Tartaruga marcada por pesquisadores em 1988 reaparece em praia do Espírito Santo

O início do Projeto Tamar também remonta à década 1980

Tartaruga marcada por pesquisadores em 1988 reaparece em praia do Espírito Santo
Tartaruga marcada por pesquisadores em 1988 reaparece em praia do Espírito Santo

Catarina Scortecci Curitiba, Pr (folhapress) - 07/03/2026 09:54:20 | Foto: Tartaruga que desova há 37 anos na mesma praia é flagrada no Espírito Santo — Fundação Projeto Tamar

Uma tartaruga-cabeçuda que havia sido marcada pelo Projeto Tamar no final da década de 1980 foi novamente vista pelos pesquisadores na praia de Povoação, em Linhares, no Espírito Santo, durante a temporada de desova atual, que começou em setembro de 2025 e se encerra neste mês.

O flagra foi feito em 2 de dezembro de 2025 e surpreendeu quem atua no dia a dia do trabalho de marcação das fêmeas que chegam às areias para abrir ninhos e colocar seus ovos.

"A gente já tinha tido casos anteriores de 20 e poucos anos, até de 30 anos. Mas 37 é muito tempo. Não sei quanto é o maior tempo de marcação de fêmea no mundo, mas não é algo muito além disso, porque é difícil você ter programas longevos como o Tamar", diz o biólogo Alex Santos, coordenador de Pesquisa e Conservação da Fundação Projeto Tamar no Espírito Santo.

O início do Projeto Tamar também remonta à década 1980 e a tartaruga novamente vista pelos pesquisadores foi uma das primeiras que receberam a marcação -um número que fica em duas pequenas ligas de aço pregadas nas nadadeiras dianteiras.

A tartaruga reencontrada agora só tinha uma marca original, perdeu a outra. Mas o número é suficiente para que a "ficha" dela seja acessada. Na desova de 1988, ela já era um animal grande, adulto, mas a idade exata é desconhecida.

"Possivelmente não era a primeira desova dela. Então a gente diz que ela já tinha no mínimo 25 anos [início da maturidade], mas podia já ter 30, 40, quando a gente a encontrou pela primeira vez. E 25 com mais 37 anos dá lá seus 62. Pelo menos", explica Santos. "Acredita-se que as cabeçudas vivam algo em torno de 80 anos", completa.

As maiores cabeçudas chegam até 1,2 m, aproximadamente, e pesam em torno de 200 a 250 kg.

Ao longo dos 37 anos -de 1988 até 2025-, os pesquisadores a encontraram novamente sete vezes no total.

Santos afirma que a desova da cabeçuda marcada há 37 anos possivelmente está sendo feita junto com suas "netas". "Como elas entram na maturidade em torno de 20, 25 anos, a gente já está vendo uma sobreposição de gerações", destaca o pesquisador.

O ciclo de reprodução das fêmeas geralmente ocorre a cada dois anos. Em média, cada tartaruga faz cinco ninhos por temporada e cada ninho tem em torno de 120 ovos.

Da década de 1980 para cá, houve o acréscimo de algumas tecnologias pelo Projeto Tamar, como o microchip colocado em algumas tartarugas-de-couro, com a possibilidade de monitoramento via satélite, mas o especialista explica que a marca metálica continua sendo um método obrigatório.

"Se ela perder esse transmissor, o que vale é a marcação. Quando ela encalhar na praia, o que as pessoas vão ver, o que os pescadores vão ver e sinalizar é essa marquinha de aço, que é visível para todo mundo. No caso do microchip, você precisa de um leitor especializado", explica ele.

"Teve uma tartaruga-de-couro marcada aqui no Espírito Santo que encalhou na Namíbia [na África] e ela foi identificada por essa marquinha de aço, por exemplo. Então ela acaba sendo a mais efetiva ainda para esse dia a dia", lembra.

No mundo todo há 7 espécies de tartarugas-marinhas, e 5 delas frequentam a costa brasileira: além da tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-de-couro, a tartaruga-de-pente, a tartaruga-oliva e a tartaruga-verde.

A tartaruga que mais se distribui na costa brasileira é justamente a cabeçuda, que ocorre no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, na Bahia e em Sergipe. O nome científico dela é Caretta caretta, uma referência ao tamanho da sua cabeça, maior na comparação com as de outras espécies.

Segundo Santos, a cabeçuda é considerada hoje uma espécie vulnerável, mas é a tartaruga-de-couro, a mais rara de todas, que está criticamente em perigo.

O pesquisador afirma que, no Espírito Santo, os animais da espécie cabeçuda fazem em torno de 3.000 a 3.500 ninhos por temporada, enquanto as tartarugas-de-couro apenas 100 ninhos, aproximadamente, na mesma região.

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