Missão na RD do Congo destaca boinas-azuis que atuam na selva contra ebola

Em entrevista à ONU News, comandante da força de paz, Ulisses Gomes, conta que soldados de paz têm agora desafio duplo; liderança estratégica ajuda a salvar vidas contra ameaças visíveis e invisíveis; sem medicamentos e vacinas, vírus tem se espalhado pelo país africano com rapidez

Missão na RD do Congo destaca boinas-azuis que atuam na selva contra ebola
Missão na RD do Congo destaca boinas-azuis que atuam na selva contra ebola

Agência Onu News - 27/05/2026 06:21:42 | Foto: Monusco

O combate ao novo surto de ebola na República Democrática do Congo acaba de ganhar um reforço que vem do coração da segunda maior floresta tropical do mundo. Ali, atua um contingente das Nações Unidas, que inclui militares brasileiros e boinas azuis da ONU, liderados pelo general Ulisses Gomes.

Destacados para treinamento em selva, o grupo foi chamado para proteger civis e ajudar no enfrentamento ao vírus, que tem se propagado com rapidez na nação africana.

O legado verde-oliva e o treinamento de elite
O general que visitou Ituri, a província onde foi detectado o novo surto, falou à ONU News sobre o deslocamento das forças da selva, que antes estavam focadas somente em capacitar forças locais e multinacionais para combater grandes grupos armados.

“Nós temos aqui na missão 29 brasileiros. Sou eu o force commander, eu tenho a minha equipe que trabalha no meu gabinete do Force commander, 10 militares, sendo duas mulheres. Temos também 13 militares que fazem parte da equipe móvel de treinamento de guerra na selva, que treina não somente as tropas da Monusco, como também as tropas das Forças Armadas da República Democrática do Congo, para combater grupos ilegais.”

Entre as mais de 120 organizações rebeldes estão as Forças Democráticas Aliadas, vinculadas e treinadas pelo Estado Islâmico, um grupo terrorista. Os militares brasileiros capacitam as tropas da Monusco e das Forças Armadas do Congo para enfrentar o fogo cruzado. Quem explica é o general Ulisses Gomes.

“Além disso, nós temos mais quatro militares que estão dentro do contingente uruguaio, em Goma, sendo uma mulher. Então, esse é o contingente brasileiro que está junto dessa tropa multinacional que forma a Monusco, as tropas da Monusco. Temos 45 países sendo representados na Monusco aqui, atualmente, sendo 14 países que contribuem com tropa.”

A atuação da equipe móvel de treinamento de guerra na selva é considerada um divisor de águas na região de Beni aonde a capacitação tática dos especialistas brasileiros é essencial.

Escudo contra ameaças biológicas: o combate ao ebola
Mas além do cenário de segurança tradicional, o contingente militar enfrenta ameaças sanitárias severas como a do ebola. A resposta logística e médica estruturada sob a liderança brasileira visa conter a propagação de patógenos letais, como o vírus do ebola, protegendo tanto o efetivo militar quanto as populações civis vulneráveis nas áreas de patrulha.

“A nossa resposta a esse vírus invisível, ela está focada em quatro eixos fundamentais, que é a prevenção, a identificação, o precoce tratamento, a conscientização e o treinamento de equipes médicas. No que concerne a prevenção, é um monitoramento diário que a gente faz, tem a auto-observação por 21 dias e a aquisição de equipamentos de proteção individual e coletivo para as equipes que estão na linha de frente, que são as equipes médicas, porém também para as nossas tropas, porque a gente, quando conduz as patrulhas, pode ocorrer momento em que a gente tenha que conduzir uma evacuação aeromédica. Então, é importante também explicar como que o vírus se espalha.”

Protocolos rígidos
Diferente de patógenos de alta volatilidade, conter o vírus do ebola exige protocolos rígidos de barreira física, dado que a transmissão ocorre pelo contato direto com fluidos corporais infectados, como sangue e suor, ou por via sexual.

O plano de contingência envolve rotinas de higienização severas, triagem térmica nas bases de operação, desinfecção contínua de postos de saúde e o isolamento imediato de casos suspeitos pelo período epidemiológico de incubação de 21 dias.

A coordenação prévia com a rede hospitalar local impede que as próprias estruturas de atendimento se tornem vetores de contágio. A conscientização comunitária é ampliada por meio da rádio local Okapi e de engajamento com lideranças locais.

Compromisso com a geopolítica da paz
A indicação consecutiva de oficiais-generais brasileiros para o comando da força militar da Monusco reflete o prestígio diplomático e a capacidade de gerenciamento de crises do país em fóruns multilaterais. O oficial diz que sua tarefa é continuar promovendo essa popularidade.

“Então, para nós é uma honra representar as Forças Armadas, e eu gostaria também de dar continuidade ao legado desses oficiais generais brasileiros que passaram por aqui, deixaram sua marca de profissionalismo, dedicação e compromisso com a paz mundial, e reafirmar essas excelências dos generais.”

O Brasil, como articulador do multilateralismo, destaca seu papel na governança global ao gerenciar uma coalizão militar complexa em meio a disputas territoriais acirradas, como a atuação do grupo M23 e das Forças Democráticas Aliadas.

“Eu gostaria de dizer, falando para os brasileiros, que é uma honra representar o Exército Brasileiro, as Forças Armadas e o Brasil, em uma das maiores e mais desafiadoras missões de paz da ONU, onde a gente tem uma força multinacional, com 45 países sendo representados aqui, sob o comando de um general brasileiro. O Brasil, como você sabe, é um signatário da Carta de Criação da ONU, em 1945, e estamos aqui honrando um compromisso de Estado de contribuir com a paz mundial.”

Como o sexto oficial a assumir o posto de force commander consolidando uma sequência histórica de cinco generais brasileiros na liderança, a chefia atual mantém a projeção de um país baseado na neutralidade e na eficiência operacional.

*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.

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