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A dor que fica depois da tragédia. São cicatrizes que nunca fecham

A dor que fica depois da tragédia. São cicatrizes que nunca fechamFoto: Correio Braziliense

Retrato de família: Adriana Maria de Almeida, na ponta da direita

Rayssa Brito* » Thais Umbelino* - Correio Braziliense - 20/10/2019 - 10:39:50

Familiares contam o difícil começo depois da perda de vítimas de um feminicídio. São Cicatrizes que nunca fecham. apesar do trauma, é necessário seguir em frente e lutar para que outras mulheres, independentemente da classe social, não sejam as próximas.

Os relatos de familiares que perderam uma pessoa querida de forma abrupta num feminicídio têm uma característica em comum: a crueldade sofrida pelas vítimas que morrem exclusivamente pelo fato de serem mulheres e a luta para lidar, todos os dias, com a dor da perda e a superação do luto.

Rosana com a foto da irmã:
Rosana com a foto da irmã: "Todos os dias eu entro no quarto dela e a vejo em pé, segurando as crianças"



“A falta que ela está fazendo é muito grande”...

“Não imaginamos que vai acontecer com a gente, na nossa família”...

“A gente tem que se conformar. Mas esquecer a gente nunca esquece”...

“Estamos destruídos, ainda mais da forma que foi”...

“Cada membro da família teve um tipo de comportamento em relação ao que aconteceu. Lidar com o luto não é simples, até porque a gente não tem essa cultura da morte, isso não é falado, não acontece no dia a dia. A morte é um drama”, relata Samuel Corrêa, 53 anos, que retrata a realidade dele, como irmão, e dos parentes próximos, após cinco meses da morte da caçula, Débora Tereza Corrêa, 43. A professora era a então 13ª vítima de feminicídio em 2019. Em 20 de maio, o assassino, Sérgio Murilo dos Santos, 47, tirou a vida da servidora na Secretaria de Educação, na 511 Norte, local onde Débora trabalhava, e em seguida suicidou-se. “Existe um sentimento de inversão, um sentimento estranho, como se ela não tivesse ido no tempo certo”, analisa Samuel.

Enfrentar a ausência repentina de alguém não é um processo fácil de passar. É o que afirma a psicóloga Rafaelly Alencar: “O primeiro sentimento que aparece é o de não acreditar no que aconteceu. O processo de lidar com o luto é diferente quando a morte é uma possibilidade, devido a uma doença grave, em comparação a casos de feminicídio, onde não há sequer chance de despedida da pessoa, gerando incômodo quando o ente vai embora de uma hora para outra”, explica.

A lembrança do dia em que foi avisado do falecimento da irmã ficou para sempre na memória de Samuel. “Eu tinha chegado em casa vindo da faculdade e assistido a chamada num jornal local. Como Débora tinha mudado de emprego recentemente, nem suspeitei que fosse ela. Minha mãe me ligou uns cinco minutos depois com o relato. É uma notícia que desestrutura tudo, não existe um manual do que fazer”, relembra.

O estudante de psicologia inicialmente buscou ajuda com profissionais da área para lidar com o sofrimento. “A Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do DF (Sejus) têm um projeto chamado Pró-Vítima, que oferece apoio psicológico às pessoas vítimas de violência e familiares. Fiz acompanhamento aproximadamente quatro meses. Isso foi determinante para que essa superação se desse de uma maneira razoável”, conta. Além disso, o irmão de Débora também buscou outros apoios como a união da família e o refúgio religioso.


Vanilma (D) foi a primeira mulher a morrer em 2019, vítima de feminicídio (Carlos Vieira/CB/D.A Press - 11/3/19)
Vanilma (D) foi a primeira mulher a morrer em 2019, vítima de feminicídio


Débora Corrêa (à frente). Atrás, o irmão Samuel Corrêa e a sobrinha (Arquivo Pessoal)
Débora Corrêa (à frente). Atrás, o irmão Samuel Corrêa e a sobrinha

Sentimento

Após cinco meses da tragédia, Samuel compreendeu que buscar explicações para o ocorrido não é produtivo. “Perguntas como: por que ele fez isso? Por que Débora omitiu a questão da violência? O que eu poderia ter feito para evitar?, devem ser poupadas. Meu sentimento é o que vou fazer daqui para a sempre”, afirma.

Subsecretária de Apoio a Vítimas de Violência da Sejus, Juciara Rodrigues explica que o programa Pró-Vítima presta auxílio psicológico por meio de terapias a qualquer pessoa que necessita de suporte devido à exposição a diversas faces da violência. Segundo Juciara, há seis núcleos de atendimento no DF localizados na Estação Rodoferroviária (sede da Sejus), Taguatinga, Ceilândia, Guará, Paranoá e Planaltina. Desde o começo do ano até 4 de outubro, 1.523 pessoas receberam auxílio em alguma dessas unidades. “Há um retrato claro de violência contra mulheres. Muitas delas desconhecem que têm instituições e equipamentos no DF para que tenham essa voz. Existe a importância de denunciar, cuidar do psicológico, então a gente tem incentivado para buscarem o nosso auxílio e que não tenham medo do enfrentamento”, destaca Juciara.

Houve 26 crimes do tipo contabilizados no DF em 2019, além de outro caso que é investigado como feminicídio. As marcas deixadas pelas tragédias afetam muito mais do que é possível dimensionar. A decisão de um homem tirar a vida de uma mulher deixa familiares, amigos e conhecidos inconformados. “Por que digo que te amo e depois te mato? Sendo que eu podia te ver todo dia”, questiona Lucilene Veleiro, 33, auxiliar de serviços gerais, decepcionada com o crime que tirou a vida de Lilian Cristina, 25 anos. A jovem foi assassinada com duas facadas, em 12 de setembro, pelo ex-namorado Jhonnatan Neto, 36. Mãe de cinco filhos, ela foi a 20ª vítima de feminicídio do ano no DF.

O acontecimento traz lembranças tristes para Lucilene. “Não imaginamos que pode acontecer com a gente”, explica. “Eu perdi 6kg esses dias, pois não consigo me alimentar lembrando da Lilian. Apenas agora que estou dormindo melhor. Ela era uma menina feliz e queria seguir a vida, criar os filhos. Aí alguém chega e a leva desse jeito”, chora.

A recordação dos bons momentos e a personalidade de Lilian são marcantes para quem fica. “Ela era muito sorridente, podia ver a gente 10 vezes na rua, que sempre falava com a gente. Lilian gostava de viver livre”, lembra Lucilene.

O relato de Ana Lúcia Almeida, 37, sobre a perda da irmã Adriana Almeida, 29, assassinada a facadas pelo marido, Wellington Sousa, 37, é dramático. “Éramos muito unidas. Ele (o assassino) não acabou só com a vida da Adriana, acabou com a vida da família toda. A minha família está destruída, as minhas irmãs não conseguem trabalhar, eu sou a única que ainda está de pé. A minha mãe ficou destruída, estou vendo a hora de eu perder a minha mãe”. Wellington está foragido desde que matou Adriana, em 30 de setembro. Ela foi a 24ª vítima de feminicídio na capital do país.

Adriana deixou uma filha de 4 anos, que sente a falta da mãe diariamente. “No dia, a criança deu uma crise, que ela via todo mundo no desespero e sorria, perdida, sem saber o que fazer. No dia do velório pela madrugada, ela chorava e pedia pela mãe”, relata Ana Lúcia. “Tem momentos em que a gente não sabe o que falar para ela, a gente procurou um psicólogo para conversar”.

Ela afirma que Wellington sempre foi ciumento e obcecado pela esposa. “Às vezes, eles brigavam e depois ele vinha com pedido de desculpas”, conta. A irmã faz um apelo. “Eu peço para as autoridades nos ajudar, porque estamos vulneráveis, não sabemos onde ele está, vivia dentro da minha casa, conhece todas nossas rotinas. Ele sabe tudo sobre nós, e não sabemos nada dele, o que podemos esperar de uma pessoa dessas?”, indaga. “Ele precisa pagar pelo que ele fez. A nossa vida acabou”, finaliza.


"A minha família está destruída, as minhas irmãs não
conseguem trabalhar, eu sou a única que ainda está de pé"

Ana Lúcia Almeida,

irmã de Adriana


Atendimento Pró-Vítima

» Sede: Estação Rodoferroviária, Ala Central, Térreo, Brasília, DF – CEP 70.631-900.

» Guará: QELC Alpendre dos Jovens, Lúcio Costa, Guará, DF – CEP 71.100- 045.

» Planaltina: Fórum Desembargador Lúcio Batista Arantes, 1º andar

» Ceilândia: EQNN 5/7, área especial C Ceilândia Norte, Brasília, DF – CEP 72.225-540.

» Paranoá: Conjunto 3, Área Especial D, Parque de Obras, Paranoá – DF, CEP 71.570-500.

» Taguatinga: Administração Regional de Taguatinga


As 5 fases do luto

A negação — Quando a dor da perda é tão intensa, que não é possível ser percebida como real.

A raiva — Quando questionamos: Por quê? Não acreditamos e nada nos conforta. Sentimos raiva.

A barganha — Tentamos “negociar” com Deus, pedimos que isso não seja verdade, fazemos promessas,

oferecemos sacrifícios em troca da não morte.

A depressão — É o momento da consciência que a perda é concreta, real. O vazio se instala, a pessoa não existe mais e com ela se vão todos os sonhos, projetos.

A aceitação — A fase final do luto. A aceitação a perda com paz e serenidade, sem negação ou raiva. O vazio é preenchido por lembranças positivas e resignação. Cada pessoa tem seu tempo para chegar a essa fase, o processo é único para cada um.

Por Valquiria Aguiar, psicóloga clínica

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