País não consegue retomar nível pré-pandemia e tem mais de 1 milhão de crianças com atraso escolar
Isabela Palhares-são Paulo, Sp (folhapress) - 19/06/2026 17:29:20 | Foto: Proporção de crianças fora da creche por falta de vagas cai pela primeira vez desde 2019 - Angelo Miguel/MEC
Uma em cada três crianças de 2 e 3 anos que não frequentava creche em 2025 não estava matriculada por falta de vaga. Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e foram divulgados nesta sexta-feira (19).
A frequência na creche não é obrigatória no Brasil, mas o PNE (Plano Nacional de Educação) estabelecia que o país deveria garantir que ao menos metade das crianças de 0 a 3 anos estivesse matriculada na educação infantil até 2024.
Os dados mostram que, no ano passado, 41,7% das crianças dessa faixa etária estavam na creche.
Apesar do país ainda estar longe de alcançar a meta, a pesquisa mostra que houve avanços consecutivos da cobertura nessa etapa escolar na última década. Em 2016, menos de um terço (30,3%) das crianças de 0 a 3 anos frequentavam a escola.
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Taxa de escolarização de crianças de 0 a 3 anos
em %
30,3 - 2016
35,5 - 2019
35,9 - 2022
39,7 - 2024
41,7 - 2025
Pnad Contínua/IBGE
Os dados variam de acordo com a faixa etária dentro desse grupo. Entre as crianças com menos de dois anos, 17,6% frequentavam creche no ano passado. Isso significa que, dos mais de 4,6 milhões de bebês dessa idade, 800 mil estavam matriculados.
Segundo a pesquisa, dos 3,8 milhões fora da creche, 64,1% não estavam matriculados por uma opção dos pais e 28,1% por falta de vaga na região em que moram ou por a escola não aceitar a matrícula da criança nessa idade.
A cobertura entre as crianças mais velhas, de 2 e 3 anos, é maior. Segundo os dados, 62,9% da população dessa faixa etária estava matriculada em creche -em 2016, a taxa era de 49,1%.
Das mais de 5,2 milhões de crianças dessa idade, 1,9 milhão não frequentava a creche no ano passado, sendo que mais de um terço (33,4%) não estava matriculado por falta de vaga. Outras 57,1% estavam fora da escola por opção dos pais.
A falta de vagas em creches é um dos grandes desafios da educação brasileira. Pesquisas internacionais e nacionais têm reforçado a importância da educação na primeira infância para o desenvolvimento educacional e sucesso na vida adulta.
Neste ano, foi aprovada uma lei que institui um novo PNE para o país com metas a serem alcançadas até 2034. Mesmo sem o país ter conseguido alcançar o objetivo de ter metade das crianças de até três anos matriculadas em creche, o novo plano estabeleceu uma meta ainda mais ousada, garantir o atendimento de 60% da população dessa faixa etária.
"Os dados nos mostram duas situações, os pais de crianças mais novas em geral preferem ficar com os filhos em casa. Isso é uma opção. Mas temos um contingente expressivo de famílias que precisam da creche, mas não encontram vaga. Há uma carência grande no país a ser resolvida nos próximos anos", diz William Kratochwill, pesquisador do instituto.
Nenhuma das cinco regiões do país conseguiu atingir a meta de ter 50% das crianças matriculadas. As taxas médias de escolarização infantil para essa faixa etária foram de 23,9% no norte, 38,8% no nordeste, 35,6% no centro-oeste, 47,8% no sudeste e 47,9% no sul.
PRÉ-ESCOLA
Na pré-escola, etapa que atende crianças de 4 e 5 anos e cuja frequência é obrigatória, a taxa nacional de escolarização foi de 94,9%, em 2025. O patamar é considerado elevado, mas ainda está aquém da universalização (geralmente considerada quando a taxa está acima de 95-97%) estabelecida pelo PNE, que previa cobertura total até 2016.
Brasil tem 8,4 milhões que não sabem ler nem escrever, mais da metade no Nordeste
ISABELA PALHARES-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Brasil registrou, na última década, quedas consecutivas na taxa de analfabetismo da população acima de 15 anos, mas ainda tinha 8,4 milhões que não sabem ler e escrever em 2025. Mais da metade dessas pessoas (57,4%) estavam no Nordeste.
Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e foram divulgados nesta sexta-feira (19).
Em 2025, a taxa de analfabetismo no Brasil para a população com 15 anos ou mais de idade foi de 4,9% -é a primeira vez que o país fica abaixo da marca de 5% para esse grupo. Em 2016, início da série histórica do indicador, a proporção era de 6,7%, o que representava mais de 10,6 milhões de pessoas.
Em relação a 2024, houve uma redução de 0,4 ponto percentual na taxa nacional, o que representa uma diminuição de cerca de 592 mil pessoas analfabetas no país.
A quantidade de analfabetos no Nordeste (4,8 milhões) supera, como comparação, a população inteira do Amazonas estimada na Pnad (pouco mais de 4,1 milhões).
A região concentra pouco mais de um quarto (26,5%) da população total brasileira, mas tem mais da metade dos que não foram alfabetizados.
A pesquisa considera como analfabetos aqueles que não conseguem ler e escrever um bilhete simples. O Brasil tinha como meta, estabelecida pela lei do PNE (Plano Nacional de Educação), erradicar a taxa de analfabetismo nessa faixa da população até o fim de 2024.
Depois do Nordeste, o Sudeste concentra a maior parte dos analfabetos do país, 20,4%. Em seguida, aparece o Sul (14,8%), Norte (8,2%) e o Centro-Oeste (7,9%).
"Todas as unidades da federação, com exceção do Amapá, conseguiram reduzir a taxa de analfabetismo nesse período, mas os estados com percentuais mais elevados continuam no Nordeste. Alagoas e Piauí têm maiores índices", diz William Kratochwill, pesquisador do instituto.
A exemplo de outras pesquisas, como o Censo Demográfico 2022, a Pnad também indica que o problema atinge sobretudo as gerações mais velhas. Isso ocorre em razão da existência de gargalos mais intensos para o acesso ao ensino no passado.
Enquanto a taxa de analfabetismo na população acima de 15 anos é de 4,9%, na faixa etária acima dos 60 anos o índice é de 13,8%. Apesar de ser ainda bastante elevada, a taxa era de 20,5%, em 2016.
Eles representam 58% do total de analfabetos no país. Dos 8,4 milhões que não sabem ler e escrever, 4,8 milhões têm mais de 60 anos.
Pela primeira vez houve uma inversão em relação ao gênero, com a taxa de analfabetismo entre as mulheres menor do que a dos homens com mais de 60 anos. Em 2025, ela foi de 13,7% para elas e de 14,1% para eles.
"Historicamente a taxa de analfabetismo era maior entre as mulheres. Essa inversão, especialmente entre os mais velhos, sugere avanço na escolarização feminina e aponta para uma possível reversão do legado de desigualdade educacional do passado", diz Kratochwill.
Apesar da redução da desigualdade de gênero na escolarização dessa faixa etária, os dados mostram a persistência da desigualdade racial.
A taxa entre pessoas pretas ou pardas com 60 anos ou mais permanece quase três vezes superior à observada entre pessoas brancas da mesma faixa etária, evidenciando um legado estrutural de exclusão educacional
Como mostrou a Folha de S.Paulo, apesar do grande contingente de adultos não alfabetizados no país, a oferta de EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade para aqueles que não tiveram garantido o direito de estudar na idade certa, caiu ao menor patamar de matrículas desde o início da série histórica, em 1996.
A Constituição define que a oferta de turmas de EJA é obrigatória no Brasil. Há anos, no entanto, professores e estudantes denunciam o esvaziamento da modalidade nos estados e municípios.
Em muitas redes de ensino, governos têm concentrado as turmas dessa modalidade em poucas escolas, o que dificulta o acesso da população que precisa.
NÍVEL DE INSTRUÇÃO
A pesquisa mostra também avanço do nível de instrução da população adulta brasileira. A proporção de pessoas com mais de 25 anos que terminaram a educação básica obrigatória, ou seja, concluíram ao menos o ensino médio, chegou a 57,4%, em 2025. Uma década atrás esse índice era de 46%.
Os dados mostram ainda que 59,4% das mulheres com 25 anos ou mais de idade haviam completado, ao menos, a educação básica obrigatória, enquanto entre os homens esse percentual era de 55,2%.
Esse indicador também aponta para a persistência da desigualdade racial no avanço da trajetória escolar. Enquanto 64,9% das pessoas de cor branca haviam concluído o ciclo básico educacional, 51,3% das pessoas de cor preta ou parda terminaram o ensino médio, uma diferença de 13,6 pontos percentuais. Em 2016, a diferença entre os dois grupos era de 16,4 pontos percentuais.
Apesar da persistente desigualdade, é a primeira vez que o Brasil consegue ultrapassar a marca de ter mais da metade da população preta e parda tendo concluído a educação básica.
ANOS DE ESTUDO
Os dados indicam ainda que os brasileiros estão conseguindo dedicar mais anos de vida aos estudos. Em 2025, a média de anos de estudo das pessoas de 25 anos ou mais de idade no Brasil foi de 10,2 anos, apresentando crescimento em relação aos 9,1 anos observados em 2016.
As mulheres continuam com maior escolaridade média (10,4 anos) em comparação aos homens (10,0 anos). Quanto à cor ou raça, a diferença segue expressiva: pessoas brancas alcançaram 11,1 anos de estudo, enquanto pessoas pretas ou pardas atingiram 9,5 anos, resultando em uma diferença de 1,4 ano.
Um dos reflexos é a ampliação do ensino superior. A proporção de brasileiros de 25 anos ou mais com graduação completa aumentou de 15,4%, em 2016, para 21,4%, em 2025.
País não consegue retomar nível pré-pandemia e tem mais de 1 milhão de crianças com atraso escolar
ISABELA PALHARES-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais de 1 milhão de crianças e adolescentes brasileiros de 6 a 14 anos não estavam cursando a série esperada em 2025. O número é maior do que o registrado em 2019, ou seja, o país não conseguiu retornar aos níveis pré-pandemia.
Os dados são da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e foram divulgados nesta sexta-feira (19).
Nessa faixa etária é esperado que os alunos estejam matriculados ou já tenham concluído o ensino fundamental (do 1º ao 9º ano).
Segundo a pesquisa, 96,1% dos alunos de 6 a 14 anos estavam matriculados na série adequada em 2025. Houve uma melhora da taxa, já que, em 2023 e 2024, ela ficou em 94,6%.
Apesar da recuperação, o índice ainda é menor do que o registrado em 2019, quando era de 97,1%. Naquele ano, cerca de 770 mil alunos apresentavam atraso na trajetória escolar.
Ou seja, quase 250 mil crianças a mais tiveram algum atraso após a pandemia de covid, que suspendeu as aulas presenciais em todo o país.
"Muitas crianças não conseguiram acompanhar as atividades remotas, algumas famílias preferiram adiar a entrada delas na escola e muitas repetiram de ano, o que causou esse atraso no grupo", explica William Kratochwill, pesquisador do instituto.
Mesmo com o recuo, o Brasil superou a meta estabelecida pela lei do PNE (Plano Nacional de Educação), que previa ter ao menos 95% dos alunos do ensino fundamental concluindo a etapa na idade recomendada até 2024.
A pesquisa mostra que não há grandes diferenças entre os grupos analisados, sendo a taxa de 95,9% entre os meninos e 96,2% entre as meninas. Entre os estudantes brancos, a taxa é de 96,2% e de 96% entre pretos e pardos.
A região Sul é a que tem o maior percentual de estudantes com atraso escolar, com a taxa de 95,7%, em 2025. Antes da pandemia, o índice na região era de 97,3%.
Em nenhuma das regiões do país foi registrada recuperação ao patamar anterior da pandemia. "Esse grupo etário tinha mais dificuldade em acompanhar as atividades remotas. Isso acarretou um déficit que ainda vai ser carregado por um tempo até que as crianças voltem a frequentar a série apropriada para a idade", diz Kratochwill.
ENSINO MÉDIO
Ao contrário do que aconteceu com os estudantes mais novos, para os jovens de 15 a 17 anos houve aumento na taxa dos que estão cursando a série adequada. Segundo os dados, em 2025, 80,6% dos jovens dessa idade estavam frequentando ou já tinham concluído o ensino médio -em 2019, antes da pandemia, esse índice era de 71,4%.
Ainda que a taxa tenha avançado nessa etapa, ela permanece 4,4 pontos percentuais abaixo da meta estabelecida pelo PNE, que previa ter ao menos 85% dos jovens dessa idade na série adequada até o fim de 2024.
Os dados mostram ainda como a desigualdade racial impacta na permanência escolar. Para os jovens brancos, a taxa é de 84,9%. Já para os jovens pretos e pardos, ela é de 77,8%.
"A avaliação dos indicadores da educação básica, em 2025, evidencia avanços moderados, mas ainda desigualdades persistentes entre as etapas do ensino e os grupos etários", analisa o relatório da pesquisa.
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