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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 12 de agosto de 2022

Abusos. Tolerância zero

Abusos. Tolerância zero

Foto: Correio Braziliense

Recém-eleito presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o arcebispo de Belo Horizonte diz que comissão que trata da pedofilia na Igreja trabalha com rapidez. Também afirma que as reformas são necessárias - desde que os mais pobres não sofram

Por Leonardo Meireles-correio Braziliense - 03/06/2019 - 08:18:55

A voz pausada, o discurso calmo e o direcionamento de qualquer palavra para falar de Deus mostram bem a conduta de dom Walmor Oliveira de Azevedo na sua função: a de um pastor que leva ovelhas em um caminho tortuoso e com o clima extremamente instável. A metáfora aponta para a responsabilidade que ele assumiu há algumas semanas, ao ser escolhido como novo presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organização antes conduzida por dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília. Dom Walmor tem a consciência da polarização que toma conta da Igreja Católica, do Brasil e do mundo. Mesmo assim, não perde o controle.


Não existe exemplo maior que as denúncias de abusos de menores contra o clero. Dom Walmor não titubeia: “Para nós, na Igreja, em sintonia profunda com o papa Francisco, é tolerância zero”. Também não se furta de falar de polarização ou questões polêmicas, como aborto e homossexualidade. Ele esteve em Brasília na semana passada e conversou com o presidente Jair Bolsonaro. E, claro, o assunto das reformas — principalmente a previdenciária — surgiu na conversa.


“A CNBB, como Igreja, não se coloca contra reformas. As reformas precisam existir: previdenciária, tributária, fiscal, no âmbito do governo, no próprio Judiciário”, definiu o baiano de 65 anos, doutor em Teologia Bíblica e mestre em Ciências Bíblicas, e que tem como lema episcopal uma mensagem forte: “Para cuidar os feridos no coração”. “Eu escolhi esse lema por compreender o meu ministério, como padre, que a humanidade tem muito sofrimento, muita dor, e todo o mundo procura sua cura. E a cura está em Cristo”. Confira os principais trechos da entrevista com o religioso.


O senhor declarou que orou para não ter o desejo de se eleger presidente da CNBB, durante a escolha. Agora, tem um trabalho árduo até 2023. Com essa oração em mente e muitas outras que o senhor fez desde então, por que o senhor acha que foi escolhido para a função?
Com muita simplicidade de coração, sem nenhum sentido de vaidade, considero que os irmãos bispos me escolheram por confiarem em mim, por conhecerem a minha seriedade no trabalho missionário de igreja, por valorizarem minha experiência e meu conhecimento, e o modo como, naturalmente, eu conduzo, como primeiro servidor, a Arquidiocese de Belo Horizonte. Ao considerarem esse conjunto e este momento que nós estamos vivendo, eu estou convencido de que, por essas razões, eles escolheram me colocar nessa enorme responsabilidade. Eu não a desenvolvo sozinho, mas colegialmente com todos os bispos do Brasil, a partir do trabalho que certamente é o mais importante: aquele que se faz em cada diocese, em cada paróquia, em cada comunidade e, por conseguinte, que nós precisamos a partir daqui da CNBB.


O senhor participou agora do Conselho Episcopal Pastoral, a primeira reunião com a nova direção. Já há algo de concreto de planos da CNBB?
Nós trabalhamos aqui, sobretudo, ouvindo e abrindo pistas e caminhos para as 12 comissões episcopais e pastoral. Vamos dar mais um passo, em junho, quando teremos a reunião de mais um órgão, depois da Assembleia-Geral, o mais importante, que é o Conselho Permanente, trazendo aqui os bispos presidentes das 12 comissões episcopais, comissões especiais e, sobretudo, a importante presença dos presidentes dos 18 regionais e seus representantes, para delinearmos concretamente o que vamos fazer no horizonte, no grande objetivo geral, que é evangelizar o Brasil, cada vez mais, para formar discípulos à luz da palavra de Deus, anunciando o Evangelho, à luz da opção preferencial pelos pobres, formando discípulos e cuidando da casa do Senhor. Esse é o grande horizonte do nosso trabalho.


O senhor falou da opção preferencial pelos pobres, algo muito trabalhado pela teologia da libertação, que é um movimento relacionado à esquerda. Mas sua fala não é ideológica, é?
Quando nós falamos da opção preferencial pelos pobres, não estamos falando como sociólogos, nem como aqueles que atuam nos segmentos da sociedade, por exemplo, governamentais, em tarefas específicas. Nós estamos falando de algo que é intrínseco à fé: o amor aos mais pobres, a defesa daqueles que são mais frágeis, a luta e o trabalho para que a sociedade seja mais justa, fraterna e solidária. Se alguém disser — e a palavra de Deus é muito clara nisso — que crê, mas não faz nada por aquele que precisa, então, a sua fé não é autêntica.


O senhor assume a presidência da CNBB em uma época muito difícil no Brasil, seja na religião, seja na política, seja na sociedade, com polarizações. Como o senhor vê essa divisão, tanto na sociedade como dentro da própria Igreja?
O nosso mundo é um mundo de grandes e velozes mudanças culturais. Por isso mesmo, não estamos conseguindo, como mundo e também como sociedade brasileira, dar conta de administrar, na velocidade e na complexidade, todas essas mudanças. Entendo que é daí que vêm as polarizações. Não se dá conta de ver o que mudou, o que é preciso dar como nova resposta, o que é preciso, de fato, resgatar dos valores que às vezes foram negociados, perdidos ou deles distanciados. E isso afeta internamente a Igreja também, que está no coração do mundo, como afeta instituições governamentais e da sociedade, afeta a família, afeta cada cidadão. O caminho, pensando na sociedade plural, é o caminho do diálogo. O caminho, portanto, de qualquer tipo de polarização, é um desserviço à sociedade, é um distanciamento da verdade e é uma impossibilidade de construção daquilo que é preciso. Por isso, é importante o diálogo. E o diálogo para nós, cristãos, tem sua fonte e seu embasamento no Evangelho de Jesus Cristo. Por isso, gosto sempre de me referir ao Evangelho de Mateus, capítulo 5 a 7: o Sermão da Montanha. Aí, o diálogo não é um diálogo demagógico, não é um diálogo interesseiro, mas é um diálogo marcado pela força do amor.


falar em diálogo, havia também a expectativa de uma conversa com o presidente Jair Bolsonaro. Como será essa conversa?
Exatamente hoje (a entrevista foi realizada na última quarta-feira, 29 de maio), os quatro membros da presidência (da CNBB) — o presidente, os dois vices (dom Jaime Spengler e dom Mário Antônio da Silva) e também o secretário-geral (dom Joel Portella Amado) —, tivemos uma visita muito cordial com o presidente Bolsonaro, na qual fomos muito bem recebidos e dialogamos de maneira muito sincera, honesta. Um diálogo cordial, compreendendo que a Igreja está no coração do mundo, como Igreja servidora do Evangelho, para ajudar a defender os princípios que são irrenunciáveis e fundamentais para a sociedade avançar, com as nossas muitas preocupações, sobretudo com aqueles que sofrem mais, aqueles que têm menos condições. Convencidos de que precisamos de muitas reformas e, sobretudo, uma compreensão lúcida para que as reformas possam ser justas, possam, de fato, empurrar o Brasil na direção que ele precisa ir e, de modo especial, levando em conta aqueles que precisam mais de nós.


Vocês falaram especificamente sobre a reforma da Previdência?
Na verdade, nós falamos, sobretudo, da relação igreja/governo, como é importante falar da relação entre a igreja e outros segmentos importantes da sociedade, nesse diálogo, no qual a igreja tem, pode e deve trazer a sua grande contribuição na força moral do Evangelho, na defesa de valores, na proposta de valores que possam reordenar o caminho da vida. Nós estamos abertos. O presidente se colocou, com alegria, aberto para o diálogo. Nós queremos dialogar em uma sociedade que é complexa, que é muito exigente. Mas, como disse há pouco, o único caminho é o diálogo, para que, pela força do diálogo, à luz de valores que professamos, consigamos a lucidez necessária para encontrar o caminho para dizer o sim, para dizer o não, para escolher adequadamente.


Pouco antes da eleição do senhor, a CNBB, de certa forma, se colocou contra a reforma da Previdência, porque afetaria os mais pobres. A CNBB tem uma posição oficial agora, após a conversa?
A CNBB, como Igreja, não se coloca contra reformas. As reformas precisam existir: previdenciária, tributária, fiscal, no âmbito do governo, no próprio Judiciário. Muitas reformas precisam acontecer. Aliás, a nossa vida só vai adiante quando nós nos dispomos a fazer reformas para dar as respostas aos novos tempos. O que compartilhamos com grande preocupação é exatamente essa (de afetar os mais pobres) e tem que ser um conceito na sociedade: fazer reformas para que a sociedade seja justa, fraterna e solidária, e nunca se penalize aqueles que são mais pobres. As reformas são necessárias, por isso, precisamos de muito diálogo, de muita luz do Espírito Santo de Deus, para que o passo dado seja um passo para o bem do conjunto da sociedade, de uma sociedade assentada sobre valores como são os valores cristãos e que são fundamentais e determinantes para um mundo novo.


Mas algumas reformas dentro da própria Igreja Católica são mais delicadas, como a questão do abortoou da homossexualidade. Claro, há conceitos dentro da instituição que não serão mudados, como a defesa da vida...
As reformas são necessárias e elas têm um caminho para serem feitas, porém, elas não podem sacrificar valores que são inegociáveis. A Igreja tem que avançar. Ela se reforma internamente, por isso, a gente diz que a Igreja está sempre se reformando. Mas ela não pode ser reformar, assim como sociedade não pode ser reformar, como as instâncias não podem ser reformadas abrindo mão de princípios que são inegociáveis. Na medida em que nós não abrimos mão de valores inegociáveis é que nós encontraremos a luz e o caminho para a reforma que se precisa, com as respostas adequadas e que são exigidas.


Por outro lado, o papa Francisco fala muito de um novo tipo de Igreja, com os braços abertos. Isso mexe com a situação, por exemplo, dos homossexuais, que querem fazer parte da Igreja Católica. Como isso é visto dentro da CNBB?
A Igreja é uma casa de portas abertas para todos os seus filhos e filhas, desde aquele que está fortalecido, aquele que tem condições de uma resposta mais próxima do que o Evangelho nos pede, até aqueles que estão caídos. Por isso, o papa Francisco usa uma expressão muito bonita: a Igreja é um hospital de campanha. Ela tem que se debruçar sobre todas as pessoas. Ao debruçar-se sobre as pessoas, é como ele mesmo diz: ‘Prefiro uma Igreja enlameada do que limpa e distante das pessoas’. A única coisa importante que nunca vai acontecer é a gente abrir mão dos valores, do ideal de santidade, de uma vida adequada, justa, na moralidade. Portanto, não se discrimina absolutamente ninguém, mas nós estamos também nos debruçando sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre aqueles que estão caídos pelo caminho. Mas nós não abrimos mão dos nossos valores, até porque é na força desses valores que nós nos resgatamos e encontramos a sabedoria para o caminho.

Sobre a questão dos abusos por parte de padres e bispos, o papa Francisco está sendo cada vez mais duro. A CNBB vai seguir o mesmo caminho?
Quando se trata de abuso de menores — embora, ao se considerar a porcentagem na sociedade em relação aos consagrados, ela é bem menor, quase insignificante diante de tudo o que tem acontecido, lamentavelmente, e é um cuidado que o conjunto da sociedade precisa tomar e olhar —, para nós, na Igreja, em sintonia profunda com o papa Francisco, é tolerância zero. Por isso, nós estamos em um caminho muito importante, com trabalho acelerado de uma comissão para tratar da tutela de menores, exatamente para orientar procedimentos jurídicos e canônicos, de como fazer em cada diocese, o passo a passo. E, ao mesmo tempo, tratando, ouvindo e apoiando vítimas, para que a Justiça seja feita e a recuperação e o alento às pessoas que sofreram — e que, para nós, é lamentável — possam ter, de nossa parte, uma presença solidária. É uma aposta de recompor vidas e corações, que é uma tarefa muito importante, porque, para a Igreja, nada é mais importante, na sua missão, do que cada pessoa, cada homem, cada mulher, a humanidade como um todo. Por isso, tolerância zero. E nós estamos trabalhando. Esperamos concluir um trabalho acelerado, da mais alta importância, para que nós possamos agir em um horizonte das orientações e das determinações que nos vêm do papa Francisco.



“Evangelizar o Brasil, cada vez mais, (...) anunciando o Evangelho, à luz da opção preferencial pelos pobres, formando discípulos e cuidando da casa do Senhor. Esse é o grande horizonte do nosso trabalho”


“Muitas reformas precisam acontecer. Aliás, a nossa vida só vai adiante quando nós nos dispomos a fazer reformas para dar as respostas aos novos tempos”


“A Igreja é uma casa de portas abertas para todos os seus filhos e filhas, desde aquele que está fortalecido, aquele que tem condições de uma resposta mais próxima do que o Evangelho nos pede, até aqueles que estão caídos”


“Quando se trata de abuso de menores (...), para nós, na Igreja, em sintonia profunda com o papa Francisco, é tolerância zero”


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