janeiro, Bolsonaro foi transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como Papudinha.

A nova cela, de 65 m², é exclusiva do ex-presidente. A transferência foi autorizada por Moraes, que rebateu críticas de familiares do político sobre a sala na PF, dizendo que prisão não é "estadia hoteleira" ou "colônia de férias".

"Mentirosa e lamentavelmente, vem ocorrendo uma sistemática tentativa de deslegitimar o regular e legal cumprimento da pena privativa de liberdade de Jair Messias Bolsonaro, que vem ocorrendo com absoluto respeito à dignidade da pessoa humana e em condições extremamente favoráveis em relação ao restante do sistema penitenciário brasileiro", escreveu.

O local tem lavanderia, quarto, sala e área externa, cozinha, banheiro, armários, cama de casal e TV.

VISITAS NA PRISÃO E MEDO DA MORTE
Bolsonaro recebeu visitas de aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ao visitá-lo pela primeira vez na Papudinha, Tarcísio reforçou o compromisso com o time e sua tentativa de reeleição.

Outros pré-candidatos foram ao presídio em busca de respaldo do político para se lançarem em seus redutos eleitorais. À Folha de S.Paulo aliados que visitaram o ex-presidente afirmaram que o político relatou temer a morte e um atentado a Flávio Bolsonaro.

CONSELHEIRO DE TRUMP
Uma visita foi autorizada e depois cancelada pelo Supremo. O ministro Alexandre de Moraes havia permitido que o ex-presidente recebesse Darren Beattie, conselheiro do presidente americano Donald Trump. Depois de manifestação do ministro Mauro Vieira, das Relações Exteriores, o magistrado retrocedeu.

O juiz afirmou que a visita poderia configurar "indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro". Ele também disse que o pedido não se enquadra nos objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado, relacionados a entender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro.

Darren Beattie é crítico de Moraes e do governo federal, e sua visita se daria em contexto no qual o Brasil avalia que Trump pode tentar interferir nas eleições.

BRONCOPNEUMONIA
O ex-presidente foi internado no dia 13 de março em razão de um quadro de broncopneumonia, um tipo de infecção que afeta bronquíolos e alvéolos. A internação foi usada pela defesa para pedir, novamente, a concessão da prisão domiciliar.

Os advogados argumentam que a saúde do presidente demanda a medida, o que tem sido negado pelo STF sob o argumento de que a unidade prisional tem os recursos necessários para cuidar adequadamente do ex-presidente. A PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestou a favor do pedido.

Moraes fixa prazo de 90 dias para domiciliar a Bolsonaro, que precisará voltar a usar tornozeleira

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou nesta terça-feira (24) a prisão domiciliar humanitária ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O pedido vinha sendo feito pela defesa desde antes do cumprimento definitivo da pena por tentativa de golpe de Estado, em novembro passado.

Segundo a ordem de Moraes, a prisão domiciliar tem prazo inicial de 90 dias, a contar a partir de sua alta médica, "para fins de integral recuperação da broncopneumonia".

"Após esse prazo, será reanalisada a presença dos requisitos necessários para a manutenção da prisão domiciliar humanitária, inclusive com perícia médica se houver necessidade."
O ex-presidente precisará voltar a usar tornozeleira eletrônica e ficará obrigatoriamente em sua casa, em um condomínio fechado em Brasília.

O ministro frisou que se houver descumprimento de qualquer medida, o benefício será revisto. " *O descumprimento das regras da prisão domiciliar humanitária temporária ou de qualquer uma das medidas cautelares implicará na sua revogação e ao retorno imediato ao regime fechado ou, se necessário for, ao hospital penitenciário", afirmou na decisão.

Moraes determinou um posicionamento do PGR na última sexta-feira (20). A resposta veio no início desta semana.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou pela concessão do pedido na segunda (23) em razão da saúde do ex-presidente, que completou 71 anos no sábado (21) e ficou internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) com broncopneumonia bacteriana nos dois pulmões a partir de 13 de março.

"Ao ver da Procuradoria-Geral da República, está positivada a necessidade da prisão domiciliar, ensejadora dos cuidados indispensáveis ao monitoramento, em tempo integral, do estado de saúde do ex-presidente, que se acha, comprovadamente, sujeito a súbitas e imprevisíveis alterações perniciosas de um momento para o outro", disse Gonet.

Bolsonaro foi levado a um hospital em Brasília em 13 de março depois de passar mal em sua cela na Papudinha, batalhão da Polícia Militar ao lado do Complexo Penitenciário da Papuda, onde ele está preso desde 15 de janeiro.

O ex-presidente chegou à unidade com febre alta, queda da saturação de oxigênio, sudorese e calafrios. Segundo os médicos, essa é a pneumonia mais grave dentre as últimas três que ele teve.

O quadro de saúde de Bolsonaro é uma decorrência do atentado à faca que ele sofreu durante a campanha eleitoral de 2018. As crises de soluço induzem o reflexo do vômito, o que pode resultar em broncoaspiração e em uma consequente pneumonias aspirativas.

O boletim médico divulgado na segunda afirma que Bolsonaro pode ter alta da UTI nas próximas 24 horas, caso mantenha evolução satisfatória.

"[Bolsonaro] segue com antibioticoterapia endovenosa, suporte clínico intensivo e fisioterapia respiratória e motora", diz o boletim médico divulgado nesta segunda. "Se mantiver evolução satisfatória, deverá receber alta da terapia intensiva nas próximas 24 horas."
Como mostrou a Folha de S.Paulo, a ofensiva pela domiciliar teve a participação do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da bancada bolsonarista no Congresso Nacional e de ministros do STF.

Um argumento utilizado por políticos e por outros ministros junto a Moraes foi o risco de que a eventual morte de Bolsonaro fosse encarada politicamente como responsabilidade do Supremo. Pelo menos cinco magistrados entendem que deixar Bolsonaro cumprir a pena em casa seria a melhor opção.

Ao atender Bolsonaro na manhã em que ele passou mal, a equipe médica de plantão na Papudinha citou "risco de morte" do ex-presidente como motivo para a transferência ao hospital, conforme consta em relatório enviado ao STF pelo núcleo de custódia.

Em 1º de janeiro, o ex-presidente teve alta hospitalar após fazer uma cirurgia de hérnia. À época, Moraes negou pedido da defesa pela prisão domiciliar.

Bolsonaro cumpre pena após ser condenado por liderar uma trama golpista depois da derrota nas eleições de 2022. Ele foi preso na sede da Polícia Federal em Brasília em 22 de novembro, após ter violado a tornozeleira eletrônica. Antes disso, estava preso em sua residência, no condomínio Solar de Brasília, no Jardim Botânico.

A transferência para a Papudinha ocorreu em janeiro. Em março, a defesa de Bolsonaro fez um novo pedido de domiciliar, que também foi negado por Moraes. A decisão do ministro foi referendada depois pela Primeira Turma do STF.

Na época, o relator do caso afirmou que "a total adequação do ambiente prisional às necessidades médicas do apenado, com absoluto respeito à sua saúde e à dignidade da pessoa humana". Também citou o episódio em que Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica, o que foi interpretado pelo ministro como tentativa de fuga.

De acordo com o ministro, diante de "reiterados descumprimentos das medidas cautelares durante toda a ação penal" e do resultado da perícia médica oficial, "não se verifica a presença dos requisitos excepcionais para a concessão de prisão domiciliar humanitária".

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