Toffoli descarta abandonar relatoria da investigação do Banco Master
André Borges-brasília, Df (folhapress) - 20/01/2026 10:40:55 | Foto: José Antonio Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) • Nelson Jr./SCO/STF
LUÍSA MARTINS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Apesar das críticas que tem sofrido pela sua atuação no caso do Banco Master, inclusive de colegas de corte, o ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), descarta abandonar a relatoria das investigações sobre as fraudes financeiras.
A interlocutores, Toffoli afirmou que não existe razão para abdicar do processo, pois não se enquadra nas hipóteses objetivas de impedimento previstas em lei, nem tem qualquer motivo de foro íntimo para se declarar suspeito.
O Código de Processo Penal prevê que o juiz está impedido de atuar nas ações em que seu cônjuge ou parente tenha participado; em que ele próprio tenha atuado no passado (como advogado ou juiz de instância inferior); ou em que ele ou seus familiares forem "diretamente interessados".
Já a suspeição tem caráter subjetivo e diz respeito a situações, por exemplo, em que o ministro é amigo íntimo das partes ou dos advogados, recebe presentes de pessoas interessadas na causa ou aconselha as partes. Se houver motivo de foro íntimo, ele não é obrigado a detalhá-lo.
Toffoli sinalizou a auxiliares que nenhuma dessas variáveis está em jogo. Segundo conversas relatadas à Folha, o ministro indicou que nem a viagem de jatinho com um dos advogados da causa nem a sociedade entre seus irmãos e um fundo de investimentos ligado ao Master comprometem sua imparcialidade.
Além disso, se ele se declarasse suspeito ou impedido, todas as decisões assinadas até aqui seriam automaticamente anuladas, e a investigação voltaria à estaca zero. Os depoimentos já colhidos, a acareação entre banqueiros e os mandados de busca cumpridos na semana passada não teriam mais validade.
A conduta do ministro à frente do caso tem sido questionada publicamente pela PF (Polícia Federal) e interpretada como incomum por integrantes do BC (Banco Central), da PGR (Procuradoria-Geral da República) e do próprio Supremo, que já admite internamente viver uma crise de imagem.
Como mostrou a Folha, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, vive um impasse sobre como contornar o problema sem que isso signifique o seu isolamento perante os colegas. Até agora, ele está em silêncio sobre as posturas de Toffoli e do ministro Alexandre de Moraes.
Moraes entrou no foco depois que o jornal O Globo revelou que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci, tinha um contrato de R$ 3,6 milhões mensais para defender os interesses do Master. A reportagem diz que o ministro teria tentado interceder em favor do banco junto ao BC, o que ele nega.
Já Toffoli tem colecionado desgastes desde que impôs um severo regime de sigilo à investigação do Master, marcou uma acareação às pressas em meio ao recesso do tribunal e proferiu decisões que, na avaliação da PF, atropelaram a autonomia da instituição.
O episódio mais recente diz respeito à designação dos peritos que poderão analisar as provas da investigação. Toffoli elencou quatro nomes de sua própria escolha, enquanto a PF reivindica a prerrogativa de definir os profissionais mais adequados à atividade.
O vaivém de decisões sobre o acesso às provas também gerou estranhamento dentro do STF. Primeiro, Toffoli determinou que as evidências fossem lacradas e acauteladas no seu gabinete. Horas depois, reviu sua posição e ordenou que a PGR ficasse com a custódia. Por fim, deu acesso aos peritos da PF.
Toffoli se incomoda com PF e pressiona corporação em meio a desconfianças sobre caso Master
ADRIANA FERNANDES E JULIA CHAIB-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A nova fase da investigação sobre o Banco Master marcou uma reação do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli às cobranças a respeito de sua atuação no caso.
Relator do inquérito na corte, o magistrado autorizou uma operação contra 42 alvos nesta quarta-feira (14), concentrou poder sobre as provas apreendidas e fez críticas abertas (e também nos bastidores) à Polícia Federal. Toffoli, segundo relatos, tem desconfianças quanto à atuação de autoridades do governo Lula envolvidas na apuração, principalmente a Polícia Federal.
Em conversas reservadas, o magistrado avaliou que a conduta de investigadores pode ter contribuído para desgastar sua imagem e até mesmo a de seus pares, ao passar a percepção de que haveria inércia na investigação sobre o Master no STF.
As notícias que vieram a público, como o contrato do escritório da família do ministro Alexandre de Moraes com o Master e a sociedade dos irmãos de Toffoli com um fundo ligado a Vorcaro, são usadas por autoridades não ligadas ao caso para pôr em xeque a atuação dos ministros.
Toffoli também relatou a pessoas próximas estar incomodado com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que declarou nesta semana que o caso inspira muito cuidado porque "o Brasil pode estar diante da maior fraude bancária da história".
Autoridades que acompanham as apurações avaliam que, ao autorizar a segunda fase da operação Compliance Zero, o magistrado tentou, ao menos publicamente, passar uma mensagem de que o caso não seria interrompido sob sua supervisão e que não estaria protegendo o dono do Master, Daniel Vorcaro.
O ministro permanece, no entanto, como alvo de questionamentos em relação à condução do inquérito. Toffoli manteve o processo em sigilo e tomou decisões questionadas pela opinião pública e no mercado financeiro, que se uniu em defesa do Banco Central. A leitura desses críticos é que Toffoli estaria blindando o dono do Master, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com a pressão sobre o trabalho do BC e da PF.
Toffoli ficou sob pressão desde que assumiu o controle do inquérito, em 3 de dezembro do ano passado. Houve questionamentos sobre o sigilo que ele impôs sobre a investigação e a acareação que ele determinou entre os investigados e o diretor do Banco Central responsável pela fiscalização bancária.
O caso Master foi parar no Supremo depois que advogados de Vorcaro recorreram ao STF, argumentando que a investigação deveria ficar concentrada na corte devido à citação de um negócio imobiliário entre Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA).
No despacho assinado na terça-feira (13), em que determinou novas buscas contra Vorcaro e o empresário Nelson Tanure, além da prisão temporária do cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, Toffoli criticou a PF e exigiu explicações do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, pelo não cumprimento dos prazos determinados por ele na segunda fase da operação Compliance Zero.
O pedido da Procuradoria-Geral da República para a segunda fase da operação foi feito há pouco mais de uma semana, em 6 de janeiro. No dia seguinte, Toffoli autorizou a execução das medidas, mas a ação só ocorreu nesta quarta-feira (14).
De acordo com investigadores, ações dessa natureza exigem preparação, como a coleta de endereços dos alvos e outras avaliações de risco.
Toffoli faz uma primeira cobrança à PF na última segunda-feira (12) para que a operação fosse deflagrada, dando um prazo de 24 horas para o cumprimento das medidas. No dia seguinte, ele se queixou que a PF não havia cumprido o prazo estabelecido.
Um dos argumentos apresentados informalmente ao ministro é que outra operação seria deflagrada e por isso não havia tempo hábil para as providências da ação contra o Master.
A demora foi mencionada como a gota d'água, uma vez que o ministro já estava insatisfeito com as perguntas feitas pela PF na acareação e também com a ausência de interrogatório preliminar.
No dia 11, um dia antes das queixas de Toffoli à PF, reportagem da Folha de S.Paulo mostrou a sociedade de parentes do ministro a um fundo da teia financeira que, segundo investigadores, teria favorecido o Master.
O resultado da operação desta quarta-feira (14), segundo interlocutores do ministro, é que embora ele tenha dado seguimento à investigação, Toffoli também redobrou sua autoridade sobre o caso ao determinar que as provas fiquem lacradas e sob custódia da PGR. Um integrante da PF viu nesse gesto a hipótese de que Toffoli desconfia de vazamentos por parte da corporação.
Na visão de dois investigadores, ouvidos pela reportagem na condição de anonimato, Toffoli estaria tentando mostrar para Daniel Vorcaro que tem o poder de apertar mais ou menos a pressão sobre o ex-banqueiro.
Toffoli critica PF por descumprir prazo para operação contra Tanure e cunhado de Vorcaro
LUCAS MARCHESINI E ADRIANA FERNANDES-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)-O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli criticou a Polícia Federal por descumprir os prazos determinados por ele na operação que investiga possíveis fraudes de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Em despacho assinado nesta terça-feira (13), ele aponta que medidas cautelares contra Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e Nelson Tanure, investidor ligado ao dono do Master, foram requeridas em 6 de janeiro e deferidas no dia seguinte.
O deferimento veio com ordem subsequente para cumprimento no prazo de 24 horas, contadas a partir das 14H52 do dia 12 de janeiro, "diante da gravidade dos fatos e necessidade de aprofundamento da investigação, com fartos indícios de práticas criminosas de todos os envolvidos", aponta a decisão do ministro.
"Causa espécie a esse relator não só o descumprimento do prazo por mim estabelecido para cumprimento das medidas cautelares ordenadas, posto que resta claro que outros envolvidos podem estar descaracterizando as provas essenciais ao deslinde da causa", prossegue o ministro.
Ele ainda destacou "a falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas".
O prazo inicial dado por Toffoli expirou nessa terça-feira (13). No seu despacho, o ministro aponta que a PF representou seu gabinete por medidas urgentes às 19h13 dessa terça-feira apontando que Zettel tinha passagem comprada para Dubai. O voo seria "poucas horas antes do cumprimento das medidas judiciais determinadas".
"O embarque do investigado constitui oportunidade única a propiciar a obtenção de elementos que corroborem, ainda mais, sua participação nos delitos investigados, além da materialidade de outros delitos sobre os quais sobre ele já recaem suspeitas de autoria", prossegue o pedido da PF.
A antecipação da operação contra Zettel levou ao pedido pela PF da prisão temporária por um dia. O objetivo é impedir que ele se comunicasse com outros investigados. Para os demais alvos, a operação foi deflagrada às 6h desta quarta-feira (14).
Toffoli disse em seu despacho que a "eventual frustração do cumprimento das medidas requeridas decorre de inércia exclusiva da PF, inclusive diante de inobservância expressa e deliberada de decisão por mim proferida na data de 12 de janeiro, que determinou a deflagração da presente fase no prazo de 24 horas".
"Eventual prejuízo às demais medidas em decorrência do presente pedido são de inteira responsabilidade da autoridade policial", prosseguiu.
A operação desta quarta-feira teve 42 mandados de busca e apreensão nesta nova fase da operação, além de ordens de sequestro e bloqueio de bens no valor de R$ 5,7 bilhões.
São alvos endereços ligados a Vorcaro, a parentes dele e a empresários, incluindo João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, gestora investigada no caso Master e suspeita envolvimento com o crime organizado. Os mandados são cumpridos também em Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Toffoli negou busca contra Vorcaro e recuou depois que PF apontou evidência de 'novos ilícitos'
O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), acatou um pedido da PF (Polícia Federal) para realizar novas diligências na residência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nesta quarta-feira (14). Em sua decisão, Toffoli relata ter negado parcialmente um pedido anterior, mas que reconsiderou após novos argumentos trazidos pela PF e pela Procuradoria-Geral da República.
No despacho que autoriza as buscas contra Vorcaro, o ministro diz que mudou de ideia a partir da nova argumentação, "diante da evidência de prática de novos ilícitos, supostamente cometidos pelo investigado", conforme afirmado pela PF. A corporação também disse ser necessária a "colheita de elementos probatórios complementares".
"Diante das ponderações da Autoridade Policial e da Procuradoria-Geral da República, reconsidero, em parte, a decisão combatida, para deferir novas diligências na residência do investigado D.B.V. [Daniel Bueno Vorcaro]", afirmou Toffoli em sua decisão.
A PF sustenta o novo pedido com base na "atualização dos endereços" e no argumento de que as buscas anteriormente autorizadas teriam sido concedidas com finalidade mais restrita, enquanto a nova etapa exige a ampliação do escopo.
Em sua decisão, o ministro não deixa claro qual seria o motivo de sua rejeição inicial, mas afirma que passou a estar "ciente da informação sobre o correto endereço das pessoas em cujos domicílios serão realizadas as buscas já deferidas".
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi favorável à nova ação da PF. Ele argumentou que "a diligência de busca e apreensão realizada no âmbito da Operação Compliance Zero no endereço sob análise não abrangeu o contexto mais amplo que a apuração em espécie busca examinar, tornando-se, assim, necessário, útil e pertinente que o investigado seja alvo de busca e apreensão em referido endereço, para colheita de documentos, anotações, registros, mídias, aparelhos eletrônicos e demais dispositivos de armazenamento de dados".
Em outro despacho, Toffoli criticou a Polícia Federal e exigiu explicações em 24h do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, por não cumprir os prazos determinados por ele na segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Toffoli também determinou que todo o material apreendido seja guardado no STF e não na PF, como de praxe.
Como a Folha de S.Paulo revelou, duas empresas ligadas a parentes do ministro Dias Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Banco Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela reportagem.
O Arleen Fundo de Investimentos teve, ao menos até maio de 2025, ações da Tayayá Administração e Participações, responsável por um resort em Ribeirão Claro (PR) que pertencia em parte à família de Toffoli, e também participação direta na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária da mesma cidade que tinha como um de seus sócios um primo do ministro.
A conexão com o caso Master se dá por uma cadeia de fundos. O Arleen foi um dos cotistas do RWM Plus, que por sua vez também recebeu investimentos de fundos ligados ao Maia 95, um dos seis apontados pelo Banco Central como integrantes da suposta teia de fraudes do banco de Daniel Vorcaro. O fundo Arleen em si não é alvo de investigação.
O Arleen e todos os demais fundos da teia têm como administradora a Reag, que administrava também fundos ligados a Vorcaro e é investigada na operação Carbono Oculto, por suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).
A defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Disse que a reportagem estabelece "conexões inexistentes e distorce fatos ao sugerir vínculo entre o banco, seus executivos e investimentos mencionados".
A reportagem procurou a assessoria do STF e perguntou se Dias Toffoli tinha conhecimento dessas conexões e se ele considera que as informações criam algum empecilho para a condução do caso, mas o ministro não respondeu até a publicação desta reportagem. Parentes do ministro também não se manifestaram. A Reag não comentou o caso.
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