Toffoli negou busca contra Vorcaro e recuou depois que PF apontou evidência de 'novos ilícitos'
André Borges-brasília, Df (folhapress) - 14/01/2026 15:06:59 | Foto: José Antonio Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) • Nelson Jr./SCO/STF
LUCAS MARCHESINI E ADRIANA FERNANDES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)-O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli criticou a Polícia Federal por descumprir os prazos determinados por ele na operação que investiga possíveis fraudes de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Em despacho assinado nesta terça-feira (13), ele aponta que medidas cautelares contra Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e Nelson Tanure, investidor ligado ao dono do Master, foram requeridas em 6 de janeiro e deferidas no dia seguinte.
O deferimento veio com ordem subsequente para cumprimento no prazo de 24 horas, contadas a partir das 14H52 do dia 12 de janeiro, "diante da gravidade dos fatos e necessidade de aprofundamento da investigação, com fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos", aponta a decisão do ministro.
"Causa espécie a esse relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaracterizando as provas essenciais ao deslinde da causa", prossegue o ministro.
Ele ainda destacou "a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas".
O prazo inicial dado por Toffoli expirou nessa terça-feira (13). No seu despacho, o ministro aponta que a PF representou seu gabinete por medidas urgentes às 19h13 dessa terça-feira apontando que Zettel tinha passagem comprada para Dubai. O voo seria "poucas horas antes do cumprimento das medidas judiciais determinadas".
"O embarque do investigado constitui oportunidade única a propiciar a obtenção de elementos que corroborem, ainda mais, sua participação nos delitos investigados, além da materialidade de outros delitos sobre os quais sobre ele já recaem suspeitas de autoria", prossegue o pedido da PF.
A antecipação da operação contra Zettel levou ao pedido pela PF da prisão temporária por um dia. O objetivo é impedir que ele se comunicasse com outros investigados. Para os demais alvos, a operação foi deflagrada às 6h desta quarta-feira (14).
Toffoli disse em seu despacho que a "eventual frustração do cumprimento das medidas requeridas decorre de inércia exclusiva da PF, inclusive diante de inobservância expressa e deliberada de decisão por mim proferida na data de 12 de janeiro, que determinou a deflagração da presente fase no prazo de 24 horas".
"Eventual prejuízo às demais medidas em decorrência do presente pedido são de inteira responsabilidade da autoridade policial", prosseguiu.
A operação desta quarta-feira teve 42 mandados de busca e apreensão nesta nova fase da operação, além de ordens de sequestro e bloqueio de bens no valor de R$ 5,7 bilhões.
São alvos endereços ligados a Vorcaro, a parentes dele e a empresários, incluindo João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, gestora investigada no caso Master e suspeita envolvimento com o crime organizado. Os mandados são cumpridos também em Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Toffoli negou busca contra Vorcaro e recuou depois que PF apontou evidência de 'novos ilícitos'
O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), acatou um pedido da PF (Polícia Federal) para realizar novas diligências na residência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nesta quarta-feira (14). Em sua decisão, Toffoli relata ter negado parcialmente um pedido anterior, mas que reconsiderou após novos argumentos trazidos pela PF e pela Procuradoria-Geral da República.
No despacho que autoriza as buscas contra Vorcaro, o ministro diz que mudou de ideia a partir da nova argumentação, "diante da evidência de prática de novos ilícitos, supostamente cometidos pelo investigado", conforme afirmado pela PF. A corporação também disse ser necessária a "colheita de elementos probatórios complementares".
"Diante das ponderações da Autoridade Policial e da Procuradoria-Geral da República, reconsidero, em parte, a decisão combatida, para deferir novas diligências na residência do investigado D.B.V. [Daniel Bueno Vorcaro]", afirmou Toffoli em sua decisão.
A PF sustenta o novo pedido com base na "atualização dos endereços" e no argumento de que as buscas anteriormente autorizadas teriam sido concedidas com finalidade mais restrita, enquanto a nova etapa exige a ampliação do escopo.
Em sua decisão, o ministro não deixa claro qual seria o motivo de sua rejeição inicial, mas afirma que passou a estar "ciente da informação sobre o correto endereço das pessoas em cujos domicílios serão realizadas as buscas já deferidas".
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi favorável à nova ação da PF. Ele argumentou que "a diligência de busca e apreensão realizada no âmbito da Operação Compliance Zero no endereço sob análise não abrangeu o contexto mais amplo que a apuração em espécie busca examinar, tornando-se, assim, necessário, útil e pertinente que o investigado seja alvo de busca e apreensão em referido endereço, para colheita de documentos, anotações, registros, mídias, aparelhos eletrônicos e demais dispositivos de armazenamento de dados".
Em outro despacho, Toffoli criticou a Polícia Federal e exigiu explicações em 24h do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, por não cumprir os prazos determinados por ele na segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Toffoli também determinou que todo o material apreendido seja guardado no STF e não na PF, como de praxe.
Como a Folha de S.Paulo revelou, duas empresas ligadas a parentes do ministro Dias Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Banco Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela reportagem.
O Arleen Fundo de Investimentos teve, ao menos até maio de 2025, ações da Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort em Ribeirão Claro (PR) que pertencia em parte à família de Toffoli, e também participação direta na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade que tinha como um de seus sócios um primo do ministro.
A conexão com o caso Master se dá por uma cadeia de fundos. O Arleen foi um dos cotistas do RWM Plus, que por sua vez também recebeu investimentos de fundos ligados ao Maia 95, um dos seis apontados pelo Banco Central como integrantes da suposta teia de fraudes do banco de Daniel Vorcaro. O fundo Arleen em si não é alvo de investigação.
O Arleen e todos os demais fundos da teia têm como administradora a Reag, que administrava também fundos ligados a Vorcaro e é investigada na operação Carbono Oculto, por suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).
A defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Disse que a reportagem estabelece "conexões inexistentes e distorce fatos ao sugerir vínculo entre o banco, seus executivos e investimentos mencionados".
A reportagem procurou a assessoria do STF e perguntou se Dias Toffoli tinha conhecimento dessas conexões e se ele considera que as informações criam algum empecilho para a condução do caso, mas o ministro não respondeu até a publicação desta reportagem. Parentes do ministro também não se manifestaram. A Reag não comentou o caso.
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