O movimento para as midterms ainda está longe de representar um rompimento com Trump, que continua sendo a principal figura do Partido Republicano
Isabella Menon-washington, Eua (folhapress) - 05/10/2026 07:16:08 | Foto: Fotos Públicas - @whitehouse
A pouco mais de um mês das eleições legislativas dos Estados Unidos, candidatos republicanos em algumas das disputas mais competitivas do país começaram a abrir distância do presidente Donald Trump em temas como a guerra no Irã, as tarifas comerciais e a expansão de data centers.
O movimento para as midterms ainda está longe de representar um rompimento com Trump, que continua sendo a principal figura do Partido Republicano. Em muitos casos, os mesmos candidatos que agora divergem do presidente continuam a apoiá-lo em outras áreas e evitam confrontá-lo diretamente, mas as diferenças mostram como a proximidade com a Casa Branca passou a exigir ajustes.
A mudança é particularmente visível em relação à guerra no Irã. Mike Rogers, candidato republicano ao Senado por Michigan, e Ashley Hinson, que disputa uma vaga por Iowa, passaram neste mês a defender um encerramento rápido do conflito depois de anteriormente terem apoiado a condução da guerra pelo governo Trump.
Rogers afirmou em um anúncio de campanha que o confronto no país persa precisava acabar rapidamente. Hinson também passou a defender o fim da guerra e associou a questão ao impacto dos preços dos combustíveis sobre seus eleitores.
As divergências surgem em meio à crescente preocupação republicana com o custo político da guerra. Segundo o jornal Washington Post, embora Trump sustente publicamente que as eleições de meio de mandato não influenciam suas decisões sobre o Irã e defenda que o conflito valeu seus custos, em conversas privadas com assessores ele reconheceu que suas próprias decisões sobre a guerra contribuíram para piorar o ambiente eleitoral para o partido.
De acordo com o jornal, quatro pessoas a par das conversas disseram que Trump passou a ouvir com atenção pesquisas desfavoráveis e demonstrou maior preocupação em ajudar os republicanos a reduzir possíveis perdas em novembro.
A guerra também se tornou um ponto de tensão no Congresso. Na Câmara, sete republicanos votaram neste mês ao lado dos democratas em uma medida destinada a limitar a continuação do conflito. Entre eles estavam parlamentares de distritos competitivos, como Zach Nunn e Mariannette Miller-Meeks, de Iowa.
Para Robert Shapiro, professor de Ciência Política e da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos da Universidade Columbia, a tentativa de candidatos de tornar suas disputas mais locais e diminuir a associação com um presidente percebido como politicamente vulnerável é uma estratégia conhecida em eleições de meio de mandato.
O que chama atenção agora, segundo ele, é quem está recorrendo a ela. "É impressionante que estejam fazendo isso candidatos que apoiaram o presidente Trump de forma vocal e praticamente em bloco", disse Shapiro à Folha.
O equilíbrio é delicado porque Trump continua exercendo forte influência sobre o Partido Republicano e sobre suas eleições primárias. Para Shapiro, candidatos que rompem de maneira mais aberta com o presidente também precisam considerar a possibilidade de enfrentar no futuro um adversário apoiado por ele dentro do próprio partido.
A necessidade de adaptação aparece também relacionada à polêmica em torno de data centers. A expansão acelerada das instalações que sustentam serviços de inteligência artificial elevou a demanda por eletricidade em diversas regiões e provocou resistência de moradores preocupados com contas de energia, infraestrutura e uso de recursos locais.
Em Ohio, o senador republicano Jon Husted transformou a questão em uma das bandeiras de sua campanha. Ele apresentou uma proposta para impedir que famílias e pequenos negócios arquem com os custos da nova infraestrutura elétrica necessária para atender grandes consumidores de energia, como os data centers.
A posição permite a Husted marcar distância da defesa enfática feita por Trump da expansão dessas instalações. O republicano tenta conciliar o apoio ao desenvolvimento da IA com a defesa de que o custo da infraestrutura necessária não recaia sobre os consumidores.
As diferenças aparecem ainda na política comercial. No Maine, a senadora Susan Collins, uma das republicanas historicamente mais dispostas a divergir de Trump, intensificou as críticas às tarifas adotadas pelo presidente, especialmente aos efeitos sobre o comércio com o Canadá, que tem peso importante na economia do estado.
Para Shapiro, esse tipo de divergência seletiva pode ser politicamente viável justamente porque os candidatos conseguem apresentá-la como necessária para o partido. "Eles podem justificar isso como algo que permite que sejam eleitos como republicanos, que é o que Trump e o partido querem", afirmou.
Segundo o professor, os candidatos podem continuar enfatizando os temas em que concordam com Trump e com o partido, enquanto usam as divergências para tentar ampliar seu alcance entre independentes e moderados.
"Esse distanciamento pode protegê-los da sombra projetada por Trump e permitir que se concentrem em seus pontos fortes e, especialmente, nas fraquezas e falhas de seus adversários democratas", disse.
A calibragem aparece num momento em que o próprio Trump intensifica sua participação na campanha. O presidente anunciou que pretende viajar pelo país para apoiar candidatos republicanos, numa eleição que decidirá o controle da Câmara e do Senado durante os dois últimos anos de seu mandato.
Também na tentativa de preservar a maioria no Congresso, o Partido Republicano realizou neste mês, no Texas, sua primeira convenção nacional voltada especificamente para as eleições de meio de mandato, com a participação de Trump e do vice-presidente J.D. Vance. No evento, Trump voltou a defender a guerra no Irã e pediu aos apoiadores que votassem como se seu próprio nome estivesse nas urnas.
O esforço ocorre diante de uma tendência histórica desfavorável ao partido que controla a Casa Branca: as midterms frequentemente resultam em perda de cadeiras para o partido do presidente.
Para Shapiro, é justamente o peso que Trump ainda exerce dentro do partido que estabelece os limites desse distanciamento. "Finalmente vemos, dentro do Partido Republicano, candidatos que precisam se distanciar de Trump e, ao mesmo tempo, evitar irritá-
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