Com místicas, celebrações e marchas, as romarias percorrem locais que marcaram a história dos homenageados
Por Luís Indriunas - Portal Brasil De Fato - 20/07/2026 08:23:12 | Foto: Plantio de mudas por familiares de Zé Claudio e Maria foi um dos momentos mais simbólicos da 11ª Romaria dos Mártires da Floresta. | Rodrigo Correia/CPT
Diversas romarias têm mobilizado regiões da Amazônia entre junho e julho deste ano para lembrar e refazer o caminho de mártires das lutas no campo, além de denunciar o avanço do agronegócio. Organizadas por movimentos e comunidades, as marchas, cheias de místicas e fé, são realizadas ao longo do ano por todo o país, com o objetivo de defender a vida no planeta.
Neste ano, as marchas na Amazônia também marcam os 50 anos da morte do padre João Bosco Penido Burnier, assassinado durante a ditadura militar ao interceder pela libertação de duas mulheres camponesas torturadas em uma delegacia. Apenas em 2010, 33 anos depois do assassinato, o Estado brasileiro reconheceu o caso como um crime político.
A homenagem ocorre durante a 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, realizada neste sábado (18) e domingo (19), em Ribeirão Cascalheira (MT), cidade onde o religioso foi morto.
Oitava Romaria dos Mártires relembra 50 anos da morte do padre João Bosco Penido. | Crédito: CPT
O coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra José Carlos Lima aponta a importância de manter viva a memória dos mártires. “Tem uma causa que é uma causa maior do que a minha existência, do que a sua existência, que é a causa da própria vida, a causa da ‘casa comum’, esse termo que foi incorporado nas últimas décadas, entendendo a Terra como a morada de todos e a necessidade de protegê-la”, explica.
Lembrar dos mártires é também falar da violência atual, cujo cenário, para Lima, se transformou, mas a realidade da opressão do capital não mudou nessas cinco décadas.
“A brutalidade, o uso da violência e a certeza da impunidade perpassam esse tempo histórico de 50 anos. Pouco ou quase nada houve de punição, especialmente para quem manda matar, para quem paga, para quem contrata. Ainda é uma realidade muito dura. Uma página que o Brasil não virou da sua história”, diz.

Padre João Bosco Penido Burnier. | Crédito: CNBB
O Brasil registrou 374 assassinatos e 14 massacres no campo entre 2016 e 2025, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, da CPT. No total, foram computados 18.832 conflitos no campo no período, com 9,49 milhões de pessoas envolvidas. Para a entidade, a última década reúne alguns dos episódios mais graves de violência no campo desde a redemocratização.
‘Uma terra sem males’
As romarias acontecem com místicas, celebrações, marchas em locais simbólicos da história dos homenageados, muitas vezes os locais das mortes, mas também é um momento de enfrentamento e da busca pela terra.
“Ela [romaria] tem um lastro bíblico, teológico, na saída do povo de Deus do Egito para a terra prometida, a terra que corre leite e mel. Hoje nós usamos muito o termo de ‘uma terra sem males’. Uma terra livre do agronegócio, livre dos venenos, livre das motosserras, livre daquilo que impede que as comunidades continuem vivas”, explica Lima.

A 19ª edição da Romaria da Floresta, no sul do Pará. | Crédito: Rodrigo Correia/CPT
“É um momento de renovação na fé e resistência, de celebração e partilha da vida e fé. Um ato de defesa da ‘casa comum'”, afirma irmã Kátia Webster, que organiza a 19ª edição da Romaria da Floresta, em Anapu (PA), que relembra a luta da irmã Dorothy Stang, assassinada a tiros em 2005.
“Foi um jeitinho do povo dizer que estamos aqui e de pé. Não fugimos e nem vamos embora. Dorothy não foi internada, mas plantada. Somos os brotos. Dorothy Vive.”
A romaria, que começou na quarta-feira (16) e segue até domingo (19), tem entre suas atividades uma caminhada do Centro São Rafael, às margens do Rio Anapu, até o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança, local da morte da missionária. E, como parte da programação, haverá rodas de conversa que vão falar das ameaças ao PDS , que já perdeu mais de 20% de sua floresta, mas também de sonhos compartilhados.
A simbologia da transformação também está presente nessas romarias. Entre os dias 05 a 07 de junho, foi realizada a 11ª Romaria dos Mártires da Floresta, entre Nova Ipixuna e Marabá, no sul do Pará. Foram relembrados José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assassinados em 2011. Na ocasião, a família de Zé Cláudio e Maria acolheu os romeiros e, juntos, plantaram onze mudas. Cada muda representou uma edição da romaria, “transformando a memória em um gesto concreto de cuidado com o futuro”.
As romarias ocorrem ao longo de todo o ano. No Rio Grande do Sul, por exemplo, uma das quase 50 romarias é marcada tradicionalmente para a terça-feira de Carnaval. Para este ano, ainda estão programadas romarias pelo país.
Na Paraíba, em outubro, a marcha seguirá do sítio onde morou o padre José Comblin, ideólogo da “Teologia da Enxada”, até o assentamento Elizabeth Teixeira, palco da morte de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas, assassinado no final dos anos 60. A área em Sapé se tornou assentamento este ano, após mais de 60 anos de espera.
Em Alagoas, a 37ª Romaria da Terra e das Águas terá como tema “Terra para plantar, casa para morar” e acontecerá na área onde 5 mil famílias sem terra estão há 14 anos esperando o assentamento nas antigas fazendas do Grupo João Lyra, onde funcionavam as Usinas Laginha e Guaxuma.
Assim, unindo memória e luta, as romarias, segundo Lima, trazem “uma energia que brota como semente”. “Cada passo da romaria é expressão de fé que caminha, memória que resiste e luta que floresce nos territórios. É essa energia que brota como semente dessa luta que não morreu, se multiplica e segue gerando frutos. Entre cruzes e caminhos, entre dores e esperanças, um povo segue firme pela vida, pela casa comum e pela justiça climática.”
Editado por: Geisa Marques
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