A importância de quem conhece cada lugar
Hojepr - 29/10/2026 11:34:09 | Foto: HojePR
A importância de quem conhece cada lugar
Uma das características mais interessantes da regionalização é reconhecer que nenhuma campanha de divulgação, por maior que seja, substitui o conhecimento de quem vive no território.
São os municípios que identificam uma estrada capaz de dar acesso a uma paisagem ainda pouco visitada, uma celebração religiosa que mobiliza comunidades há gerações, uma tradição culinária preservada pelas famílias ou uma propriedade rural que pode abrir suas portas aos visitantes.
Mas identificar uma atração é apenas o começo. Para transformá-la em produto turístico, é preciso pensar no acesso, no atendimento, na segurança, na sinalização, na hospedagem e na integração com outros serviços.
Nesse processo, as Instâncias de Governança Regional ajudam a aproximar prefeituras, empresários, associações e comunidades, criando uma estrutura de cooperação que ultrapassa os limites de uma gestão municipal.
A Secretaria de Estado do Turismo reuniu, em junho de 2026, representantes dos 18 territórios em Foz do Iguaçu para discutir prioridades relacionadas à governança, infraestrutura, qualificação e promoção dos destinos. A iniciativa ilustra uma etapa indispensável dessa construção: aproximar o planejamento estadual das necessidades concretas de cada região.
Há também uma questão econômica importante. Nem toda cidade precisa dispor de um grande hotel, aeroporto ou equipamento turístico para participar dessa atividade. Em muitos casos, pode integrar um roteiro apoiado na estrutura de municípios próximos, oferecendo experiências complementares e atraindo parte dos gastos realizados pelo visitante.
É uma maneira de distribuir oportunidades sem exigir que todos os lugares se tornem destinos completos e independentes.
Ao mesmo tempo em que os municípios procuram estruturar suas ofertas, o Viaje Paraná trabalha para ampliar os mercados interessados em conhecer o Estado.
Nos primeiros nove meses de 2026, o órgão participou de aproximadamente 110 eventos no Brasil e no exterior, incluindo feiras, encontros comerciais, convenções e capacitações de profissionais do setor.
Mais de 14,5 mil agentes de viagens e empresários tiveram contato com os destinos paranaenses nesse período, número 20% superior ao registrado nos mesmos meses do ano anterior. Mais de 40 dessas ações foram dedicadas especificamente à capacitação de profissionais do mercado turístico.
O Paraná também esteve presente em quase 20 eventos internacionais, distribuídos por três continentes, com agendas em países como Espanha, Portugal, Alemanha, Argentina, Peru, México e Estados Unidos.
A dimensão desses números é relevante, mas o que eles representam pode ser ainda mais interessante.
Quem trabalha profissionalmente com viagens tem capacidade de influenciar escolhas, organizar itinerários e apresentar destinos que muitas vezes não seriam considerados espontaneamente pelo turista. Um operador que conhece apenas Foz do Iguaçu tende a oferecer Foz do Iguaçu. Quando passa a conhecer outras experiências paranaenses, aumenta a possibilidade de diversificar os pacotes e alcançar novos perfis de viajantes.
Essa é uma das razões pelas quais a promoção turística contemporânea vai além de divulgar belas paisagens. É necessário mostrar como cada experiência pode ser incorporada a uma viagem, quais serviços estão disponíveis e de que maneira os diferentes destinos podem ser conectados.
O Viaje Paraná, dirigido por Irapuan Cortes, tem concentrado parte importante de sua atuação nessa aproximação com operadores, agentes de viagens e profissionais capazes de levar os produtos paranaenses aos consumidores.
O trabalho ganha dimensão ainda maior quando representantes municipais e empresários participam dessas agendas, apresentando diretamente aquilo que suas localidades têm a oferecer.

Em outubro, uma iniciativa realizada na Embaixada do Brasil em Assunção mostrou como esse modelo pode funcionar.
Com intermediação do Viaje Paraná, representantes do município de Matinhos participaram de um encontro com profissionais do turismo e conseguiram articular uma visita ao Litoral paranaense, prevista para dezembro, de 25 agentes de viagens, operadores e jornalistas paraguaios.
A proposta é permitir que esses profissionais conheçam pessoalmente o destino, sua infraestrutura, seus serviços e suas possibilidades de comercialização.
Para o município, significa apresentar suas atrações diretamente a quem pode incluí-las nas ofertas destinadas ao público paraguaio. Para o Paraná, representa uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre o Litoral em um mercado internacional próximo, que já mantém relações intensas com o Estado.
O exemplo ajuda a compreender a importância da integração entre promoção estadual e participação municipal. Matinhos apresenta sua identidade e seus atrativos, enquanto a estrutura de divulgação do Viaje Paraná contribui para aproximá-los de um mercado ao qual seria mais difícil chegar de maneira isolada.
Essa relação também permite pensar em roteiros que ultrapassem o próprio município, incluindo outras cidades e experiências do Litoral, conforme o interesse do visitante.
E o mercado internacional oferece razões concretas para esse investimento.
De janeiro a setembro de 2026, o Paraná recebeu mais de 717 mil visitantes estrangeiros, mantendo-se entre as principais portas de entrada internacional do Brasil. Paraguaios e argentinos responderam pela maior parte desse movimento, favorecidos pela proximidade geográfica e pelas conexões terrestres.
O desafio é transformar essa vantagem de localização em viagens mais diversificadas, capazes de distribuir o fluxo turístico por diferentes regiões e estimular maior permanência.
A ampliação dos roteiros também permite recuperar experiências que não cabem facilmente nas formas tradicionais de divulgação.
Os Caminhos do Peabiru, por exemplo, representam a possibilidade de unir história, natureza e turismo de percurso em uma extensa rede de trajetos associados às antigas ligações pelo território sul-americano.
No Vale do Ivaí, destinos religiosos e atrativos naturais podem compor viagens que combinem espiritualidade, lazer e aventura. Nos Campos Gerais, o visitante encontra desde o Parque Estadual de Vila Velha até o Cânion do Guartelá, passando por cidades que preservam tradições tropeiras e heranças da imigração europeia.
O Norte Pioneiro oferece uma combinação de memória cafeeira, turismo rural, paisagens naturais e atrações como a região de Angra Doce. Já o território Terra dos Pinheirais reúne cachoeiras, gastronomia e fortes referências culturais de diferentes comunidades de imigrantes.
No Oeste, a grandiosidade das Cataratas e de Itaipu pode dialogar com experiências relacionadas ao lago, aos municípios lindeiros, à cultura regional e às atividades de natureza. O Sudoeste acrescenta vinícolas, produção artesanal de alimentos, tradições gastronômicas e paisagens ainda pouco exploradas pelo turismo de massa.
Não se trata de afirmar que todos esses roteiros estejam no mesmo estágio de desenvolvimento. Alguns já possuem estruturas consolidadas, enquanto outros dependem de investimentos, qualificação e maior integração entre seus participantes.
O valor da estratégia está precisamente em reconhecer essas diferenças e criar condições para que cada região avance a partir de sua própria identidade.
Turismo sustentável, nesse contexto, também envolve respeitar a capacidade de cada lugar de receber visitantes, proteger o patrimônio natural e cultural e permitir que as próprias comunidades participem dos benefícios econômicos da atividade.

O turismo possui uma característica especialmente importante para as economias regionais: seus resultados não ficam restritos ao atrativo que motivou a viagem.
O visitante que passa uma noite a mais movimenta hospedagem e alimentação. Quem contrata um guia, compra produtos locais, participa de uma experiência rural ou visita uma comunidade tradicional ajuda a sustentar atividades que se espalham pela economia.
No Paraná, as atividades características do turismo encerraram 2025 com mais de 148 mil empregos formais, distribuídos principalmente entre gastronomia, hospedagem, transporte e outros serviços relacionados às viagens.
Para municípios menores, a criação de roteiros regionais pode representar oportunidades para empreendedores que dificilmente teriam condições de promover seus negócios em grandes mercados por conta própria.
Uma família que recebe visitantes na propriedade rural, uma pequena pousada, um restaurante que preserva receitas tradicionais ou um produtor de alimentos artesanais podem encontrar no turismo uma fonte adicional de receita, desde que estejam integrados a uma oferta organizada e com capacidade de receber o público.
É por isso que as políticas de promoção precisam caminhar junto com a qualificação, a infraestrutura e a profissionalização dos serviços. Atrair visitantes é importante. Fazer com que encontrem experiências satisfatórias, retornem e recomendem o destino é o que permite transformar movimento em atividade econômica duradoura.
O Paraná reúne uma combinação pouco comum de atrativos naturais, diversidade cultural, infraestrutura urbana, patrimônio histórico e experiências rurais. Em um mesmo Estado, é possível visitar uma das maiores quedas-d’água do planeta, atravessar paisagens de montanha, conhecer antigas colônias de imigrantes, percorrer cidades históricas, desfrutar de praias oceânicas ou de água doce e descobrir tradições construídas por diferentes gerações.
A novidade não está no surgimento dessas atrações, muitas delas presentes há décadas na vida dos paranaenses. Está no esforço de aproximá-las, organizá-las e apresentá-las como partes de uma experiência de viagem mais ampla.
O trabalho desenvolvido pela Secretaria de Estado do Turismo e pelo Viaje Paraná, em associação com municípios, entidades regionais e iniciativa privada, aponta para essa direção. De um lado, amplia a presença do Paraná nos mercados nacional e internacional. De outro, incentiva que regiões e localidades encontrem sua posição dentro de um mapa turístico cada vez mais diversificado.
O sucesso dessa construção dependerá de continuidade, infraestrutura, participação municipal e capacidade de transformar as iniciativas em produtos que efetivamente cheguem ao viajante.
Mas o horizonte é promissor para um Estado que não precisa inventar paisagens nem fabricar histórias para despertar interesse. Elas já existem, espalhadas por suas diferentes regiões.
Quem chega ao Paraná para conhecer as Cataratas talvez descubra que vale a pena seguir viagem. Quem escolhe Curitiba pode encontrar motivos para descer a serra. Quem visita os Campos Gerais pode se surpreender com o Norte Pioneiro, o Centro-Sul ou o Sudoeste.
E quem pensa conhecer o Paraná porque já esteve em seus destinos mais famosos provavelmente ainda tem muito a descobrir.
Afinal, uma das melhores razões para viajar é perceber que o lugar escolhido oferece muito mais do que aquilo que nos fez partir.
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