“As mulheres têm um lado diferente, mais humano, talvez mais paciente, talvez mais flexível, como diplomatas, de alcançar os objetivos, de negociar”
Por sara De Melo Rocha - Agência Onu News Brasil - 24/07/2026 11:44:16 | Foto: ONU News/ Sara de Melo Rocha Ana Martinho foi uma das primeiras mulheres a ingressar na profissão de diplomata em Portugal, após a Revolução dos Cravos
Ana Martinho foi uma das primeiras mulheres a entrar para a carreira no país europeu após a Revolução dos Cravos; A ONU News conversou com a embaixadora sobre o Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia, neste 24 de junho, e a receita que ela tem para as aspirantes ao posto.
ONU News – Iniciou a sua carreira diplomática pouco depois do 25 de Abril - uma das conquistas da Revolução dos Cravos - numa altura em que a presença feminina na diplomacia era inexistente. Como foi esse percurso?
Ana Martinho - Cheguei a advogar mas, a certa altura, a carreira aqui em Portugal abriu para as mulheres com a Revolução e, eu confesso, que foi completamente por acaso que eu estava a advogar e pensei assim: bom, vou experimentar, é uma porta que se abre, eu vou experimentar, vou ver o que é que é. E, de facto, lembro-me de pôr uma condição: só faço se as provas não forem mais difíceis do que as de Direito, porque os exames de Direito eram um autêntico pesadelo. A verdade é que o concurso para o Ministério é muito, muito puxado, mas entrei e depois fui ficando.
ON – Como foi esse processo e quais os desafios que as mulheres diplomatas encontraram?
Fomos muito bem recebidas, eu fui muito bem recebida. Acho que não houve qualquer resistência nesse sentido. Houve uma evolução natural, uma integração natural. O trabalho das mulheres foi, obviamente, apreciado, isso é inegável. Não houve: “não faz isto porque é mulher”. Não, não houve, acho que não houve e, portanto, tenho que ser justa, acho que aí não houve verdadeiramente uma discriminação.
As diferenças põem-se realmente na maneira como as mulheres fazem as coisas, que é uma forma de viver, de exercer diplomacia que é um bocadinho diferente e que tem a ver com a nossa natureza feminina, mais nada.
E, portanto, os recrutamentos das mulheres foram seguindo, as mulheres foram entrando. A certa altura havia um número relativamente equilibrado e até lugares de chefia que foram atribuídos às mulheres e chefias de missões. Isso era também uma questão, por exemplo, embaixador em Washington não ser sempre só um homem. Essa parte aí tem-se vindo a diluir muito, as mulheres têm tido lugares tanto internamente como no exterior. Agora, por exemplo, as quatro diretoras-gerais do Ministério são mulheres.
ON - Como foi o seu percurso inicial?
AM - Eu fiquei bastante tempo em Lisboa. Fiquei quatro anos, fiz o percurso todo nos serviços em Lisboa e depois abriu uma vaga em Nova Iorque e eu fui para a missão junto da representação de Portugal junto das Nações Unidas.
ON - O que mais a marcou nessa primeira experiência internacional?
AM - É uma maneira de estar. Eu acabei por ser uma multilateralista e embora o multilateralismo agora, como se sabe, está ameaçado, está em causa e, muitas vezes, por bons motivos e com razão, mas continuo a ser uma multilateralista e acho que o multilateralismo realmente é a forma de resolver problemas que a todos dizem respeito, a nível da humanidade, a nível global.
E, portanto, a Carta das Nações Unidas é alguma coisa sagrada. Vai ser muito difícil termos uma estrutura internacional do ponto de vista de valores, de princípios, de ética, de mecanismos a funcionar que substitua as Nações Unidas. São para manter, são para acreditar os direitos humanos.
Agora, há necessidade de uma reforma que se não for feita, como não foi até aqui, acaba por ser um pouco imposta. Mas o multilateralismo, no fundo, funciona depois de uma forma também flexível e isso foi uma forma como eu sempre vi o multilateralismo - sob o grande arco das Nações Unidas, mas organizando-se em termos regionais, em termos de interesses, em termos mais específicos, em termos alternativos.
E, portanto, marcou-me nesse sentido. Portugal também estava nessa altura a arrancar para um posicionamento no mundo que era completamente diferente, visto que também éramos muito bons exemplos, ficámos na moda, fomos praticamente diretamente para o Conselho de Segurança. Esse foi o nosso primeiro mandato como membro.
Depois tudo se misturou porque, no fundo, também estávamos a entrar nas Nações Unidas que tinham vivido um período que tinha sido o da descolonização, onde o número de membros e a descolonização tinham tido um impacto muito grande. Acho que Portugal entrou logo nesse mundo com uma posição natural sua, cuja função naquele quadro multilateral foi sempre positiva por Portugal não ter, no fundo, uma agenda de poder, sendo um construtor de pontes, encontrar no exterior um eco que nós, aqui dentro e cá dentro, não temos tanta noção.
É um mundo, ao mesmo tempo, muito favorável para Portugal, onde a política externa portuguesa se pode desenvolver, expandir, deixando um rastro que é positivo. Não é que tudo seja positivo, mas muitas coisas são.
Nós conseguimos uma série de equilíbrios permanentes em que nós somos pró-ativos na busca desses equilíbrios. Acho que talvez tenhamos conseguido prestar, muito discretamente, alguns serviços à paz, ao mundo.
ON - Ao longo do seu percurso, passou por diversos contextos multilaterais e bilaterais. Quais foram os postos mais desafiantes?
Todos eles foram diferentes.
Eu não passei por nenhum posto em África, na Ásia e até tenho alguma pena disso. Mas o que eu tive foram sempre postos muito trabalhosos e, desse ponto de vista, muito exigentes.
Eu fiz um posto muito longo em Nova Iorque. Fui com o meu marido e um filho, voltei com dois filhos e meu marido, e depois ficamos 15 anos em Lisboa, o que não significou de maneira nenhuma que tenha sido fácil.
Foram anos muito exigentes. Foram anos de responsabilidade em que eu tive que desenvolver muito o meu lado de serviço público, de ser um serviço de representação do Estado, daquilo que é português.
Quinze anos é muito tempo. Do ponto de vista familiar foi bom, porque quando eu saí os meus filhos já eram jovens adultos, mas adultos. E eu saí como embaixadora para Paris, para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, Ocde.
Depois disso, a minha vida acelerou-se imenso. Estive na Ocde mas, rapidamente, fui para Praga, que foi a minha experiência bilateral principal, porque só tornei a ter outra.
Depois de Praga, tive outro desafio que para mim foi irrecusável. O presidente da Comissão Europeia, o Dr. Durão Barroso, desafiou-me para ir para o gabinete dele para Bruxelas, e eu achei que era irrecusável e fui.
Tive cinco anos em Bruxelas, não fiz o segundo mandato, porque o Ministério também me queria de volta.
Então, fui para Viena, onde fiz tudo. Fiz a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, Osce, fiz as Nações Unidas, que é um mundo enorme em Viena, fui governadora da Agência Internacional de Energia Atómica, Aiea e depois voltei para a Secretária-Geral do Ministério.
Tudo isto foi muito exigente do ponto de vista de trabalho, mas devo dizer que sempre feito com muito gosto, sempre correspondido com muito gosto por mim, tanto quanto pude, fazer sempre o melhor possível.
Depois fui Secretária-Geral do Ministério e, ao mesmo tempo, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, portanto, dois lugares bastante diferentes.
Daí fui ainda assessora para as relações internacionais do Presidente da República, Marcelo, não acompanhei o seu mandato, e recomecei a minha reformulação.
ON - Na sua perspetiva, existe um perfil próprio da diplomacia portuguesa? O que distingue a forma como Portugal faz diplomacia em comparação com outros países?
AM - São fiáveis, são flexíveis, e realmente, acho que o perfil do diplomata ou da diplomata portuguesa passa um bocadinho por aí, mas tem sempre uma marca humana de cada um de nós.
E, portanto, aquilo que é mais importante é sermos quem somos, e tentarmos adaptar essa forma ao trabalho que temos que fazer. E mais, agora, a evolução e a rapidez das mudanças têm sido de tal ordem que é muito importante ter essa capacidade de adaptação. E uma coisa que para mim é sempre fundamental é continuar a aprender, sempre numa posição de aprender, aliás, faz parte do meu programa de reformulação.
O perfil dos diplomatas portugueses é um bocadinho isso, mas é muito diversificado e tem muito a ver com preparação ou a especialização. Os diplomatas portugueses têm que fazer tudo, têm que saber tudo, mas uma especialização propriamente não é possível.
Temos que ser enciclopédicos e agora enciclopédicos digitais. Já não é a Britannica, nem Larousse, é mesmo digital.
Acho que a carreira tem evoluído muito bem nesse sentido, tem sempre continuado a adaptar-se vimos agora, com mais esta campanha bem sucedida para o Conselho de Segurança, que foi feita nesses moldes, numa agenda sempre positiva, numa agenda em que não se atacam os outros.
Eu talvez insista um bocadinho mais nesse ponto, mas é verdade que é isso que resulta do perfil da diplomacia portuguesa. E a continuidade, a estabilidade, que corresponde um bocadinho à maneira de ser dos portugueses.
No fundo, os governos, os programas de governo, os presidentes da república, seguem esta política externa, estes programas, estas linhas gerais, estas linhas mestras, porque elas são aquilo que Portugal é.
ON –Há alguma história dos bastidores da sua carreira diplomática que gostasse de partilhar?
AM – Lembro-me de umas negociações num país em que havia um acordo que era muito importante ser assinado e que tinha sido muito negociado e estava quase a ser assinado. De repente, nem eu própria percebi muito bem o que é que aconteceu, mas aquilo desfez-se tudo, a mesa com o acordo desapareceu, as pessoas que iam assinar desapareceram. Eu pensei assim, isto não está a acontecer, isto vai acontecer! E lembro-me que conseguimos, foi simplesmente repor as coisas nos seus lugares e o acordo foi assinado.
ON - Olhando para o futuro, como imagina que a diplomacia evoluirá nos próximos anos?
AM - Tem sido tão rápida a evolução, eu sempre defendi que temos que estar abertos à mudança, porque ela vem. E quando nós a queremos, ela vem. Acho que tem havido uma grande aceleração e estamos a viver uma mudança de era. É uma mudança profunda, estruturante e que toca muito na multilateral, visto que também estou a falar com o canal das Nações Unidas e que as Nações Unidas, embora sejam muito neste momento penalizadas, procuraram fazer o seu trabalho de atualização.
A Agenda 2030 passou a ser já toda uma comunidade para o futuro, uma conferência para o futuro, digital, gerações mais novas, tudo isso são preocupações para além, claro, daquelas que são as próprias das Nações Unidas, que é a defesa da paz, o progresso, o clima.
Mas aquilo que eu vejo é que há de facto, neste momento, uma polarização em que as Nações Unidas têm dificuldade em encontrar-se. Mas não é isso que deve fazer as Nações Unidas desistir ou que deve fazer as Nações Unidas não continuar a fazer o seu trabalho, porque essa polarização, eu estou convencida, vai acabar através de esforços positivos e de conseguir responder àquilo que são as dificuldades que as pessoas sentem e, por isso, são tão certas para radicalizações, polarizações, desinformação, toda essa área mexeu completamente.
Agora é uma questão também da Humanidade. A Humanidade tem que viver para frente, tem que se ajustar, e a Humanidade é cada vez mais pequenina e, nesse sentido, cada vez mais una, embora esteja tão dividida com as religiões, com as civilizações. Também vejo muitos caminhos a abrirem-se para haver um reencontro.
ON - Porque é importante ter mulheres na diplomacia?
AM - Metade da população do mundo são mulheres. Essa é a melhor resposta que se pode dar. É evidente que as mulheres têm que ter um lugar em todas as áreas, não há áreas exclusivas, exceto ser mãe, digamos assim, e os homens também têm muito essa função, cada vez mais. As mulheres têm um lado diferente, mais humano, talvez mais paciente, talvez mais flexível, como diplomatas, de alcançar os objetivos, de negociar, de exercer as funções dessa forma.
ON - Que conselhos deixaria a jovens, sobretudo mulheres, que queiram seguir a carreira diplomática?
Entrem e façam o melhor que sabem e sejam vocês próprias, essa é a parte mais importante. E nunca pensar que a experiência é um valor fantástico, porque a experiência pode ser uma ratoeira. Ser sempre curioso, querer sempre aprender e pensar também que a perfeição é um caminho. E, portanto, é preciso corrigir, ir fazendo tudo o melhor que se pode e voltar atrás e ser persistente até se conseguir os nossos objetivos.
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