O que se sabe sobre o potencial anti-inflamatório das canetas emagrecedoras

O efeito direto desses medicamentos agonistas de GLP-1 sobre o sistema imune ainda é uma hipótese

O que se sabe sobre o potencial anti-inflamatório das canetas emagrecedoras
O que se sabe sobre o potencial anti-inflamatório das canetas emagrecedoras

Vitor Hugo Batista-são Paulo, Sp (folhapress) - 06/09/2026 09:42:00 | Foto: © RAFA NEDDERMEYER/AGÊNCIA BRASIL

Medicamentos de semaglutida e tirzepatida ficaram conhecidos pela capacidade de controlar a glicemia e promover perda de peso, mas estudos clínicos mostram que as canetas emagrecedoras também podem reduzir marcadores de inflamação sistêmica em humanos.

O que a ciência ainda não conseguiu determinar com precisão é quanto dessa redução decorre do emagrecimento e das melhorias metabólicas e quanto pode ser resultado de uma ação direta dos medicamentos sobre os mecanismos inflamatórios.

O efeito direto desses medicamentos agonistas de GLP-1 sobre o sistema imune ainda é uma hipótese. O que as pesquisas têm observado é uma correlação, ou seja, pacientes usam as canetas e apresentam redução da inflamação. Não há comprovação de causalidade.

"A ciência hoje não permite dizer, com precisão, quantos por cento do efeito é decorrente de uma ação direta do medicamento e quantos por cento são explicados pelo emagrecimento", afirma o endocrinologista Clayton Macedo, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor de comunicação da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

A inflamação é uma resposta do organismo a agressões, como infecções e lesões. Ela faz parte do sistema de defesa e é importante para a recuperação dos tecidos.

"Inflamação é sobretudo um processo regenerativo. O corpo que não inflama não se regenera. É algo super importante. A questão é o desbalanço, quando o corpo fica com inflamação demais", explica o endocrinologista Julio Batatinha, doutorando no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

O problema aparece quando a resposta inflamatória permanece ativada por períodos prolongados. É o que pode ocorrer, por exemplo, em casos de obesidade, doenças autoimunes e em algumas doenças metabólicas. Nesses casos, uma inflamação crônica de baixo grau pode contribuir para alterações em diferentes órgãos e aumentar o risco de doenças.

Segundo Batatinha, marcadores como proteína C-reativa (PCR), interleucina 6 e TNF-alfa podem ajudar a avaliar processos inflamatórios, mas não existe um exame que permita, individualmente, determinar que uma pessoa está "inflamada".

O QUE OS ESTUDOS JÁ MOSTRAM
Entre os marcadores estudados, a proteína C-reativa ultrassensível (PCRus), associada a um maior risco cardiovascular, foi reduzida com o uso de semaglutida.

No estudo SELECT de fase 3, que avaliou 17,6 mil pessoas com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes, a semaglutida reduziu a PCRus em cerca de 38% em relação ao grupo placebo, após 104 semanas. Os dados foram apresentados pela farmacêutica Novo Nordisk, que conduziu a pesquisa.

A redução do marcador apareceu já nas primeiras semanas, quando a perda de peso ainda era relativamente pequena. Esse ponto chamou a atenção dos pesquisadores porque sugere que o emagrecimento pode não ser a única explicação para a melhora da inflamação. A perda de peso explica apenas parte do efeito.

A obesidade, principalmente quando há maior acúmulo de gordura visceral, está associada a um estado de inflamação crônica de baixo grau. O tecido adiposo disfuncional libera substâncias inflamatórias e está relacionado à resistência à insulina.

Quando o paciente perde peso, reduz a gordura visceral e melhora o metabolismo, portanto, há uma razão biológica para esperar uma redução da inflamação.

O efeito anti-inflamatório também já foi observado no fígado. Na MASH (esteato-hepatite associada à disfunção metabólica), doença caracterizada pelo acúmulo de gordura no fígado associado a inflamação e lesão das células hepáticas, pesquisas com semaglutida apontam melhora do quadro.

O estudo ESSENCE de fase 3, também da Novo Nordisk, avaliou pacientes com MASH e fibrose hepática e encontrou resolução da esteato-hepatite em uma parcela dos participantes tratados com semaglutida. Dados apresentados pela farmacêutica apontam que a resolução da inflamação no fígado ocorreu em 63% dos pacientes.

Em 2025, foi aprovada no Brasil a indicação de semaglutida biológica 2,4 mg (Wegovy) para o tratamento de gordura no fígado e esteatose hepática com inflamação, independentemente de o paciente ter sobrepeso ou obesidade.

"Contudo, pensando em mecanismo exclusivamente anti-inflamatório, ainda são necessários estudos clínicos robustos e específicos que demonstrem eficácia, segurança e benefício clínico em outras populações e doenças", afirma Débora Coutinho Serruya, gerente médica sênior da área cardiometabólica da Novo Nordisk.

Há aplicações também na dermatologia. A psoríase (PsO) e a artrite psoriásica (PsA) são doenças autoimunes conectadas a condições metabólicas, e a maioria dos pacientes com essas condições também convivem com obesidade ou sobrepeso e comorbidades.

Dados dos estudos TOGETHER-PsO e TOGETHER-PsA de fase 3b, que combinaram tirzepatida (Mounjaro) e ixequizumabe (Taltz) em pacientes com PsO, PSA e excesso de peso, mostraram melhora nas manifestações da doença e no controle do peso. A pesquisa foi conduzida pela farmacêutica Eli Lilly.

André Carvalho, chefe do serviço de dermatologia e responsável pelo ambulatório de psoríase do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, que já atuou em pesquisas clínicas em parceria com a Lilly, afirma que o estudo não foi desenhado para avaliar a tirzepatida como tratamento isolado para psoríase.

"O objetivo foi mostrar que, tratando o paciente com as duas medicações em conjunto, é possível obter um benefício maior do que com uma medicação isolada. Não podemos dizer que isso vale para todas as medicações", diz Carvalho.

Possíveis efeitos dos agonistas de GLP-1 contra doenças inflamatórias intestinais e processos inflamatórios no cérebro também são estudados.

Ainda há muitas perguntas sem resposta. Existe uma ação direta e clinicamente relevante das canetas emagrecedoras sobre as células do sistema imunológico? Quais vias inflamatórias são efetivamente modificadas e quais órgãos contribuem mais para a redução da PCRus?
Também falta saber se os benefícios observados em pessoas com obesidade ou diabetes podem ser reproduzidos em pacientes que não apresentam essas condições.

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