'Não se metam nas eleições do Brasil', diz Lula em reação a Trump
João Caminoto-genebra, Suíça (folhapress) - 17/06/2026 16:40:04 | Foto: © RICARDO STUCKERT/PR
ISABELLA MENON-WASHINGTON, None (FOLHAPRESS) - O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou em entrevista a jornalistas que conversou com Lula (PT) durante o G7, chamou a situação política do Brasil de perigosa e se confundiu sobre a situação do clã Bolsonaro.
"E o Brasil se tornou um país um pouco complicado, certo? Politicamente. Ficou um pouco perigoso do ponto de vista político. Você está falando do Brasil, não é? Tem sido algo desagradável", afirmou.
Questionado se conversou com Lula a respeito das novas tarifas propostas pelos EUA, que podem chegar a 37,5%, e a designação de PCC e CV como terroristas, Trump disse: "Eu passei bastante tempo com ele. O Brasil se tornou um país difícil politicamente".
O americano também confundiu os integrantes da família Bolsonaro.
"Ouvi dizer que prenderam hoje alguém que está concorrendo a um cargo público. Fiquei sabendo disso depois que saímos. Eu tinha acabado de me despedir dele e ouvi dizer que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas. Prenderam-no, ou querem prendê-lo, para ter alguma coisa contra ele", disse Trump.
Na terça-feira (16), o STF (Supremo Tribunal Federal) condenou o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, e não o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), pelo crime de coação no curso do processo.
A decisão foi tomada pela Primeira Turma da corte, que determinou ao ex-deputado pena de quatro anos e dois meses de prisão em regime inicialmente semiaberto. Ainda cabe recurso, e não houve nenhuma prisão ainda. Eduardo vive nos EUA desde março do ano passado.
Trump disse que as autoridades no Brasil "jogam pesado" e, em seguida, voltou a falar sobre os EUA. "Mas ninguém joga mais pesado do que os Estados Unidos. Veja, nossas eleições são totalmente manipuladas. Nós temos eleições manipuladas."
Em Genebra, na Suíça, o presidente Lula comentou sobre Trump, disse que o republicano pode ter as preferências dele, mas que se conhece o Brasil pela relação que tem com a família Bolsonaro, "ele desconhece o Brasil".
"Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania. Só espero isso. Ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto. Não tenho nenhum problema. Afinal de contas, gosto não se discute."
Para Lula, porém, o presidente americano só não pode interferir nas eleições brasileiras. "Agora, não se meta nas eleições do Brasil porque as eleições do Brasil é um problema do Brasil. Como as eleições americanas são um problema deles e não meu."
Ele negou ainda que tenha pedido uma reunião bilateral com o presidente, uma vez que os países estão sob um processo de negociação, em meio a tentativa de fixação de uma nova tarifa contra o Brasil. "Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada pro Brasil, ele sabe disso. É por isso que eu disse que ele ainda continua agindo com o liberador."
Lula pareceu irritado com as recentes investidas americanas contra o Brasil. "Eu entreguei pra ele um documento do crime organizado pra mostrar que a Polícia Federal tá preparada, que se ele quiser combater o que é organizado, o Brasil tá muito disposto. Inclusive dizendo pra ele que são eles que exportam portas brasileiras para o Brasil."
O petista voltou a afirmar que, durante o encontro na Casa Branca, entregou pessoalmente a Trump um documento com propostas de cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado. Segundo o presidente brasileiro, o texto inclui preocupações relacionadas ao fluxo de armas e recursos financeiros ligados a organizações criminosas que atuam no Brasil.
"Todas as armas que a Polícia Federal apreende no Brasil são armas que não são fabricadas pela Polícia Federal", disse. Lula também mencionou a necessidade de cooperação internacional para rastrear recursos financeiros de criminosos brasileiros mantidos no exterior, citando o estado americano de Delaware.
O presidente ressaltou que preferiu formalizar os pedidos por escrito. "Eu não quero só falar. O presidente Trump fala muito e ouve pouco. Por isso fiz questão de entregar para ele por escrito", afirmou.
Segundo Lula, o objetivo é ampliar a colaboração bilateral no enfrentamento ao crime organizado. Ele defendeu uma atuação conjunta das forças de segurança para identificar, investigar e responsabilizar integrantes dessas organizações criminosas. "É isso que nós queremos para combater o crime organizado", disse.
"As eleições do Brasil são um problema do Brasil. Como as eleições americanas são um problema dele. Não é um problema meu."
A frase, dita pelo presidente Lula em entrevista coletiva na embaixada brasileira em Genebra nesta quarta-feira (17), resume o tom que ele deu a quase todas as respostas sobre Donald Trump: o Brasil decide os próprios assuntos, negocia em pé de igualdade e não se alinha automaticamente a nenhuma potência.
"Não se metam nas eleições do Brasil", afirmou Lula, após declarações de Trump, que chamou de perigosa a situação política no país e se confundiu sobre a situação do clã Bolsonaro.
Sobre a falta de uma reunião bilateral com o americano na cúpula do G7, Lula foi direto: "Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil. Ele sabe disso. É por isso que eu disse que ele ainda continua agindo como imperador."
"Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas", completou, ao defender que Trump não interfira na política brasileira.
Questionado sobre os encontros breves e a pouca interação com Trump nas imagens da cúpula, Lula disse considerar "desaforada" a atitude do americano em relação ao Brasil, mas atribuiu a ausência de uma reunião bilateral à fase ainda aberta da negociação sobre o tarifaço imposto por Washington, não a um rompimento.
"Eu não pedi bilateral para o Trump porque nós estamos em negociação", disse o presidente, citando as conversas em andamento entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano, e entre o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria e Comércio) e a contraparte americana.
Lula afirmou ter entregue pessoalmente a Trump, por escrito, quatro documentos durante a cúpula: um sobre o combate ao crime organizado, destacando a capacidade da Polícia Federal brasileira; um sobre terras raras e minerais críticos; um sobre comércio bilateral; e uma cópia do acordo que Brasil, Turquia e Irã negociaram em 2010 sobre o programa nuclear iraniano - que, segundo o presidente, teria evitado a necessidade de ataques militares ao país caso tivesse sido aceito na época.
"Eu fiz questão de entregar por escrito, porque agora, quando eu converso com uma pessoa que fala mais do que ouve, eu faço questão de entregar por escrito para as pessoas não esquecerem o que eu entreguei", afirmou.
Sobre o documento de combate ao crime organizado, Lula disse ter usado o encontro para rebater publicamente a decisão do governo americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, anunciada por Marco Rubio na semana anterior à cúpula.
"Eu fiquei surpreso quando a semana passada recebo a notícia da punição, inclusive colocando as facções criminosas como terroristas", disse. "Eu tinha falado para eles, essas ações criminosas são terroristas para o povo brasileiro, para o povo das comunidades no Brasil. Não são terroristas como você pensa, eles não querem brigar e derrotar o Estado, eles não querem criar um outro Estado, eles querem dinheiro. Então é diferente."
O presidente disse ainda ter cobrado dos americanos uma cooperação mais ativa contra o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro ligados ao crime organizado brasileiro. "Todas as armas que a Polícia Federal apreende no Brasil vêm de Miami. E o Estado de Delaware, nos Estados Unidos, faz lavagem de dinheiro de bandidos brasileiros", afirmou, sem detalhar a fonte dessas informações.
'Não se metam nas eleições do Brasil', diz Lula em reação a Donald Trump
ELEIÇÕES E A REFERÊNCIA A EDUARDO BOLSONARO
Lula também foi questionado sobre declarações de Trump à imprensa em Évian, nas quais o americano classificou o Brasil como um país "complicado" e "perigoso" politicamente, e disse ter ouvido falar que prenderam o "Bolsonaro Jr" porque ele estaria bem nas pesquisas.
A fala parece se referir a Eduardo Bolsonaro, condenado nesta semana pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo - mas que não foi efetivamente preso, já que vive nos Estados Unidos desde 2025. Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo, é senador e pré-candidato à Presidência, e não foi condenado nem preso no caso.
Lula não corrigiu o equívoco de Trump diretamente, mas atribuiu o comentário ao desconhecimento do americano sobre a política brasileira. "Eu acho que ele conhece pouco o Brasil. Ele conhece o Brasil pela relação que ele tem com a família Bolsonaro", disse.
O presidente aproveitou para defender o sistema eleitoral brasileiro, citando a apuração rápida das urnas eletrônicas como exemplo a ser seguido pelos próprios Estados Unidos. "Não tem país no mundo que tem um sistema de urna eletrônica em que, duas horas após terminar as eleições, a gente já sabe o resultado em 27 estados da Federação", afirmou. "Se tem alguém que tem que aprender com as eleições civilizadas no Brasil, é o meu amigo Trump."
Apesar do tom crítico, Lula evitou um rompimento mais duro e disse respeitar o direito de Trump de manter suas preferências políticas, inclusive de simpatia pela família Bolsonaro.
"Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema. [...] Agora, não se metam nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil. Como as eleições americanas são um problema dele. Não é um problema meu."
CHINA, ESTADOS UNIDOS E O LUGAR DO BRASIL
Antes de tratar especificamente de Trump, Lula havia dedicado parte da entrevista a explicar como o Brasil se posiciona na disputa comercial entre Estados Unidos e China - tema que, segundo ele, atravessou as discussões da cúpula sobre desequilíbrios econômicos globais.
O presidente disse não querer uma "Guerra Fria" entre as duas potências e defendeu que cada país ocupe seu espaço sem que o Brasil precise tomar partido. "Defendemos que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos, que a China seja China e que nós sejamos nós", disse. "Quanto mais negociação a gente fizer, melhor para todo mundo."
Lula citou números para justificar a proximidade comercial brasileira com Pequim: superávit de US$ 165 bilhões na balança comercial com a China, contra um déficit de US$ 10 bilhões com os Estados Unidos, cuja corrente de comércio bilateral somou US$ 80 bilhões no ano passado.
Para o presidente, a vantagem chinesa na América Latina e na África resulta de um vácuo deixado pelos próprios europeus e americanos, não de uma estratégia deliberada de Pequim. "A China ocupou um espaço que estava vazio pela ausência dos europeus e dos americanos", afirmou. "Ele não pode se queixar que a China está ocupando o espaço. O espaço estava vazio."
O presidente afirmou ter dito a Trump, ao final de sua fala na cúpula, que a discussão comercial mais ampla deveria ocorrer no G20, sob presidência americana este ano - não em fóruns bilaterais. "Quer discutir a questão comercial com seriedade no mundo? Vamos discutir no G20", disse ter afirmado ao americano.
Lula diz que nunca foi esquerdista em áudio vazado no G7
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Lula (PT) disse nesta quarta-feira (17) nunca ter sido esquerdista, em um áudio vazado em evento do G7, grupo dos sete países com as maiores economias mundiais.
O político conversava com a diretora-geral do FMI (Fundo Monetário Internacional), Kristalina Georgieva, e com o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, sobre política em outros países do mundo, como os Estados Unidos, quando afirmou que "o mundo não é de esquerda".
A conversa foi capturada em uma gravação da agência de notícias Associated Press.
Lula afirmou também que "o mundo é do caminho do meio. Essa é a verdade". Interpelado pela chefe do FMI de que a expectativa é que o mandato dele, em 2003, fosse esquerdista, o petista negou.
"Nunca fui esquerdista", afirmou Lula, que completou a conversa falando sobre a sua trajetória como um dirigente sindical e dizendo que chegou a ser chamado de "anticomunista" nos anos 1980, depois de recusar uma viagem à União Soviética.
"Eu era um dirigente sindical com uma belíssima relação com o sindicalismo alemão. Tinha uma relação boa com o sindicalismo italiano. Tinha uma relação boa com a UGT da Espanha", afirmou Lula.
No G7, as principais potências mundiais se reúnem para discutir questões prementes no cenário global. O grupo é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido.
O presidente Lula participa do G7 como convidado. Ele aproveitou o evento para criticar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e falar sobre inteligência artificial, proteção de menores na internet e regulação das redes sociais, além de outros tópicos.
Em conversa no G7, Lula critica comportamento de 'imperador' de Trump e o chama de 'mau exemplo'
RICARDO DELLA COLETTA E JOÃO CAMINOTO-BRASÍLIA, DF E ÉVIAN-LES-BAINS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma conversa com o líder da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, na cúpula do G7 em Évian-les-Bains (França). O brasileiro disse não suportar o comportamento do governo americano.
Lula e Lee, ambos participando como convidados no bloco, conversavam na sala principal da reunião nesta quarta-feira (17). A conversa ocorreu sem que os demais líderes estivessem na sala, num contexto informal. Eles foram filmados por uma equipe da agência de notícias Associated Press, e é possível escutar apenas parte do diálogo.
Em um dos trechos, Lula diz que o Brasil "não tem divergência com nenhum país" e que "não gosta de briga". Em seguida, emenda: "Eu não suporto o comportamento do governo americano".
Após um trecho inaudível, é possível ouvir uma menção de Lula a "imperador" -como ele já se referiu a Trump em outras ocasiões, embora não o cite nominalmente no que é possível compreender do áudio.
Ele também critica o comportamento de quem "acha que pode levantar de manhã e dar ordem para o mundo todo", em outra referência ao americano semelhante a críticas que ele já fez no passado. Nesse contexto, ele finaliza dizendo tratar-se de um "mau exemplo para a democracia".
Em abril, em entrevista ao El País, Lula disse que "Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país". No ano passado, durante cúpula de líderes do Brics no Rio de Janeiro, o brasileiro comentou o que era então uma ameaça de imposição de tarifas de Trump. "O mundo mudou, não queremos imperador. Nós somos países soberanos. Se ele achar que ele pode taxar, os países têm o direito de taxar também."
De acordo com o que é possível ouvir da transmissão desta quarta, o sul-coreano escuta em silêncio os comentários de Lula. Depois, muda de assunto e faz uma pergunta sobre o número de turistas no Brasil.
Lula participa com convidado da reunião do grupo formado por Estados Unidos, França, Reino Unido, Canadá, Itália e Alemanha. Além dele e do sul-coreano, há outras nações convidadas, como Egito, Índia e Ucrânia. Trump também compareceu, mas não houve conversa bilateral formal com Lula. Os dois presidentes se cumprimentaram durante evento social na noite de terça-feira (16).
Em seu discurso no mesmo dia, Lula cobrou os países ricos pelo que chamou de omissão diante da crise global de desenvolvimento. Também criticou, sem citar nomes, tanto o neoliberalismo quanto o protecionismo que marca a política comercial do governo Trump.
"Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe", afirmou o presidente brasileiro em Évian. Lula defendeu ainda o combate ao crime organizado transnacional, mas com a condição de que ele leve em conta "o respeito à soberania dos Estados".
Disse que o narcotráfico "aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas" e que seu enfrentamento "não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas."
Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano designou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida foi tomada dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL), provável adversário de Lula nas eleições presidenciais de outubro, reunir-se com Trump na Casa Branca e pedir pessoalmente a medida.
Comentários para "Trump diz que situação política no Brasil é perigosa e se confunde sobre Bolsonaros":