O Brasil é um país de gente jovem, diz ela, ao contrário da Europa
Walter Porto Brumadinho, Mg (folhapress) - 06/04/2026 11:13:46 | Foto: Reprodução Roda Viva
A artista portuguesa Grada Kilomba tem vindo com frequência ao Brasil. Só neste ano, já foram duas visitas -a última para gravar um episódio do podcast Mano a Mano, com Mano Brown, e semanas antes para abrir o terceiro ato de sua exposição "O Barco", montada no Instituto Inhotim.
Mas, a cada vez, ela vem outra. E para uma artista versátil que já escreveu um livro influente, já se apresentou na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, já foi curadora da Bienal de Arte e agora tem sua obra exposta no maior museu a céu aberto do país, não faltam vertentes a apresentar.
"A magia da arte é pensá-la de uma forma e depois, dependendo do espaço que ela habita, ver levantar uma outra camada que não estava lá", diz Kilomba em entrevista no pavilhão onde está "O Barco".
É algo que serve para a própria autora, que se revela distinta a depender de qual posição ocupa, e para essa instalação que se metamorfoseia no espaço e no tempo.
A obra no Inhotim é composta de 134 toras de madeira queimada, dispostas no chão de modo a evocar um barco imaginário -ou as memórias de um. Na fileira central, há frases concatenadas em seis idiomas diferentes, de europeus colonizadores e africanos colonizados.
Isso está há dois anos na Galeria Galpão, espaço de grande porte destinado a exposições de artistas convidados no museu mineiro. Mas mudou com o tempo. No ano passado, recebeu uma performance ao vivo de cantores e dançarinos da região de Brumadinho, que se integraram à obra de Kilomba.
Agora, o trabalho está acompanhado de um vídeo da mesma interpretação gravada num ambiente à beira-mar, passando repetidamente num eterno retorno. "Era muito importante que esta escultura fosse um objeto vivo, em constante transformação, ativada pela performance e pelas vozes das pessoas."
E é uma obra que se transforma também no espaço. Teve significados diferentes quando foi apresentada em Portugal, país que enchia naus de pessoas escravizadas para levar à América; na Alemanha, à beira da Floresta Negra de onde saía a madeira que construía as embarcações; e em Minas Gerais, destino final dos raptados de tantos tumbeiros.
Atravessar o Atlântico com "O Barco" também mudou Grada Kilomba. "Sinto muito fortemente que aqui há uma urgência cada vez maior no público em transformar, em querer saber. Isso é algo extraordinário, que não vivencio em qualquer outro lugar com essa intensidade."
O Brasil é um país de gente jovem, diz ela, ao contrário da Europa, habitada por uma população que diminui, "que está a morrer". Por aqui ela encontra "um público muito politizado", diz, que descobre em suas obras "um vocabulário visual e semântico para se compreender".
Mas a artista reforça o tempo todo que mostrar seu trabalho nestas terras é mais importante para ela que para nós. "Há uma generosidade muito grande comigo, que vem dessa inteligência [dos brasileiros] em querer criar algo novo. Uma enorme inteligência em criar o futuro."
Ver sua instalação interagir com brasileiros negros, descendentes dos escravizados que viveram os piores horrores do processo colonial, é uma caixa de forte ressonância para a criação de uma artista que nasceu em Lisboa, mora em Berlim e se acostumou a circular em ambientes que enxergam a colonização pelo lado de lá.
A obra de Kilomba se ramificou entre as artes plásticas, a performance e a literatura sutil de "Memórias da Plantação" -um episódio pontual na carreira da portuguesa, que não se considera escritora-, num momento em que o debate sobre antirracismo e decolonialidade se intensificaram.
Mas ela não acha que seja papel da arte entrar em ondas da moda. "A grande função de qualquer artista é pegar aquilo com o que nós não sabemos lidar e oferecer ao público uma linguagem."
É esse tipo de ferramenta que ela acredita ter interessado aos brasileiros -que também se abrem a interferências de mentes que brotam daqui mesmo. No Inhotim, outro artista influente que também abriu um novo ato de sua intervenção no mesmo final de semana de fevereiro foi o mineiro Paulo Nazareth.
Ali ele exibiu a última versão de "Esconjuro", sua coleção de obras espalhadas por diversos pontos do museu. A Galeria Praça, que concentra a maior parte dos trabalhos, foi envolvida em renda branca para transformar o espaço em um "ambiente de resguardo", como afirma Nazareth, como se cobrisse obras de teor íntimo e pessoal com um manto sagrado.
Um dos grandes nomes das artes plásticas brasileiras hoje, ele se aproxima de Kilomba em gestos que desafiam o sistema colonial, o maior exemplo talvez sendo a sala central da galeria, uma espécie de vitrine de medalhas de honra, costumeiramente dadas a presidentes ou generais, dessa vez honrando militantes revolucionários negros e indígenas.
A postura anticolonial também aparece em outro artista com obra recente aberta no museu, o guatemalteco Edgar Calel, em sua primeira individual de porte no Brasil. Entre suas 15 obras, há trabalhos memoráveis como o que reproduz, em torno de uma caminhonete, seus familiares em esculturas com pés enfiados em grãos de milho -monocultura essencial dessa colônia hispânica.
É arte produzida dos resquícios de violência a que tantos povos foram submetidos, lembra Kilomba. "As políticas violentas da humanidade também alteram a frequência do cosmos", diz ela. "Percebermos esta complexidade tem uma parte bela e uma parte grotesca."
Comentários para "Vejo no Brasil uma enorme inteligência em criar o futuro, diz Grada Kilomba":