País superou média global com 9,3 milhões de visitantes estrangeiros no último ano
Por Clivia Mesquita - Portal Bdf - 04/02/2026 16:19:57 | Foto: Rio deve movimentar mais de R$ 5,7 bilhões durante o Carnaval 2026, segundo projeções | Crédito: Vitor Melo/Rio Carnaval
Em 2025, o Brasil teve recorde de 9,3 milhões de turistas estrangeiros, segundo a ONU. O aumento de 37% em relação ao ano anterior supera em quase dez vezes a média global.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o presidente da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), Marcelo Freixo, afirma que o resultado é reflexo de um país que “voltou a ser respeitado no mundo”, protagonista da agenda climática e na defesa da democracia.
“O mundo está substituindo o sonho americano, que hoje se provou falido, que sustenta a felicidade no consumismo e que está acabando com o planeta, para uma alternativa do modo brasileiro de viver”, avalia.
“O turista estrangeiro busca no Brasil a nossa capacidade de ser feliz em outras bases. É o que chamamos de ‘Soft Power’ brasileiro em sua máxima potência”, completa. O “poder sutil” a que Freixo se refere a um conceito das relações internacionais no qual países projetam sua influência por meio da cultura.
Segundo Freixo, o turista internacional tem buscado, cada vez mais, experiências de base comunitária, que respeitam o território. “Ele não quer apenas contemplar a natureza, ele quer saber se aquela floresta está sendo preservada e se as comunidades locais se beneficiam da sua visita”
A estratégia da Embratur para alcançar este patamar inclui ações baseadas em inteligência de mercado, diversificação de destinos e expansão da conectividade aérea internacional. Nesta entrevista, Freixo defende que a sustentabilidade está ligada à justiça social, citando como exemplos bem-sucedidos o turismo em comunidades quilombolas, indígenas e favelas.
Marcelo Freixo é professor de História e nasceu em uma comunidade de São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em 2006, se elegeu deputado estadual pela primeira vez, depois concorreu à prefeitura do Rio (2012 e 2016) e ao governo do estado (2022).
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Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato – No início da gestão, o senhor afirmou que o foco era recuperar a imagem do Brasil para os turistas do exterior. Agora o país bateu recorde no fluxo de visitantes estrangeiros. O que o turista de fora procura no Brasil?
Marcelo Freixo – O recorde de visitantes é reflexo, entre outras coisas, de um Brasil que voltou a ser respeitado no mundo. Ninguém viaja para um país em que é mal recebido, que trata mal a diversidade, que não respeita a democracia.
O Brasil se recolocou no mundo como um aliado da humanidade, um país que tem protagonismo na agenda climática e aponta para saídas para um planeta mais sustentável. E isso faz diferença. O turista internacional hoje busca experiência com propósito. Ele não quer apenas contemplar a natureza, ele quer saber se aquela floresta está sendo preservada e se as comunidades locais se beneficiam da sua visita.
Saímos daquela imagem apenas do sol e praia para uma narrativa de país plural, de uma imensa biodiversidade e diversidade cultural. O turista busca a nossa gastronomia, os nossos biomas e, acima de tudo, a nossa gente. O mundo está substituindo o sonho americano, que hoje se provou falido, que sustenta a felicidade no consumismo e que está acabando com o planeta, para uma alternativa do modo brasileiro de viver. O turista estrangeiro busca no Brasil a nossa capacidade de ser feliz em outras bases. É o que chamamos de ‘Soft Power’ brasileiro em sua máxima potência.
Qual papel da Embratur para o Brasil chegar hoje nesse patamar de protagonismo?
A Embratur teve papel estratégico e central nesse avanço. Saímos de uma promoção genérica para uma estratégia baseada em inteligência de mercado, dados e segmentação precisa. Identificamos os mercados prioritários e os diferentes perfis de consumo em cada mercado, entregando para o turista certo, mais interessado em experiências autênticas e sustentáveis, uma narrativa certa e um destino alinhado com seus desejos.
Nessa estratégia, conseguimos ampliar muito a diversificação dos nossos destinos, garantindo que o turista estrangeiro chegue em cada vez mais volume a uma quantidade muito maior de regiões de nosso país.
Criamos um centro na Embratur para captação de novos voos internacionais e casamos nossos investimentos de promoção ao lançamento de novos voos, o que nos garantiu uma atuação muito certeira de expansão da conectividade aérea, que hoje é recorde. Também lançamos o Plano Brasis, o nosso plano de marketing internacional, que nos permitiu avançar muito na coordenação dos esforços entre estados, municípios, setor privado e outros ministérios, integrando políticas públicas e ações de promoção.

Fluxo de turistas estrangeiros no Brasil superou destinos como Egito (+20%), Marrocos (+14%) e Ilhas Seychelles (+13%) | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
O resultado é o recorde histórico de 2025, 9,3 milhões de turistas internacionais, um crescimento de 37%, e uma receita de US$ 7,9 bilhões, além da liderança mundial em crescimento, que injeta recursos em todas as regiões, gera emprego e renda. Hoje o setor responde por cerca de 8% do PIB e 8,2 milhões de postos de trabalho, e o nosso trabalho consolida o turismo como vetor de desenvolvimento inclusivo.
Que tendências e valores sociais o turismo brasileiro tem a ensinar?
O Brasil ensina que a sustentabilidade não é um conceito abstrato, mas algo que passa pela justiça social. As nossas experiências de turismo de base comunitária são referências internacionais. Quando levamos turistas para territórios quilombolas, indígenas, comunidades ribeirinhas ou mesmo às favelas do Rio, estamos mostrando ao mundo que o turismo pode ser uma ferramenta de combate à desigualdade e de preservação de identidades.
Nós mostramos que é possível gerar lucro sem destruir o patrimônio ; ao contrário, valorizando-o. O Brasil hoje diz para o mundo que a diversidade é o nosso maior ativo econômico.
O mundo aprende conosco que o turismo do futuro é aquele que respeita o território e coloca o ser humano no centro.
E tem um dado que é política pública na prática: 97% das empresas do turismo no Brasil são micro e pequenas, a maioria lideradas por mulheres. Isso significa que, quando o turismo cresce, ele tende a espalhar renda e oportunidade, desde que a gente organize a oferta, qualifique e descentralize o fluxo, como já estamos fazendo.
Acabou de acontecer a Feira Internacional de Turismo (FITUR), em Madri, qual balanço da participação brasileira?
A nossa participação na Fitur foi muito importante. Com a Europa respondendo por 21,79% do fluxo de turistas que chegam ao Brasil, faz sentido estratégico estar em Madri disputando mercado e conectividade. Do ponto de vista prático, o Brasil levou um estande que traduz essa narrativa de diversidade, com 30 coexpositores e participação ampliada de destinos e estados, o que ajuda a vender Brasil para além do óbvio e distribuir melhor o fluxo.
E saímos com entregas objetivas: por exemplo, a assinatura de parceria com o CVC Conectaas para aumentar presença na prateleira internacional de novos destinos e apoiar captação de voos fretados, que é exatamente o tipo de ação que transforma a feira em resultado. Além disso, a agenda em Madri reforçou novas frentes de promoção, como turismo audiovisual, com articulação internacional com o Banco CAF, de desenvolvimento da América Latina.
Também destacamos a conectividade, com novas rotas da Iberia para Recife e Fortaleza. Tivemos agendas intensas com operadores, companhias aéreas, investidores e trade europeu, que vão se desdobrar em novos acordos comerciais e mais turistas para o país.
Estamos às vésperas do Carnaval. No Rio, a Embratur, em parceria com a Liesa, tem apoiado os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial. Como avalia o retorno desse investimento nos últimos anos?
O apoio da Embratur, em conjunto com o Ministério da Cultura, ao Carnaval do Rio, formalizado recentemente com R$ 12 milhões para as 12 escolas do Grupo Especial, representa a manutenção do apoio do Governo Federal ao carnaval do Rio, nos mesmos valores praticados em 2025.
É um investimento estratégico com retorno comprovado e multiplicador. O Carnaval é uma das maiores vitrines culturais e turísticas do Brasil para o mundo: transmissão global para milhões de espectadores em mais de 160 países. Fortalece a imagem do Brasil como destino criativo, diverso, inclusivo e vibrante, impulsionando o fluxo turístico durante e após a festa.
As projeções indicam crescimento para o período de folia em 2026 de quase 10%, com o Rio movimentando mais de R$ 5,7 bilhões durante o Carnaval. Isso significa geração de empregos temporários em dezenas de milhares e impacto econômico direto em atividades das mais variadas, entre hospedagem, gastronomia, transportes, ambulantes e artesanato.
Socialmente, estamos valorizando a cultura popular e as comunidades das escolas de samba, que são espaços de inclusão, educação e geração de renda ao longo do ano. Ao investir no Carnaval, a Embratur está investindo na economia da cultura, que é inclusiva e gera renda na ponta, para quem mais precisa. O Carnaval é o Brasil que dá certo, e o turista estrangeiro vem para testemunhar essa potência.
Editado por: Vivian Virissimo
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