Após ser chamado de fraco, papa reage e diz que não tem medo de Donald Trump

Quem é Louis, o irmão do papa Leão 14 de que Trump diz gostar mais

Após ser chamado de fraco, papa reage e diz que não tem medo de Donald Trump
Após ser chamado de fraco, papa reage e diz que não tem medo de Donald Trump

Michele Oliveira-milão, Itália Folhapress) - 13/04/2026 10:38:38 | Foto: Divulgação Vatican News

Depois de semanas de crescente tensão entre o papa Leão 14 e Donald Trump, as críticas de um para o outro deixaram o campo das indiretas e se tornaram um bate-boca à distância. Após ser chamado, na noite de domingo (12), de "terrível" e "fraco" pelo presidente dos Estados Unidos, o pontífice respondeu na manhã desta segunda (13).

"Não tenho medo da administração Trump. Vou continuar a falar em voz alta da mensagem do Evangelho", disse.

Esse é o mais explícito confronto entre os dois desde que Robert Prevost foi eleito papa, em maio do ano passado, o primeiro norte-americano da história a liderar a Igreja Católica.

A declaração de Leão 14 foi dada a jornalistas durante o voo de Roma para Argel, capital da Argélia, primeira etapa da sua viagem de dez dias pelo continente africano.

"Não sou um político, não quero entrar em debate com ele", disse em referência a Trump. "Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser abusada como alguns estão fazendo. Eu vou continuar a falar forte contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções", disse o papa.

"Muita gente está sofrendo hoje, muitos inocentes foram mortos e penso que alguém deve se levantar e dizer que existe uma via melhor", afirmou Leão 14.

Horas antes, Trump havia publicado em sua rede social uma longa mensagem em que chamou o papa de "fraco com a criminalidade e terrível para a política externa". "Não quero um papa que ache que é OK o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que pense que é terrível que os EUA ataquem a Venezuela", escreveu.

O presidente disse ainda que Leão 14 deveria ser grato por, segundo ele, ter sido escolhido como papa somente por ter nascido nos EUA. "Eles [a Igreja] acharam que seria o melhor modo de lidar com o presidente Donald J. Trump."
O republicano também publicou uma imagem gerada por Inteligência Artifical em que aparece com roupas que remetem a Jesus, com a bandeira dos EUA ao fundo.

O ataque é considerado sem precedentes no passado recente. Apesar de críticas de Francisco à política imigratória do primeiro governo de Trump, em especial a construção do muro na fronteira com o México, e de João Paulo 2o à invasão de George W. Bush ao Iraque, nunca um papa havia sido alvo de palavras tão duras de um presidente americano.

Mais tarde, Trump lançou outra provocação, ao publicar uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece vestido como se fosse Jesus com a mão apoiada sobre a testa de um homem aparentemente doente.

As ofensas a Leão 14 acontecem depois de semanas de apelos do papa pelo fim do conflito no Irã promovido pelos EUA e por Israel. No sábado, comandou uma vigília na Basílica de São Pedro, em que condenou o uso de linguajar religioso para justificar a guerra. "A ilusão de onipotência que nos rodeia está se tornando cada vez mais imprevisível", disse.

Na véspera, afirmara que "Deus não abençoa nenhum conflito" e que "discípulos de Cristo jamais se aliam àqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas".

Também na semana passada, Prevost havia sugerido que os cidadãos, sem nomear de qual país, pressionassem "congressistas" e "autoridades", comunicando a eles que desejavam a paz.

Nos últimos dias, foi revelado ainda que, em encontro ocorrido no Pentágono em janeiro, o Vaticano teria sido pressionado, por meio de seu embaixador no país, a se alinhar às políticas militares dos EUA. Segundo o site The Free Press, teria sido feita uma referência ao papado de Avinhão, onde, no século 14, o rei da França teve um "antipapa" em oposição a Roma. O Pentágono afirmou que se tratou apenas de uma discussão "respeitosa".

Na Itália, os ataques de Trump ao papa foram seguidos de notas de apoio divulgadas pelo presidente da República, Sergio Mattarella, e a primeira-ministra Giorgia Meloni. Oficialmente, as mensagens foram em razão da viagem ao continente africano.

"Em meu nome e do governo italiano, desejo transmitir ao papa Leão 14 meu agradecimento e votos de sucesso para o bom êxito da sua viagem. Que o ministério do Santo Padre possa favorecer a resolução de conflitos e a volta da paz, interna e entre as nações", escreveu Meloni no Instagram, com uma foto sua com o papa.

Ela, que se apresentou como aliada assim que Trump voltou à Casa Branca e possível intermediadora entre EUA e União Europeia, tem sido menos explícita no apoio ao presidente americano nas últimas semanas.

A Conferência Episcopal Italiana, equivalente à brasileira CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), condenou as palavras de Trump. "Lembramos que o papa não é um adversário político, mas o sucessor de Pedro", disse em nota. "Em um tempo marcado por conflitos e tensões internacionais, a sua voz representa um apelo exigente à dignidade humana, ao diálogo e à responsabilidade."

Quem é Louis, o irmão do papa Leão 14 de que Trump diz gostar mais

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A troca de críticas entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o papa Leão 14 trouxe para o centro do debate um personagem inesperado: Louis Prevost, irmão do pontífice. Ao atacar o líder da Igreja Católica nas redes sociais, Trump disse que prefere Louis, elogiando seu alinhamento ao movimento MAGA ("Make America Great Again"), slogan político do republicano.

Nascido em 1951, Louis Martín Prevost é o irmão mais velho de Robert Prevost, cardeal norte-americano que se tornou o papa Leão 14 em 2025. Natural de Chicago, ele cresceu na mesma família que o pontífice ao lado de outro irmão, John.

Prevost é veterano da Marinha dos Estados Unidos e posteriormente trabalhou na área de tecnologia da computação. Atualmente vive na Flórida, onde mantém uma vida relativamente discreta fora do ambiente religioso.

Apesar de não ocupar nenhum cargo na Igreja Católica, Louis ganhou notoriedade após a eleição do irmão como papa. Passou a ser frequentemente citado pela imprensa internacional por suas posições políticas conservadoras e apoio aberto a Donald Trump.

Publicações antigas de uma conta de Facebook ligada a Louis Prevost mostram manifestações de apoio ao presidente americano e ao vice-presidente JD Vance. Em um dos posts, ele elogiou a atuação de Vance em um debate eleitoral e afirmou que ele poderia se tornar um "grande vice-presidente e depois um grande presidente".

Louis Prevost também já expressou apoio a Trump após episódios políticos envolvendo o ex-presidente. Em uma publicação, chegou a pedir proteção divina para o republicano após uma tentativa de ataque político.

No último sábado (11), o irmão do papa compartilhou um texto que critica a esquerda. "Um artigo bem escrito que expõe a hipocrisia da esquerda e seu desejo insano de proteger seus planos e destruir Trump", escreveu em seu Facebook.

Quando seu irmão foi eleito papa, Louis comentou a postura inclusiva de papa Francisco em relação a católicos LGBTQ+. Ao ABC News, ele opinou que Francisco era "um pouco mais liberal com os transexuais e os homossexuais e coisas do tipo".

Por causa desse posicionamento, Trump costuma citar Louis de forma elogiosa. O líder norte-americano o descreve como um "grande MAGA guy", referência ao movimento político associado ao slogan "Make America Great Again". A afinidade política entre os dois acabou aproximando Louis Prevost do entorno político de Trump.

O presidente dos Estados Unidos publicou críticas ao pontífice em sua rede social, Truth Social. Ele afirmou que o líder da Igreja Católica seria "fraco no combate ao crime" e "péssimo em política externa".

O conflito entre os dois líderes tem origem em divergências sobre temas internacionais. O papa tem criticado posições do governo americano relacionadas a guerras, imigração e política externa, enquanto Trump respondeu com ataques públicos ao pontífice.

Presidente dos EUA também disse que não quer um papa que considere aceitável o Irã ter uma arma nuclear. "Eu não quero um 'papa que ache tudo bem o Irã ter uma arma nuclear'", escreveu.

Em outro trecho, Trump atribuiu a eleição do papa à sua própria presença na Casa Branca. "Leão deveria ser grato porque, como todos sabem, ele foi uma surpresa chocante. Ele não estava em nenhuma lista para ser papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano."
Apelo do papa por cessar-fogo. Mais cedo, o papa disse sentir-se próximo do "amado povo libanês" e pediu um cessar-fogo. O apelo ocorreu com o conflito no Oriente Médio entrando em sua sétima semana. O pontífice também pediu o fim dos combates no Sudão. As declarações ocorreram antes da postagem de Trump com críticas ao papa.

O outro irmão do papa, John Prevost, se manifestou sobre o assunto. Em entrevista ao New York Times, ele afirmou que o pontífice não está satisfeito com o rumo das políticas migratórias atuais e que dificilmente permanecerá em silêncio diante do tema.

Após as críticas a Leão 14, Trump publicou uma ilustração onde aparece representado como Jesus Cristo. Na imagem, publicada na plataforma Truth Social, o republicano aparece vestido com uma túnica branca e vermelha enquanto estende as mãos sobre um homem deitado, que aparenta estar doente. Das mãos de Trump emana uma luz divina. A cena também mostra uma enfermeira, um militar e outras pessoas ao redor em postura de reverência. Ao fundo, aparecem símbolos dos Estados Unidos, como a bandeira do país e a Estátua da Liberdade.

Papa Leão 14 viajará a quatro países da África nos próximos dez dias

MARINA COSTA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O papa Leão 14 começa nesta segunda-feira (13) um roteiro por quatro países da África. Nos próximos dez dias, o religioso percorrerá quase 18 mil quilômetros para participar de compromissos em 11 cidades da Argélia –onde desembarca por volta das 6h no horário de Brasília–, de Angola, de Camarões e da Guiné Equatorial.

Será a primeira vez que a Argélia, cuja religião oficial é o islamismo, seguido por 99% dos cerca de 48 milhões de habitantes, receberá a visita de um papa. Embora a liberdade de culto seja prevista na Constituição argelina, as organizações de direitos humanos Humans Rights Watch, EuroMed Rights e Mena Rights Group pediram que o pontífice aborde a repressão às minorias religiosas do país.

Católicos posam para fotos ao lado de um cartaz de boas-vindas ao papa Leão 14 antes de sua visita à Um dos objetivos de Leão 14 é levar uma mensagem de diálogo e de convivência pacífica entre o islã e o cristianismo. Após reunir-se com o presidente argelino, Abdelmadjid Tebboune, o religioso visitará a Grande Mesquita de Argel, a maior do continente africano. Depois, participará de um encontro com a comunidade católica na catedral Notre-Dame d'Afrique.

A ida à nação do norte africano também tem significado pessoal para Leão 14. O papa celebrará uma missa na cidade de Annaba, onde viveu santo Agostinho, na terça-feira (14). O americano, integrante da ordem agostiniana do catolicismo desde 1977, se apresentou como um "filho de santo Agostinho" em seu primeiro discurso como pontífice, em 8 de maio de 2025.

À agência de notícias AFP, o padre Fred Wekesa, líder da basílica de Santo Agostinho em Annaba, afirmou que a visita de Leão 14 é um "momento profundamente significativo" que dará à comunidade uma "mensagem de ânimo e solidariedade". "Com a visita do Santo Padre, o mundo inteiro verá a hospitalidade e a generosidade do povo argelino", disse.

O papa segue para Iaundé, capital de Camarões, na quarta-feira (15). Cerca de 37% dos quase 30 milhões de habitantes do Camarões são católicos, e a Igreja administra hospitais, escolas e obras de caridade na nação da África central. Será a quarta visita de um pontífice ao país –a última ocorreu em 2009, pelo então papa Bento 16, e ficou marcada por polêmica.

Quando questionado se a proibição do uso de preservativos por católicos poderia ser flexibilizada para ajudar a combater a transmissão do HIV, Bento disse que permitir "aumentaria o problema", o que provocou indignação internacional diante de 22,5 milhões de pessoas no continente africano vivendo com o vírus na época.

Leão 14 será recebido pelo presidente mais velho do mundo, Paul Biya, 93, católico que governa Camarões há mais de quatro décadas. Além de celebrar missas no estádio de Douala, capital econômica do país, e em Iaundé, o papa deve discursar e rezar, na quinta-feira (16), na Catedral de São José, na cidade de Bamenda.

Localizada na região norte da nação, assolada há anos pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram, Bamenda é o epicentro de conflitos armados entre forças governamentais e movimentos separatistas que acontecem há quase uma década e provocam mortes e deslocamentos forçados.

No sábado (18), o pontífice encontrará João Lourenço, presidente de Angola, nação em que pretende abordar desigualdade, corrupção e gestão equitativa de recursos. O país é um dos principais produtores de petróleo da África subsaariana, mas um terço da população de 39 milhões de pessoas –das quais 44% se declaram católicas– vive com menos de US$ 2,15 (R$ 10,80) por dia, segundo o Banco Mundial.

Já a Guiné Equatorial, para onde o papa Leão 14 seguirá no dia 21 de abril (terça-feira), recebeu um pontífice pela primeira e última vez em 1982, quando João Paulo 2º esteve no país -nesta época, já governado por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, o ditador mais longevo em exercício do mundo, no poder desde 1979.

Cerca de 80% da população de quase 2 milhões de habitantes se identifica como católica. Na nação da costa oeste do continente africano, um dos desafios do religioso será não passar a impressão de que apoia o regime –que estaria recebendo, segundo a agência Reuters, pessoas deportadas pelo governo de Donald Trump.

Autoridades do Vaticano e líderes da Igreja Católica na África afirmam que o roteiro pelos quatro países é uma prioridade pessoal para o papa Leão 14, que retorna a Roma no dia 23 de abril (quinta-feira), e representa o valor atribuído ao continente onde o catolicismo mais cresce e onde vivem mais de 20% dos católicos do mundo, segundo o Vaticano.

"Ao ir à África tão cedo em seu pontificado, o papa mostra que a África importa", disse à Reuters o cardeal Michael Czerny, alto funcionário do Vaticano e conselheiro próximo do pontífice que afirma que o religioso tem a missão de "ajudar a voltar a atenção do mundo para a África".

Neste domingo (12), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou o papa Leão 14, chamando-o de "frouxo" em relação ao crime e "terrível" para a política externa, após o líder religioso criticar as políticas de imigração e externa do republicano.

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