Saiba como criminosos conseguem alterar o Imei de celulares bloqueados

Trocafone, gigante de celulares usados, é investigada em operação que mira caminho de aparelhos roubados

Saiba como criminosos conseguem alterar o Imei de celulares bloqueados
Saiba como criminosos conseguem alterar o Imei de celulares bloqueados

Bárbara Sá-são Paulo, Sp (folhapress) - 12/09/2026 18:39:51 | Foto: Após megaoperação contra celulares roubados, saiba como se proteger - Divulgação

O número que funciona como o "chassi" do celular pode ser adulterado para liberar aparelhos roubados ou furtados. A alteração do Imei (International Mobile Equipment Identity) envolve técnicas de software ou intervenções físicas para fazer o telefone apresentar outra identificação às redes de telefonia.

A adulteração é uma das etapas identificadas pelo Ministério Público de São Paulo na cadeia do mercado ilegal de celulares desmontada pela operação Frankmobile, nesta quinta-feira (10).

A investigação identificou quatro núcleos, responsáveis pela subtração dos aparelhos, desbloqueio e acesso a dados das vítimas, adulteração e revenda, além do desmonte para comercialização de peças.

Quando o aparelho roubado chega à cadeia de receptação, é avaliado quanto ao modelo, bloqueio de tela, conta vinculada e restrição do Imei. A quadrilha tenta remover as barreiras que impedem o uso do telefone, como o vínculo com a conta da vítima. Não é uma operação simples.

Se o Imei estiver bloqueado, os criminosos tentam adulterar a identidade do aparelho. Na alteração por software, os criminosos usam equipamentos de manutenção conhecidos como "boxes" ou "dongles".

Conectados ao computador e ao telefone, esses dispositivos usam programas específicos para invadir e reescrever áreas protegidas da memória do celular, chamadas de partições NVRAM ou NVDATA, onde ficam gravados os dados do modem e o código de fábrica.

Já a alteração por hardware exige bancadas com solda de precisão. Os técnicos removem e trocam os chips de memória e processamento que guardam a identidade do telefone, ou substituem a placa-mãe inteira por outra retirada de um celular sem registro de roubo. Trocar apenas tela ou bateria não altera o Imei.

"Dá para fazer uma analogia com o carro: em alguns casos, tenta-se adulterar a gravação do chassi e, em outros, troca-se uma parte estrutural do veículo que carrega essa identificação", explica Pedro Tavares, diretor de Produtos e Dados da CertiFace.

Quando a placa principal é trocada, o telefone passa a carregar os dados da nova peça, embora tela, câmeras e carcaça continuem sendo do aparelho roubado.

A alteração tenta fazer o aparelho se apresentar à rede com um identificador diferente daquele registrado como roubado ou furtado. "É como se um carro passasse a circular com outro número de chassi: o bloqueio automático pode deixar de funcionar", diz. A mudança, porém, não elimina necessariamente outros elementos de identificação.

"Dependendo do modelo, há número de série, dados de eSIM, registros de fabricação e ativação, informações dos componentes e dados mantidos por fabricantes e operadoras", diz Tavares. A perícia pode cruzar essas informações e encontrar incompatibilidades que indiquem adulteração.

A cadeia ilegal pode continuar mesmo quando o celular está bloqueado. O desmonte permite vender componentes, alguns dos quais podem manter números de série ou outros registros.

O promotor de Justiça Luiz Fernando Bugiga Rebellato, do Gaeco, afirmou que essa possibilidade faz parte da investigação. "Esse mercado de peças originais oriundas de outros aparelhos também é uma hipótese nossa de que são trazidos de aparelhos furtados ou roubados."
Bugiga citou conversas apreendidas na investigação em que um dos alvos afirma: "Ah, tá bloqueado, eu uso para remoção, para uso para peças".

A Polícia Civil vai cruzar os dados dos aparelhos apreendidos com registros de ocorrências para identificar os proprietários. Vítimas que tenham o Imei do celular roubado ou furtado poderão acompanhar as orientações da polícia para verificar se o equipamento está entre os recuperados e reaver o aparelho.

O QUE FAZER SE FOR VÍTIMA
O intervalo entre o furto ou roubo e o bloqueio faz diferença, já que o celular concentra email, mensagens, redes sociais, bancos e mecanismos de recuperação de senhas. Se o criminoso conseguir acessar o aparelho ou obtiver a senha, pode tentar entrar nessas contas.

A orientação é bloquear rapidamente aparelho e linha, avisar os bancos, proteger as contas, usar recursos como o Celular Seguro e registrar a ocorrência.

Na compra de aparelhos usados, Tavares recomenda consultar o Imei em bases oficiais, comparar os identificadores do telefone com a documentação, exigir nota fiscal e verificar a procedência do vendedor. Uma consulta sem restrição, isoladamente, não garante que o equipamento seja regular.

Operação de combate a roubo de celular em SP teve cães farejadores, campanas e perícias digitais

ALEXA SALOMÃO-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cães que farejam celulares, agentes de inteligência misturados a frequentadores de shopping, câmeras capazes de reconstruir a circulação de veículos, perícia em rastros digitais deixados por programas de desbloqueio de aparelhos. A operação Frankmobile, a maior já realizada para desarticular a cadeia de roubo de celulares em São Paulo, realizada nesta quinta-feira (10), combinou tudo isso -técnicas tradicionais, como a campana, ferramentas tecnológicas e cruzamento de dados fiscais e financeiros.

Essa estratégia diversificada foi montada para enfrentar uma característica própria da estrutura criminosa criada para esse tipo de aparelho: a pulverização. Depois de arrancados das mãos de seus donos nas ruas, os celulares eram espalhados por boxes, depósitos, hotéis, cortiços e apartamentos em diferentes pontos na região central da capital paulista, inteiros ou em partes.

"As investigações foram montando um quebra-cabeça até chegar à operação", afirma o promotor de Justiça Luiz Fernando Bugiga, membro do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público.

Os cães farejadores, por exemplo, foram decisivos na etapa final, quando a Frankmobile foi deflagrada. Atuaram para orientar as equipes durante as buscas em imóveis multifamiliares na região da rua Guaianases.

Em vez de pedir um mandado coletivo de busca e apreensão para vasculhar indiscriminadamente um prédio inteiro, os cães foram destacados para indicar os cômodos que concentravam aparelhos.

"A rua Guaianases já foi chamada de 'ninho do celular' por conta das dificuldades que enfrentamos. A gente sabe o identificador, sabe qual é o prédio, mas não sabe qual é o apartamento. Cães farejadores permitiram uma individualização no local para que a gente pudesse entrar nos apartamentos", explica Bugiga.

No momento, nove cães, das raças pastor malinois e alemão, atuam na localização de dispositivos eletrônicos. Um farejador não pode ter medo de ambientes escuros, escorregadios, e precisa ser sociável, porque circula em locais com muitas pessoas.

Esses cães integram o efetivo da Polícia Penal paulista e são treinados por profissionais da Secretaria da Administração Penitenciária para identificar os odores dos componentes. O primeiro deles foi a campo em 2010 e localizou 13 aparelhos no anexo de progressão da Penitenciária de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

NO RASTRO DOS EQUIPAMENTOS
Para chegar a essa fase final, os investigadores tiveram que traçar o caminho percorrido pelos aparelhos desde o roubo ou furto até sua reinserção no mercado. O trabalho para fazer esse rastreamento durou dois anos e passou por três ambientes diferentes –a rua, os computadores e as bases de dados públicas e financeiras.

A rotina descrita nos documentos da operação lembra filmes policiais. Para entender o que acontecia dentro dos estabelecimentos, agentes de inteligência trabalharam descaracterizados e permaneceram por longos períodos nos locais.

A observação discreta, associada a medidas autorizadas judicialmente, permitiu mapear a rotina dos pequenos espaços usados para desbloquear aparelhos.

Não bastava circular. Era preciso driblar a contravigilância montada pelos suspeitos. Nas diligências, agentes identificaram a presença de olheiros nas calçadas da Guaianases e nos corredores do Shopping Mundo Oriental.

Segundo a apuração, esses vigias observavam a circulação de pessoas e procuravam identificar policiais ou movimentos considerados suspeitos.

Nessas campanas, cenas aparentemente banais ganharam importância quando combinadas com outros dados. Na rua Hípias, agentes acompanharam um depósito que permanecia fechado enquanto caixas com peças de celulares eram descarregadas e entregues no chão da calçada, sem que terceiros tivessem acesso visual ao interior.

Na rua dos Gusmões, chamou a atenção dos investigadores o movimento de carregadores de mercadorias em um imóvel residencial. A consulta aos registros empresariais trouxe outro dado: um único andar, com 134 metros quadrados, concentrava formalmente 24 empresas ligadas ao comércio de eletrônicos.

As etapas prévias da investigação levaram à Operação Salus et Dignitas em 2024. As buscas pontuais em alvos específicos permitiu a apreensão de notebooks, computadores e celulares que cimentaram o caminho para a Frankmobile ao avançar a investigação pelo mundo digital.

Computadores apreendidos continham programas usados para realizar diferentes intervenções em celulares. Com uma ferramenta forense chamada IPED, os peritos recuperaram arquivos de log produzidos pelos programas.

Os registros funcionaram como uma espécie de diário involuntário do trabalho realizado nas máquinas: preservavam informações como data, horário, modelo do aparelho e, em determinados casos, o IMEI –número único de identificação do celular. Isso permitiu aos investigadores confrontar aparelhos manipulados nos computadores com registros de celulares roubados ou furtados.

Outro recurso foi o monitoramento de veículos por sistemas de leitura automática de placas. O procedimento foi usado para reconstruir os deslocamentos de um empresário investigado de Goiânia, estendendo o monitoramento para fora de São Paulo.

O Ford EcoSport do suspeito apareceu registrado em dias consecutivos na região da rua Santa Ifigênia. Para os investigadores, a sequência ajudou a demonstrar que sua ligação com o comércio paulista não se restringiria a operações financeiras feitas à distância.

A investigação ganhou uma terceira camada quando os dados obtidos nas ruas e nos equipamentos eletrônicos foram confrontados com informações fiscais e financeiras.

O Gaeco recorreu a dados da Sefaz-SP (Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo) e a relatórios de inteligência financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para comparar mercadorias, notas fiscais e movimentações de dinheiro.

Entre as inconsistências identificadas está o caso de uma empresa que teria vendido mais de 750 mil celulares sem que fossem encontradas notas fiscais de entrada correspondentes aos IMEIs dos aparelhos.

Os investigadores também identificaram suspeitas de emissão de notas fiscais sem correspondência com operações reais. Em um dos mecanismos descritos na apuração, o emissor ficaria com uma comissão equivalente a 3% do valor documentado.

Rompida a estrutura econômica e financeira do comércio ilegal, a expectativa agora é que ocorra uma redução nos roubos e furtos de celulares -e haja muito trabalho pela frente, dado o volume de apreensões.

Trocafone, gigante de celulares usados, é investigada em operação que mira caminho de aparelhos roubados

ANDRÉ FLEURY MORAES-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operação do Ministério Público de São Paulo contra a logística do furto e roubo de celulares na capital paulista, deflagrada nesta quinta-feira (10), atingiu empresas conhecidas pela revenda de celulares usados. A principal delas foi a Trocafone, portal de vendas online com mais de dez anos de atuação.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) diz que a Trocafone ocupava o "topo na cadeia de comercialização" e era o "nó financeiro central" de toda a rede supostamente criminosa. O modelo da empresa -comprar usados e depois revendê-los– serviria para dar aparência legal aos aparelhos roubados ou furtados de vítimas, conforme a Promotoria.

A empresa afirmou nesta quarta, horas após a operação, que "não apenas repudia a comercialização de aparelhos de origem ilícita como tem total interesse e apoia o combate de tal prática, uma vez que prejudica o mercado de recondicionamento de aparelhos".

O estabelecimento disse que "possui rigorosos procedimentos destinados a impedir que equipamentos com indícios de irregularidade entrem na operação da mesma [empresa], incluindo diversas checagens para identificação de aparelhos com bloqueios (IMEIs) com processos de separação e colaboração com as autoridades".

Com 242 mil seguidores no Instagram, a empresa diz em seu site institucional já ter negociado 2,7 milhões de aparelhos recondicionados -usados que passam por processos de restauração– e diz que seu objetivo é "gerar impacto no dia a dia das pessoas, oferecendo a você uma alternativa mais acessível de se conectar com o mundo".

A suspeita mais grave, na avaliação dos promotores, vem de um relatório da Fazenda de São Paulo que analisou o IMEI, número de fábrica de todo celular e semelhante a um chassi de carro, das compras e vendas da plataforma.

O cruzamento das notas de entrada e de saída, segundo o Gaeco, constatou 759,3 mil celulares cujos códigos não apareciam em nenhuma nota de compra. Na prática, o Ministério Público diz que houve uma entrada massiva de "aparelhos de origem furtiva ou roubada" oriundos de outros grupos investigados no caso.

Não foi a primeira vez que o nome da Trocafone apareceu em investigações.

De 2018 a 2024, segundo o Gaeco, a empresa foi citada em 18 relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam para operações suspeitas. Os valores chegam a R$ 95,8 milhões.

Entre as atividades atípicas estão 1.299 depósitos fracionados, todos abaixo de R$ 10 mil, padrão típico da prática de lavagem de dinheiro segundo o Ministério Público.

A Trocafone declarou ter entregue "toda a documentação e informações solicitadas até o momento" e que "também está analisando, juntamente com seus assessores jurídicos, os documentos relacionados ao caso".

O Gaeco diz que um gerente de operações da empresa contribuiu com as investigações num depoimento prestado em 2024. Segundo a Promotoria, o profissional afirmou em depoimento que peças de celulares de origem ilícita eram reaproveitadas no recondicionamento desde 2014.

Além das buscas, o MP pediu à Justiça o bloqueio de até R$ 95,8 milhões da Trocafone e de outras empresas envolvidas no caso além da suspensão de suas atividades no âmbito da Receita Federal.

Batizada de Frankmobile, a operação é resultado de cerca de dois anos de investigação do Gaeco. A ação cumpre 84 mandados de busca e apreensão e sete de prisão temporária em São Paulo e também no estado de Goiás. A Justiça ainda autorizou sequestro e bloqueio de mais de R$ 5 milhões dos alvos.

Trocafone, gigante de celulares usados, é investigada em operação que mira caminho de aparelhos roubados

ANDRÉ FLEURY MORAES-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operação do Ministério Público de São Paulo contra a logística do furto e roubo de celulares na capital paulista, deflagrada nesta quinta-feira (10), atingiu empresas conhecidas pela revenda de celulares usados. A principal delas foi a Trocafone, portal de vendas online com mais de dez anos de atuação.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) diz que a Trocafone ocupava o "topo na cadeia de comercialização" e era o "nó financeiro central" de toda a rede supostamente criminosa. O modelo da empresa -comprar usados e depois revendê-los– serviria para dar aparência legal aos aparelhos roubados ou furtados de vítimas, conforme a Promotoria.

A empresa afirmou nesta quarta, horas após a operação, que "não apenas repudia a comercialização de aparelhos de origem ilícita como tem total interesse e apoia o combate de tal prática, uma vez que prejudica o mercado de recondicionamento de aparelhos".

O estabelecimento disse que "possui rigorosos procedimentos destinados a impedir que equipamentos com indícios de irregularidade entrem na operação da mesma [empresa], incluindo diversas checagens para identificação de aparelhos com bloqueios (IMEIs) com processos de separação e colaboração com as autoridades".

Com 242 mil seguidores no Instagram, a empresa diz em seu site institucional já ter negociado 2,7 milhões de aparelhos recondicionados -usados que passam por processos de restauração– e diz que seu objetivo é "gerar impacto no dia a dia das pessoas, oferecendo a você uma alternativa mais acessível de se conectar com o mundo".

A suspeita mais grave, na avaliação dos promotores, vem de um relatório da Fazenda de São Paulo que analisou o IMEI, número de fábrica de todo celular e semelhante a um chassi de carro, das compras e vendas da plataforma.

O cruzamento das notas de entrada e de saída, segundo o Gaeco, constatou 759,3 mil celulares cujos códigos não apareciam em nenhuma nota de compra. Na prática, o Ministério Público diz que houve uma entrada massiva de "aparelhos de origem furtiva ou roubada" oriundos de outros grupos investigados no caso.

Não foi a primeira vez que o nome da Trocafone apareceu em investigações.

De 2018 a 2024, segundo o Gaeco, a empresa foi citada em 18 relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam para operações suspeitas. Os valores chegam a R$ 95,8 milhões.

Entre as atividades atípicas estão 1.299 depósitos fracionados, todos abaixo de R$ 10 mil, padrão típico da prática de lavagem de dinheiro segundo o Ministério Público.

A Trocafone declarou ter entregue "toda a documentação e informações solicitadas até o momento" e que "também está analisando, juntamente com seus assessores jurídicos, os documentos relacionados ao caso".

O Gaeco diz que um gerente de operações da empresa contribuiu com as investigações num depoimento prestado em 2024. Segundo a Promotoria, o profissional afirmou em depoimento que peças de celulares de origem ilícita eram reaproveitadas no recondicionamento desde 2014.

Além das buscas, o MP pediu à Justiça o bloqueio de até R$ 95,8 milhões da Trocafone e de outras empresas envolvidas no caso além da suspensão de suas atividades no âmbito da Receita Federal.

Batizada de Frankmobile, a operação é resultado de cerca de dois anos de investigação do Gaeco. A ação cumpre 84 mandados de busca e apreensão e sete de prisão temporária em São Paulo e também no estado de Goiás. A Justiça ainda autorizou sequestro e bloqueio de mais de R$ 5 milhões dos alvos.

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