Anvisa mantém proibição a Ypê e determina plano para devolução gradual de produtos

No documento, a Unilever sustenta que a Ypê já sabia do problema e começou a recolher os itens por conta própria nos supermercados, o que teria levado a multinacional a investigar a situação

Anvisa mantém proibição a Ypê e determina plano para devolução gradual de produtos
Anvisa mantém proibição a Ypê e determina plano para devolução gradual de produtos

Daniele Madureira E Gabriela Cecchin-são Paulo, Sp (folhapress) - 17/05/2026 08:14:14 | Foto: Fachada do edifício sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - EBC

MATEUS VARGAS-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decidiu nesta sexta-feira (15) manter o veto ao uso, venda e fabricação de detergentes, sabão líquido e desinfetantes da Ypê que têm lote terminando com o número 1. Os produtos são feitos em Amparo (SP).

A agência orienta que a população guarde os produtos e aguarde orientação da Ypê sobre o recolhimento dos lotes. A agência decidiu flexibilizar a ordem de recolhimento dos produtos que já foram vendidos. A Ypê irá apresentar um plano de mitigação de riscos e de recolhimento escalonado.

Como a Folha mostrou, a fabricante começou a reembolsar clientes que entraram em contato com o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor), sem exigência de nota fiscal.

O presidente da Anvisa, Leandro Safatle disse que se mantém a "inequívoca configuração de risco sanitário elevado, associado a falhas sistêmicas de boas práticas de fabricação" da empresa.

A Anvisa ainda julgará, em outra reunião, o mérito do recurso da Ypê. O debate desta sexta (15) se limitou à retirada de uma suspensão automática das restrições que ocorre quando o recurso é apresentado.

Durante a votação, Safatle afirmou que a inspeção feita no fim de abril localizou "deficiências estruturais e operacionais" e incapacidade da empresa de cumprir regras da Anvisa. O conjunto das evidências mostram comprometimento sistêmico", em vez de "desvios pontuais", afirmou.

O presidente da Anvisa disse que a Ypê foi alvo de medidas em 2008, 2024, 2025 e 2026 envolvendo possíveis falhas de controle de qualidade de lotes da empresa.

"Não é a primeira vez que a Anvisa adota medidas contra a empresa. Demonstra que a agência atua de forma contínua e preventiva sempre que identifica possíveis riscos à saúde da população".

Safatle disse que o contato com a bactéria Pseudomonas aeruginosa pode causar infecções na pele, nos olhos e nos sistemas urinário e respiratório, "especialmente em pessoas mais vulneráveis".

Ainda disse que lotes contaminados não foram devidamente notificados e separados pela empresa. A agência diz que localizou mais de 140 lotes contaminados em estoque.

No recurso à Anvisa, a empresa disse que os lotes não foram distribuídos e que as situações foram pontuais. Defendeu ainda que não haveria razão para caracterizar "risco iminente à saúde".

A Anvisa também detectou deficiência no sistema de água da empresa, "transformando em potencial fonte contínua de contaminação", segundo Safatle.

No último dia 7, a Anvisa determinou o recolhimento de detergente, sabão líquido para roupas e desinfetante da marca com a numeração final 1 de lote, que são fabricados em Amparo, a 130 km de São Paulo. A agência ainda suspendeu a fabricação dos produtos sob argumento de que havia falhas no controle de qualidade.

A interdição dos lotes se tornou munição para campanha movida por líderes e militantes bolsonaristas em defesa da Ypê, com divulgação de teorias fantasiosas e ataques à direção da Anvisa.

A Ypê conseguiu suspender as medidas restritivas após ter entrado com o recurso administrativo, mas a própria fabricante paralisou a produção para fazer ajustes na fábrica.

Durante a reunião desta sexta-feira (15), a Ypê pediu o adiamento do julgamento. "O que se busca é assegurar prazo necessário para avanço das tratativas", afirmou o advogado Omar José Amazonas, representando a empresa.

O advogado afirmou que a Ypê não concorda com ataques à agência. "Na internet, todo mundo se esconde atrás dela e fala o que quer. E a Ypê não concorda com isso."
"Ypê, apesar do efeito suspensivo, parou a operação fabril. E isso por si só diz bastante coisa." Afirmou que a determinação da Anvisa foi ampla, atingindo 400 mil unidades.

As inspeções sanitárias feitas em Amparo em 2025 e 2026 foram desdobramentos de denúncias apresentadas à Anvisa e à Senacom pela multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif, como revelou a Folha.

As acusações afirmam que testes feitos pela Unilever nos produtos da concorrente detectaram a presença de uma bactéria identificada como Pseudomonas aeruginosa. A Anvisa diz que a presença da bactéria foi confirmada por análises laboratoriais contratadas pela própria Ypê.

Em dezembro de 2025, após a primeira ordem para recolher lotes de lava roupas líquido da marca, a Química Amparo, dona da marca Ypê, apresentou à Anvisa um plano de reestruturação do parque fabril para tentar atender às exigências sanitárias.

Em reunião feita em abril do ano seguinte, a empresa disse à agência que o plano envolveria investimentos de até R$ 110 mil. Após a interdição dos lotes, as medidas foram reformuladas, e a Ypê estima que irá desembolsar cerca de R$ 130 milhões.

Além da reforma, a Ypê tem argumentado à Anvisa e para a Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) que eventual presença da bactéria "não necessariamente representa a periculosidade do produto".

A Anvisa, porém, afirmou também à Senacon que localizou localizado "fragilidades sistêmicas" na fábrica de Amparo durante a inspeção feita em abril. As falhas representam "situação de alto risco sanitário relevante em razão da potencial exposição da população consumidora a produtos com desvio de qualidade microbiológica", disse a agência, que também informou havia 142 lotes de produtos nos estoques da Ypê com análises microbiológicas insatisfatórias.

QUE PRODUTOS FORAM SUSPENSOS?
De acordo com a Anvisa, somente os lotes que terminam com o número 1, dos produtos abaixo estão afetados:
- Lava-louças Ypê Clear Care
- Lava-louças com enzimas ativas Ypê
- Lava-louças Ypê
- Lava-louças Ypê Toque Suave
- Lava-louças Concentrado Ypê Green
- Lava-louças Ypê Clear
- Lava-louças Ypê Green
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor
- Lava-roupas líquido
- Tixan Ypê Cuida das Roupas
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green
- Lava-roupas líquido Ypê Express
- Lava-roupas líquido Ypê Power Act
- Lava-roupas líquido Ypê Premium
- Lava-roupas Tixan Maciez
- Lava-roupas Tixan Primavera
- Desinfetante Bak Ypê
- Desinfetante de uso geral Atol
- Desinfetante perfumado Atol
- Desinfetante Pinho Ypê
- Lava-roupas Tixan Power Act

Ypê propõe à Anvisa investir R$ 130 milhões em plano de reestruturação

MATEUS VARGAS- BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após ter a venda de seus produtos suspensa por duas vezes pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a Ypê afirma que pretende investir cerca de R$ 130 milhões para adequar o seu parque fabril em Amparo (SP).

O chamado Plano de Qualidade da empresa foi elaborado no fim do ano passado, após a agência interditar lotes de lava-roupas por contaminação microbiológica detectada pela própria Ypê. Apesar da reestruturação, a agência determinou em maio novo recolhimento e interrupção da fabricação de parte dos produtos feitos no interior paulista.

A empresa diz que o plano foi redesenhado nas últimas semanas. "Tem um foco muito grande no tratamento da água", afirma o diretor jurídico e de assuntos corporativos da Ypê, Sergio Pompilio.

A Anvisa deve julgar um recurso da empresa na sexta-feira (15), após retirar o caso da pauta na quarta (13). A interdição dos lotes se tornou munição para campanha movida por líderes e militantes bolsonaristas em defesa da Ypê, com divulgação de teorias fantasiosas e ataques à direção da Anvisa.

Em reunião na Anvisa em 9 de abril, cerca de um mês antes da interdição, a Ypê sinalizou que as mudanças na fábrica custariam de R$ 100 milhões a R$ 110 milhões em 12 meses. As obras incluiriam a "implementação de sistemas avançados de tratamento de água", registra a ata do encontro.

A Ypê informou, na mesma reunião, que 59% das ações de melhoria projetadas até 2027 haviam sido concluídas, incluindo a inauguração de novo laboratório de microbiologia com "tecnologia de nível farmacêutico". A empresa também disse que passaria a realizar a sanitização das suas instalações a cada sete dias, em vez de em intervalos de 30 dias.

A Anvisa diz, em nota, que a apresentação do plano "não representa validação automática ou homologação prévia pela Anvisa, mas constitui parte do processo regulatório de acompanhamento e verificação das medidas corretivas necessárias".

"O foco da atuação da Anvisa permanece centrado na avaliação das condições de controle sanitário, garantia da qualidade, rastreabilidade, monitoramento microbiológico, validação de processos e demais requisitos relacionados às Boas Práticas de Fabricação de produtos saneantes", diz a agência.

Segundo Pompilio, o investimento foi revisto para cima após, em abril, uma inspeção de órgãos de vigilância registrar 88 "não conformidades" na fábrica de Amparo.

"O plano tem objetivos de curto, médio e longo prazo. Você não consegue mudar uma fábrica da noite para o dia. A nossa maior tranquilidade vem do nosso novo sistema de qualidade e segurança, que garante que a partir do dia em que a Anvisa nos autorizar a voltar a fabricar, 100% dos produtos estão aptos para uso", disse o diretor da Ypê.

A existência do plano é um dos argumentos apresentados pela empresa nos últimos meses para responder aos questionamentos de órgãos de vigilância sanitária e da Senacom (Secretaria Nacional do Consumidor).

No fim de abril, a empresa afirmou à Senacom que a iniciativa estabelece patamares de "excelência para a indústria". "A despeito da inexistência de normas regulatórias acerca da existência de microrganismos em saneantes, equipara os produtos da Ypê aos padrões de controle produtivo mais rígidos, aplicáveis a produtos de outras naturezas".

A argumentação da empresa, porém, foi considerada insuficiente pela Anvisa, que relatou também à Senacom ter localizado "fragilidades sistêmicas" na fábrica de Amparo durante a inspeção feita em abril.

Segundo a mesma nota técnica da Anvisa, as falhas representam "situação de alto risco sanitário relevante em razão da potencial exposição da população consumidora a produtos com desvio de qualidade microbiológica".

A Ypê informou durante a mesma inspeção que havia 142 lotes de produtos em seus estoques com análises microbiológicas insatisfatórias, ainda segundo o relato da Anvisa.

A empresa voltou a mencionar as obras de reestruturação em documento enviado à Senacom na terça-feira (12). "Nesse contexto, mostrava-se desnecessária a adoção de medida tão grave como aquela adotada cautelarmente na resolução [da Anvisa], antes mesmo do exercício do contraditório", disse a empresa.

As inspeções sanitárias feitas em Amparo em 2025 e no ano seguinte foram desdobramentos de denúncias apresentadas à Anvisa e à Senacom pela multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif, como revelou a Folha.

As acusações afirmam que testes feitos pela Unilever nos produtos da concorrente detectaram a presença de uma bactéria identificada como Pseudomonas aeruginosa. A Anvisa afirma que a presença da bactéria foi confirmada por análises laboratoriais contratadas pela própria Ypê.

Ypê começa a reembolsar clientes que compraram lotes afetados

GABRIELA CECCHIN E VINICIUS MACÊDO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Consumidores já começaram a receber de volta os valores pagos em produtos Ypê afetados pela suspensão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), com base em testes feitos pela reportagem.

Para solicitar o reembolso, foi necessário preencher o formulário do site www.ype.ind.br/comunicado-consumidores com nome completo, CPF, telefone, email, chave Pix, endereço e dados do produto. Fotos da nota fiscal e do lote contaminado são opcionais.

Na sequência, o cliente receberá um email para confirmar a chave Pix que receberá o pagamento e o tipo de produto. No teste da Folha, a restituição veio um dia útil após o email de confirmação, em nome da fabricante Química Amparo, dona da marca, via Pix.

Procurada, a Ypê não comenta se todos os consumidores conseguirão reembolso, nem se a empresa fará o recolhimento dos lotes nas casas. A orientação da Anvisa e de especialistas em saúde é não jogar fora os produtos, sob risco de contaminação.

A agência suspendeu, na última quinta-feira (7), a fabricação e venda de detergentes, lava roupas e desinfetantes líquidos com lotes de numeração final 1 da marca. A Química Amparo, porém, entrou com recurso administrativo e conseguiu reverter a proibição temporariamente.

A Anvisa terá uma reunião nesta sexta (15) para definir se vai manter o efeito suspensivo do recurso, que entrou em vigor automaticamente, ou se proibirá de novo os lotes afetados. Até lá, consumidores têm pouca base jurídica para exigir troca ou reembolso dos produtos, segundo especialistas.

A Ypê disponibilizou um SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) para tirar dúvidas e encaminhar clientes para o formulário. Os telefones são 0800-002-6071 (atendimento 24h), 0800-278-0024 (de segunda a domingo, das 9h às 18h), ou 0800-130-0544 (de segunda a sexta, das 9h às 17h).

Nos testes da reportagem, foi difícil conseguir completar a ligação, já que a linha estava lotada. A empresa diz que está com alta demanda e que triplicou sua capacidade de atendimento nos últimos dias.

QUAIS PRODUTOS FORAM AFETADOS?
De acordo com a Anvisa, os lotes que terminam com o número 1 dos produtos abaixo causam risco aos consumidores:
- Lava-louças Ypê Clear Care
- Lava-louças com enzimas ativas Ypê
- Lava-louças Ypê
- Lava-louças Ypê Toque Suave
- Lava-louças Concentrado Ypê Green
- Lava-louças Ypê Clear
- Lava-louças Ypê Green
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Combate Mau Odor
- Lava-roupas líquido
- Tixan Ypê Cuida das Roupas
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Antibac
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Coco e Baunilha
- Lava-roupas líquido Tixan Ypê Green
- Lava-roupas líquido Ypê Express
- Lava-roupas líquido Ypê Power Act
- Lava-roupas líquido Ypê Premium
- Lava-roupas Tixan Maciez
- Lava-roupas Tixan Primavera
- Desinfetante Bak Ypê
- Desinfetante de uso geral Atol
- Desinfetante perfumado Atol
- Desinfetante Pinho Ypê
- Lava-roupas Tixan Power Act
COMO SABER SE MEU PRODUTO ESTÁ NA LISTA?
O consumidor deve verificar o número do lote na embalagem. Se o código terminar em 1, o item entra na determinação da Anvisa e o produto não deve ser utilizado. O número do lote costuma estar carimbado com a letra L (referente a lote).

QUAL FOI O MOTIVO DA DECISÃO DA ANVISA?
Segundo a agência, inspeções identificaram descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo, incluindo falhas na garantia da qualidade, produção e controle de qualidade. A Anvisa afirma que isso pode gerar risco de contaminação microbiológica dos produtos, podendo causar doenças ou irritações.

O CONSUMIDOR DEVE PARAR DE USAR OS PRODUTOS?
A recomendação da Anvisa é suspender imediatamente o uso dos lotes atingidos e procurar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa para orientações sobre devolução e recolhimento.

Unilever, dona do Omo, denunciou à Anvisa presença de bactéria em produtos Ypê

A multinacional anglo-holandesa Unilever, dona de marcas como Omo, Comfort e Cif, fez em outubro do ano passado e em março deste ano duas denúncias contra a rival Química Amparo, dona de Ypê e Tixan, junto à Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) e à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Os textos das queixas, aos quais a Folha de S.Paulo teve acesso, apontaram a contaminação microbiológica do lava-roupas Tixan Ypê e de detergentes Ypê. Os resultados foram contestados pela empresa brasileira. A Senacon e a agência sanitária não comentaram o assunto.

Após as denúncias, a Anvisa visitou por duas vezes a fábrica da Ypê em Amparo, a 130 km de São Paulo, e acabou determinando neste mês a interrupção da produção e venda dos produtos líquidos feitos no complexo industrial -detergente, lava-roupas e desinfetante.

As acusações afirmam que testes feitos pela Unilever nos produtos da concorrente detectaram a presença de uma bactéria identificada como Pseudomonas aeruginosa, "em evidente falha das boas práticas de fabricação", segundo o documento, que cita também "iminente risco à saúde e segurança dos consumidores".

Procurada pela reportagem, a Unilever afirmou que costuma realizar testes técnicos em seus produtos e às vezes nos da concorrência, uma prática comum entre as indústrias do setor.

"A depender dos resultados destes testes, em respeito ao consumidor, as autoridades competentes são notificadas. Quaisquer investigações são conduzidas exclusivamente pela autoridade, que avalia as diligências, fiscalizações e testes que entender necessários para a tomada de decisão", disse.

Já a Química Amparo não quis comentar o caso. Em entrevista à Folha nesta terça (12), o diretor executivo de operações da companhia, Eduardo Beira, afirmou que a empresa faz melhorias no processo produtivo em um plano de ação apresentado à Anvisa.

De acordo com o texto da primeira denúncia, assinado pelo escritório Magalhães e Dias Advocacia, a Unilever contratou o laboratório americano Charles River para a "perfeita identificação da bactéria que contaminou o produto" e seus riscos.

"A Pseudomonas aeruginosa pode se propagar através do contato direto com a pele, lesões, mucosas ou mesmo por meio de objetos contaminados, podendo causar infecções em diversas partes do corpo, como a pele, o trato urinário, olhos e ouvido (otite), sendo que o seu tratamento não é simples devido à conhecida resistência aos antibióticos", afirma a denúncia.

No documento, a Unilever sustenta que a Ypê já sabia do problema e começou a recolher os itens por conta própria nos supermercados, o que teria levado a multinacional a investigar a situação.

"A Unilever observa que a Química Amparo, mesmo promovendo recolhimento silencioso dos seus produtos, o que indica ter conhecimento do desvio no padrão microbiológico, segue veiculando forte publicidade justamente do Tixan Ypê Express contaminado, levando o consumidor a adquiri-lo em condições inseguras de uso e manuseio", disse.

Na segunda denúncia, feita em março, a Unilever afirma ter submetido novas amostras de outros produtos da Química Amparo ao laboratório Eurofins, que teria constatado ao menos outros 14 lotes contaminados pela bactéria, sendo um desses o do detergente Ypê.

No Brasil, a multinacional não compete na categoria de detergentes. Seus principais produtos de limpeza doméstica são sabão em pó, sabão líquido, amaciante e limpador.

"Em 7 desses 14 lotes foram identificados também traços de materiais genéticos de outros gêneros de bactérias, tais como Bacillus subtilis, Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter baumannii, Ectopseudomonas mendocina, Ectopseudomonas oleovorans, Ectopseudomonas toyotomiensis, Pseudomonas putida, Pseudomonas sediminis, Pseudomonas sihuiensis, Pseudomonas wenzhouensis e Strutzerimonas stutzeri -muitos dos quais também são patógenos e, portanto, danosos à saúde humana", diz o texto da segunda denúncia.

A Unilever solicita que a Anvisa seja notificada "para posicionamento urgente em relação à constatação de novos desvios microbiológicos em outros produtos", que a Química Amparo realize um recall imediato e seja apurada a sua "conduta negligente e reticente em não investigar todos os lotes potencialmente afetados pelo desvio microbiológico".

LIMITE PARA BACTÉRIAS EM PRODUTOS DE LIMPEZA
Ainda em outubro, em resposta à Senacon, a Química Amparo afirmou ter recebido a denúncia de sua principal concorrente com surpresa e indignação. A empresa afirmou que não existe qualquer regulamentação da Anvisa que estabeleça limites para a presença daquele microrganismo em produtos saneantes.

"A RDC 907/2024, publicada pela Anvisa e citada na denúncia, proíbe a presença dessa bactéria em cosméticos, mas não em saneantes", diz o texto, assinado pelo escritório Barbosa Mussnich Aragão. "Trata-se de uma diferenciação óbvia, uma vez que produtos cosméticos tendem a ser aplicados
diretamente na pele, onde permanecem, muitas vezes, por diversas horas em contato direto".

Além disso, a Química Amparo defende que "os testes e pretensos estudos realizados ou encomendados unilateralmente pela Unilever não têm a necessária isenção para subsidiar medidas tão gravosas" e que a própria fabricante do Ypê contratou "profissionais independentes, altamente qualificados, para analisar os
produtos, inclusive pelo seu perfil microbiológico".

A fabricante de Amparo afirma ainda que a "periculosidade alegada da bactéria não necessariamente
representa a periculosidade do produto", uma vez que se trata de "um microrganismo amplamente presente no meio ambiente, até mesmo no solo e na água potável".

A companhia refuta a sugestão de que teria promovido a retirada de produtos do mercado, afirmando, inclusive, que vem ganhando participação sobre a Unilever, e indica que o interesse da múlti com as denúncias é puramente comercial.

Segundo a Química Amparo, os lotes da primeira denúncia foram produzidos entre abril e setembro de 2025, enquanto os da segunda denúncia foram fabricados entre julho e novembro de 2025.

"Considerando o tempo médio de cerca de três meses para o consumo dos produtos da Ypê, é intrigante como a Unilever teria conseguido adquirir no mercado, quase um ano mais tarde, produtos fabricados em julho de 2025, com o objetivo de testá-los de tempos em tempos e fundamentar denúncias", diz a Química Amparo.

A fabricante brasileira destaca que testes que ela própria conduziu no lava-roupas líquido em janeiro e fevereiro deste ano não apontaram a presença da bactéria.

No último dia 27, em documento enviado à Senacon e Anvisa, a fabricante brasileira afirmou que submeteu amostras de detergentes a testes conduzidos pelo laboratório Atena e que os laudos demonstram que não há microorganismos patogênicos no produto.

Segundo a Química Amparo, o propósito da Unilever é "incutir no mercado a dúvida a respeito dos produtos Ypê", uma marca que seria incômoda para a multinacional, por ter se tornado "líder no mercado de lava-roupas", diz.

UNILEVER FEZ RECALL NO EXTERIOR
A Unilever já enfrentou problema semelhante ao da Ypê no exterior. Em dezembro de 2022, a marca The Laundress, comprada em 2019, fez um recall voluntário de 8 milhões de unidades de produtos como detergentes para roupas e amaciantes nos Estados Unidos e no Canadá. O motivo era a presença de bactérias que poderiam afetar pessoas com sistema imunológico enfraquecido e outros problemas de saúde.

Em abril de 2023, a The Laundress anunciou um novo recall de seus amaciantes de roupa nesses países devido à presença de óxido de etileno, substância que pode causar câncer. Foram recolhidas 800 mil unidades. A marca ofereceu aos clientes a opção de reembolso.

A Unilever relatou uma perda de € 89 milhões (cerca de R$ 512 milhões) em seu relatório anual de 2022 devido ao recall.

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