Pequim adverte EUA sobre uso de suposta ‘ameaça chinesa’ como pretexto para tentar anexar a Groenlândia

China afirma que Washington infringe mais uma vez o direito internacional ao tentar influir na liberdade de cada nação

Pequim adverte EUA sobre uso de suposta ‘ameaça chinesa’ como pretexto para tentar anexar a Groenlândia
Pequim adverte EUA sobre uso de suposta ‘ameaça chinesa’ como pretexto para tentar anexar a Groenlândia

Por Bruno Falci - Portal Bdf - 19/01/2026 15:31:35 | Foto: O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen (à esquerda, na neve), participa de uma manifestação contra as ações e declarações dos EUA que sugerem controle sobre a Groenlândia em Nuuk | Anders Kongshaug/Xinhua

O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen (à esquerda, na neve), participa de uma manifestação contra as ações e declarações dos EUA que sugerem controle sobre a Groenlândia em Nuuk

Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira em Pequim, o governo da China reafirmou sua posição firme sobre a Groenlândia e criticou os Estados Unidos por tentar usar a narrativa da chamada “ameaça chinesa” como justificativa para avançar interesses estratégicos na região. O pronunciamento foi feito pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, que destacou a importância do respeito ao direito internacional e à soberania dos países do Ártico.

“O Ártico diz respeito aos interesses gerais da comunidade internacional. As atividades da China na região têm como objetivo promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável, em plena conformidade com o direito internacional”, disse Guo. Ele acrescentou que a suposta “ameaça chinesa” não pode servir de desculpa para interesses egoístas de outros países, numa crítica direta à postura de Washington.

O porta-voz enfatizou que cada país tem soberania para decidir com quem manter relações comerciais, e que as ações da China na região são transparentes, pacíficas e totalmente alinhadas às normas internacionais. Segundo Guo, os esforços chineses priorizam cooperação científica, proteção ambiental e desenvolvimento sustentável, sempre respeitando os direitos e interesses dos países do Ártico.

A declaração acontece após comentários do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sugeriu que Washington precisaria assumir o controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, para impedir que China e Rússia aumentassem sua influência na região. Para Pequim, essa postura representa uma tentativa de justificar ações unilaterais com pretextos geopolíticos, violando princípios básicos de soberania, multilateralismo e liberdade comercial.

“China repudia Washington por infringir o direito internacional ao tentar influir na liberdade de cada nação de escolher com quem tem relações comerciais”, afirmou Guo Jiakun. Ele reforçou que a estabilidade do Ártico deve ser construída pelo diálogo, cooperação e respeito às leis internacionais, e não por ações unilaterais e hegemônicas.

Manifestantes saem às ruas de Nuuk, capital da Groenlândia, contra as ações dos EUA e declarações sugerindo controle sobre seu país. – Anders Kongshaug/Xinhua

Guerra comercial dos EUA contra países que negociam com a Groenlândia

Nos últimos meses, Washington anunciou planos de impor tarifas adicionais de 10% sobre importações de países europeus, incluindo Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, caso se oponham ao plano norte-americano de controlar ou comprar a Groenlândia. A tarifa seria uma forma de pressionar aliados e proteger supostos interesses estratégicos, com possibilidade de aumento para 25% a partir de junho de 2026, caso não haja acordo.

A proposta gerou forte reação internacional, sendo interpretada por diversos governos europeus como uma tentativa de coerção econômica que ameaça o comércio global e a estabilidade das regras internacionais de negociação. Especialistas apontam que tais medidas refletem o caráter hegemonista da política externa norte-americana, que historicamente busca influir nas escolhas soberanas de outros países para consolidar vantagens estratégicas.

Para a Pequim, essas ações reforçam a necessidade de seguir uma política baseada em diálogo, cooperação e respeito às normas internacionais, contrastando com a postura unilateral de Washington. Pequim também enfatiza que cada país tem soberania plena para decidir com quem manter relações comerciais, incluindo atividades econômicas e científicas no Ártico.

Durante coletiva de imprensa na semana passada, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, declarou:

“Os direitos e liberdades legais de todos os Estados para conduzir atividades no Ártico devem ser plenamente respeitados. Os Estados Unidos não deveriam usar outros países como pretexto para buscar interesses próprios.”

O governo chinês reforça que medidas como tarifas punitivas ou tentativas de controlar territórios estratégicos não contribuem para a estabilidade regional, ao contrário, podem aumentar tensões internacionais e prejudicar a governança multilateral da região polar. Pequim defende que o Ártico deve ser um espaço de cooperação científica, econômica e ambiental, e que quaisquer decisões devem respeitar o direito internacional e a soberania das nações.

China reforça atuação pacífica, comercial e científica no Ártico

Em paralelo à sua posição sobre a Groenlândia, Pequim destaca sua atuação estratégica, científica e cooperativa no Ártico, sinalizando um compromisso de longo prazo com pesquisa, preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. A China se apresenta oficialmente como um “Estado próximo ao Ártico”, conceito consagrado em sua política polar, e é observadora do Arctic Council (Conselho do Ártico) desde 2013, o principal fórum intergovernamental que reúne países do hemisfério norte para debater governança e proteção da região.

Desde 1999, Pequim tem organizado diversas expedições científicas ao Ártico com o uso de seu navio‑laboratório Xue Long (“Dragão da Neve”), além de manter estações de pesquisa permanentes que operam há décadas. Uma delas é a Yellow River Station, inaugurada em 2004 em Ny‑Ålesund, Svalbard (Noruega), com pesquisas em glaciologia, ecologia marinha e física atmosférica, entre outros campos. Outra instalação é o China‑Iceland Arctic Science Observatory, aberta em 2018 em parceria com a Islândia, dedicada a estudos sobre clima, atmosfera e ecossistemas árticos.

De acordo com documentos oficiais, o governo chinês vem aumentando investimentos em pesquisa científica na região, fortalecendo plataformas modernas de observação e capacitação de pesquisadores e promovendo a participação de instituições acadêmicas em redes científicas internacionais. As atividades englobam desde monitoramento climático contínuo até estudos de mudança ambiental e biodiversidade, com apoio a cooperação internacional em fóruns como o International Arctic Science Committee.

Além disso, a China tem buscado oportunidades econômicas e comerciais relacionadas ao Ártico, incluindo o uso gradual de rotas marítimas como a Northern Sea Route (Rota Marítima do Norte), que reduz significativamente as distâncias de transporte entre Europa e Ásia devido ao derretimento do gelo, um fator com implicações para o comércio global.

Editado por: Nathallia Fonseca

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