Caracas vive dividida entre normalidade e vidas arruinadas por terremoto
Gustavo Zeitel-são Paulo, Sp (folhapress) - 08/07/2026 11:30:33 | Foto: Reprodução Agência UNICEF
Diversas entidades iniciaram no Brasil campanhas de doações ao povo venezuelano, que enfrenta as consequências de dois terremotos. Segundo balanço oficial divulgado neste sábado (4), 2.954 pessoas morreram e mais de 16 mil ficaram feridas.
Há ainda quase 13 mil afetados e 50 mil desaparecidos, afirmou o chefe de ajuda humanitária da ONU.
As doações podem ser realizadas online para entidades como Acnur (braço da ONU para refugiados), Cruz Vermelha, Unicef (fundo das Nações Unidas para a infância) e Cáritas. As campanhas em solidariedade à Venezuela estão em destaque em seus respectivos sites (veja detalhes abaixo).
O Unicef destaca a vulnerabilidade das crianças no atual contexto. Segundo o órgão, 680 mil precisam de assistência humanitária na Venezuela neste momento. Em um texto, a entidade diz que as crianças perdem a estabilidade necessária ao desenvolvimento quando eventos de tal ordem acontecem.
A Cruz Vermelha emitiu comunicado à imprensa, lembrando que os terremotos deixaram milhares de cidadãos venezuelanos sem água potável, alimentação ou atendimento à saúde.
Além da campanha de arrecadação, a entidade promove agora o serviço intitulado "Reestabelecimento de Laços Familiares", que auxilia as pessoas a retomarem o contato com familiares separados por causa de desastres. Os necessitados devem enviar email para rlf@cruzvermelhasp.org.br .
A Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), por sua vez, pede atenção aos refugiados e lembra que os venezuelanos já estavam vivendo uma crise social.
A Cáritas, ligada à Igreja Católica, adotou o mote "SOS Venezuela: Solidariedade e Fraternidade". A instituição incentiva as doações tomando por base trecho da primeira encíclica do Papa Leão 14: "Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos."
A seguir, saiba detalhes para aderir no Brasil às campanhas de doação à população da Venezuela.
CÁRITAS
Doações podem ser feitas em dinheiro para a conta da entidade no Banco do Brasil:
PIX: doe@caritas.org.br
Agência: 452-9
Conta Corrente: 53.377-7
CRUZ VERMELHA
Doações podem ser feitas pelo link: https://paybox.doare.org/paybox?payboxId=feda1375-7726-4bb0-bd3b-c6b55fc5f4c5
Acnur
Doação diretamente na página da entidade: https://www.acnur.org/br/
Unicef
Doação diretamente na página da entidade: https://www.unicef.org/brazil/
Brasil envia seis toneladas de vacinas, medicamentos e insumos à Venezuela
LUÍSA MARTINS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Brasil enviou neste sábado (4) à Venezuela uma carga de seis toneladas de vacinas, medicamentos e insumos. Já são 2.954 mortos e 16.592 feridos após os terremotos que devastaram regiões do país, especialmente o estado de La Guaira.
De acordo com o governo brasileiro, a manutenção da vacinação durante desastres contribui para prevenir a disseminação de doenças e reduzir o risco de óbitos. O carregamento contém 250 mil doses de vacina antirrábica canina e 10 mil doses de imunizantes contra a febre amarela.
A ajuda humanitária partiu às 18h do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, em um voo da Gol. O processo foi coordenado pela ABC (Agência Brasileira de Cooperação), ligada ao Palácio do Itamaraty. A Presidência da República destaca que as doses não comprometem os estoques nacionais.
Além das vacinas, foram encaminhados medicamentos doados pelo laboratório Eurofarma e 17 volumes de equipamentos e materiais laboratoriais destinados ao Hospital de Campanha da Manha do Brasil que opera em La Guaira.
O balneário, que fica a 40 km de Caracas, é o marco zero dos terremotos que reduziram prédios inteiros a pó. Muitos dos afetados –mais de 16 mil pessoas perderam suas casas– ficaram na rua ou em refúgios precários instalados em parques. A ONU estima 50 mil desaparecidos.
Caracas também foi impactada pelos tremores, com o colapso de prédios, embora longe do nível de devastação de La Guaira. A zona mais afetada da capital venezuelana foi a região de Chacao, especialmente os bairros de classe média alta de Los Palos Grandes e Altamira.
Parte dos venezuelanos critica a resposta da ditadura venezuelana, considerada lenta e insuficiente. A líder interina Delcy Rodríguez, por sua vez, vem defendendo a atuação das autoridades e afirma que as operações de busca e resgate continuam em andamento.
Ela rebateu críticas à resposta à catástrofe e acusou, sem apresentar provas, "laboratórios midiáticos" de tentar dificultar o trabalho das equipes de emergência.
Na segunda (29), o coordenador humanitário da ONU na Venezuela disse que o órgão estava comprando 10 mil sacos para armazenamento de cadáveres, o que indica que o número de mortes deverá crescer.
Diante da dimensão da tragédia, o Programa Mundial de Alimentos da ONU pediu à comunidade internacional US$ 50 milhões (R$ 260 milhões) para prestar assistência a cerca de 500 mil pessoas pelos próximos três meses.
Os terremotos agravaram uma crise humanitária que já era severa. Antes do desastre, a ONU estimava que quase 8 milhões de venezuelanos precisavam de algum tipo de ajuda humanitária.
Segundo a ONU, 27 países enviaram equipes especializadas e cães farejadores para auxiliar nas buscas por sobreviventes entre os escombros.
O Brasil já havia enviado quatro voos de ajuda humanitária à Venezuela, segundo o Ministério das Relações Exteriores.
Sobe para 2.954 o número de mortos em terremotos na Venezuela
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O governo da Venezuela confirmou neste sábado (4) que o número de mortos nos terremotos de 24 de junho subiu para 2.954.
Os dois terremotos deixaram 2.954 mortos e 16.592 feridos, segundo o balanço mais recente divulgado pelo governo. As autoridades também informaram que mais de 16 mil pessoas perderam suas casas após os tremores.
Os abalos tiveram magnitudes 7,2 e 7,5 e atingiram o país em 24 de junho. O estado de La Guaira, no norte, foi o mais devastado, e o governo registrou 856 prédios afetados.
Entre os imóveis danificados, parte das estruturas sofreu colapso total, o que dificultou o resgate. No balanço anterior, divulgado na quinta-feira (2), o número de mortos estava em 2.645.
Famílias cobram agilidade na busca e na identificação
Nove dias após os tremores, equipes de resgate começaram a encerrar as operações de busca por sobreviventes. Familiares passaram a cobrar mais rapidez na recuperação e na identificação dos corpos.
Um necrotério improvisado passou a funcionar ao ar livre no porto de La Guaira. No local, familiares formam filas para receber os corpos e as certidões de óbito.
Como foram os tremores
O primeiro terremoto, de magnitude 7,2, atingiu San Felipe, a oeste de Caracas, e foi seguido por um segundo abalo 39 segundos depois. O segundo tremor teve magnitude 7,5, ocorreu a uma profundidade relativamente rasa e foi sentido até no norte do Brasil.
O primeiro abalo já havia enfraquecido estruturas, e o segundo provocou desabamentos imediatos, inclusive em Caracas. Os terremotos tiveram menos de um minuto de intervalo, o que ampliou o impacto sobre prédios e fundações.
Caracas vive dividida entre normalidade e vidas arruinadas por terremoto
CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) - À primeira vista, Caracas, a capital da Venezuela localizada entre as montanhas e transformada nos anos 1950 em uma metrópole, opera em normalidade. Não há desabastecimento. Transporte e comércios funcionam como antes. O sinal de internet foi restabelecido.
Mas há pontos onde o impacto brutal dos terremotos que atingiram o país no último dia 24 ficam visíveis, e as vidas impactadas pela tragédia ocupam a capital. Há milhares de pessoas desalojadas pelos tremores morando em parques e nas ruas.
A placa diz: camping. Mas o acampamento no extenso Parque del Este, com 82 hectares e projetado pelo artista e paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, virou abrigo para os que perderam suas casas ou parte delas em Caracas.
Ainda nesta sexta (3), ao redor de 2.000 pessoas, entre elas 300 crianças e adolescentes, ainda moravam ali. Recebiam comida, roupas e atendimento de saúde. Há uma clínica móvel prestando atendimento e exames variados -entre eles, o oftalmológico, para os que perderam seus óculos nos terremotos.
O que não há é uma data para voltar à normalidade. "O que precisamos agora é uma casa", diz Kimberlly Paola Torres López, 19, da região caraquenha de El Junquito, enquanto nina a bebê Valentina, filha de uma mulher que está vivendo na barraca ao lado.
As paredes da casa de Kimberlly caíram. Ela, seu bebê de 8 meses e sua mãe conseguiram sair a tempo. "Já recolheram todos os nossos dados, mas ainda não sabemos de nada."
As famílias foram desalojadas pelo impacto dos terremotos em Caracas e correram para o parque, onde receberam barracas para morar. Muitas estão ali há nove dias. Outras demoraram a chegar e foram para o Parque del Este depois de ouvir no boca a boca que havia famílias morando ali.
A zona mais afetada da capital venezuelana foi a região de Chacao, especialmente os bairros de classe média alta de Los Palos Grandes e Altamira, zonas de maior atividade sísmica. Três edifícios colapsaram. Ao menos 62 pessoas morreram na região, e 28 foram resgatadas vivas, segundo as autoridades locais.
As brigadas de ajuda internacional enviadas ao país com socorristas (como as de Brasil, Chile, El Salvador, Costa Rica e de mais dezenas de países) não atuam na capital, onde os trabalhos são feitos por equipes locais, dado o menor volume de destruição. Essas equipes estão concentradas em La Guaira.
É um cenário de impacto, claro, mas muito distante do encontrado em La Guaira, a "praia dos caraquenhos", a região mais afetada pelos terremotos. Ali, a cifra de mortos é de milhares; a de desaparecidos, de dezenas de milhares. Os dados mais atualizados a nível nacional contabilizam 2.645 mortos.
Cartazes de desaparecidos, mesmo os de La Guaira, estampam algumas das paredes de Caracas. Familiares colam fotos com seus números de contato ou mesmo as cédulas de identidade dos desaparecidos, para o caso de eles serem identificados vivos em algum dos parques de Caracas.
As pessoas não param de chegar para fixar mais cartazes de busca no chamado "Muro da Esperança". Desde o dia após o terremoto, no entanto, nenhuma das pessoas buscadas naquele mural foi encontrada, diz a responsável por atender à imprensa no local.
Muitos ali no parque são crianças. E o tema da infância tem despertado preocupação. O regime liderado por Delcy Rodríguez não diz quantos dos desaparecidos são crianças, e tampouco diz à reportagem quantos menores de idade estão órfãos após os terremotos, ainda que diga que este é um número baixo.
A reportagem foi informada que, somente em Caracas, quatro menores de idade estariam sob custódia do Estado após terem perdido seus responsáveis diretos nos terremotos e ainda não terem sido reunidos com nenhum outro familiar. Esse número, porém, tende a ser muito superior em La Guaira, onde milhares ainda são buscados sob os escombros. Mas a cifra é desconhecida.
Na capital, orfanatos se organizam para acolher essas crianças, mesmo que ainda não tenham sido informados de quantas elas são e de onde estão.
Alguns foram reprimidos pela ditadura por estarem fazendo campanhas online para pedir doações que lhes permitissem comprar mais colchões e outros itens de necessidade dos órfãos. Outros foram reprimidos por terem feito campanhas para encontrar crianças que supostamente teriam sido resgatadas dos escombros, mas que nunca foram entregues a seus pais.
As estatísticas oficiais dizem que há 15 mil pessoas sem moradia no país; a ONU estimou que são mais de 50 mil. Além das que de fato viram suas casas ruirem, porém, há aquelas que tiveram a estrutura de seus lares comprometida, como com profundas rachaduras, e temem voltar aos imóveis.
Até aqui houve mais de 800 réplicas dos terremotos gêmeos do último dia 24, nenhuma delas com intensidade semelhante à daqueles tremores. Mas os tremores secundários assustam às pessoas. O impacto não somente físico e financeiro, mas também psicológico, ainda não tem prazo para acabar
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