Mesmo com acordo judicial, retirada de rejeitos não chega a 20% e impactos ambientais e à saúde persistem
Portal Bdf - 25/01/2026 18:22:13 | Foto: Divulgação Lucas Hallel - BdF
Cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de rejeitos de mineração foram lançados no Rio Paraopeba em janeiro de 2019.
Sete anos após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, o Rio Paraopeba segue longe de recuperar as condições ambientais anteriores ao crime socioambiental. Condenada judicialmente, a mineradora tem a obrigação de reparar os danos causados, mas o processo avança a passos lentos, enquanto rejeitos de minério permanecem no leito do rio e seguem afetando o meio ambiente e a vida das populações atingidas.
Cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de rejeitos de mineração foram lançados no Rio Paraopeba em janeiro de 2019. O Acordo Judicial de Reparação, firmado em 2021 entre a Vale e o poder público de Minas Gerais, determina a remoção integral e a destinação adequada desses rejeitos até a altura da Represa de Retiro Baixo, na divisa entre Curvelo e Pompéu, a cerca de 320 quilômetros do local do rompimento.
Na prática, no entanto, a dragagem do rio ainda está restrita a apenas três quilômetros do curso do Paraopeba, o primeiro trecho. A proposta original previa a limpeza de 54 quilômetros até 2024, meta que não foi cumprida. O trecho 2, entre três e seis quilômetros, segue em processo de licenciamento, com início da dragagem previsto apenas para maio de 2026.
Já os trechos 3 (de seis a 38 km) e 4 (de 39 a 46 km) estão em fase de definição de estratégias e metodologias, enquanto o trecho 5, a jusante da Usina Hidrelétrica de Igarapé, ainda não possui qualquer planejamento definido. Também não há previsão de dragagem do reservatório de Retiro Baixo, nem informações claras sobre o percentual de rejeitos ali depositados, aponta o relatório.
Segundo o Instituto Guaicuy, até dezembro de 2025, apenas 17% do volume estimado de rejeitos havia sido retirado da calha do rio. Paralelamente, perícias realizadas pelo Comitê Técnico-Científico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificaram concentrações de metais e metalóides acima dos níveis seguros na água superficial do Paraopeba. Na água subterrânea, foram constatadas alta turbidez, presença elevada de coliformes e de metais.
Os estudos também apontaram perda da cobertura vegetal nas áreas atingidas pela lama, além de alterações no leito do rio, que resultaram no desaparecimento de lagoas naturais e no aumento de áreas alagadas, aprofundando os danos ecológicos ao longo da bacia.
Impactos na saúde seguem alarmantes
Além da contaminação ambiental, os efeitos do desastre-crime seguem sendo sentidos na saúde das populações atingidas. Em abril de 2025, durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), foram apresentados resultados de pesquisas conduzidas pela Fiocruz Minas, em parceria com a UFRJ e com financiamento do Ministério da Saúde.
O Projeto Bruminha, que acompanha crianças de 0 a 6 anos desde 2021, identificou risco três vezes maior de alergias respiratórias em crianças expostas à poeira de resíduos da mineração. Entre 2022 e 2023, houve aumento generalizado de relatos de alterações respiratórias.
As análises também revelaram a presença de arsênio em 100% das amostras de urina das crianças avaliadas nos três primeiros anos da pesquisa. Em 2023, arsênio, chumbo e mercúrio foram detectados em todas as amostras analisadas. A concentração de arsênio acima dos valores de referência aumentou, passando de 42% das crianças em 2021 para 57% em 2023, indicando crescimento da exposição ao metal.
Entre adolescentes e adultos, a pesquisa Saúde Brumadinho apontou que 18,1% da população adulta relata diagnóstico de depressão, quase o dobro da média nacional. Sintomas depressivos e transtornos de ansiedade atingem, respectivamente, 28,2% e 19,8% dos adultos, enquanto entre adolescentes os índices são de 17,6% e 12,6%, com tendência de piora entre 2021 e 2024.
As doenças respiratórias também preocupam: 10,8% dos adultos relatam diagnóstico de asma, taxa duas vezes maior que a média brasileira. Em adolescentes, o índice chega a 13,2%.
Editado por: Elis Almeida
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