'Ainda não processei o que fizemos', diz piloto da Artemis 2 após voltar da Lua

Pôr da Terra, eclipse, homenagem e Nutella: confira momentos-chave e outros curiosos da Artemis 2

'Ainda não processei o que fizemos', diz piloto da Artemis 2 após voltar da Lua
'Ainda não processei o que fizemos', diz piloto da Artemis 2 após voltar da Lua

Phillippe Watanabe Bogotá, Colômbia (folhapress) - 11/04/2026 21:49:38 | Foto: Divulgação NASA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Menos de 24 horas após concluírem a primeira missão tripulada à Lua no século, os astronautas da Artemis 2 participaram de um evento de boas-vindas em Houston, no Texas. O quarteto riu e emocionou-se. E, ao menos um deles, disse ainda não ter processado o feito que alcançaram.

Os americanos Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e o canadense Jeremy Hansen, 50, tornaram-se os humanos a viajar mais longe da Terra.

"Não faço ideia do que dizer", afirmou logo no início Wiseman. "Estamos conectados para sempre e ninguém aqui vai ter ideia do que passamos juntos."
Em seguida, ele comentou não ser fácil ficar longe de casa, a milhares de quilômetros de distância. "Antes do lançamento, a sensação é que aquilo é o maior sonho do mundo. Mas, quando você está lá, só quer voltar para sua família e amigos", disse o comandante da Artemis 2, emocionado. "Ser humano é algo especial, assim como estar na Terra."
"Ainda não processei o que fizemos", afirmou em seguida Glover. O piloto da missão, então, agradeceu a Deus e disse ser grato por ter tido a oportunidade de ir ao espaço.

A próxima a assumir o microfone foi Koch. A especialista de missão, a primeira mulher a participar de uma jornada lunar, disse não ter conseguido dormir neste sábado (11).

"O que me impressionou não foi necessariamente a Terra, e sim toda a escuridão no entorno. A Terra é apenas um bote salva-vidas flutuando imperturbável no Universo", afirmou ela.

"Planeta Terra, você é uma tripulação", emendou ela em seguida, fazendo uma referência ao significado que deu para a palavra tripulação no início de seu discurso –um grupo unido e com o mesmo propósito, disposto a se sacrificar um pelo outro.

O último a falar, Hansen brincou que era o mais distante –a poucos passos no palco– que estava de Wiseman há muito tempo –o comandante da Artemis 2 levantou-se e caminhou até o canadense e se sentou ao lado dele, arrancando risos do público presente na sala em Houston.

"Vocês não têm ouvido muito a gente falar sobre ciência, sobre o que aprendemos. Isso é porque ela está lá e é incrível", disse Hansen. "Mas é a experiência humana que é extraordinária para nós", acrescentou.

Em meio a políticos, funcionários da Nasa e familiares dos astronautas na plateia, estava o bilionário Jeff Bezos, fundador da Blue Origin. A empresa desenvolve para a Nasa um dos dois módulos lunares a serem usados para pousar na Lua. O outro está nas mãos da SpaceX, de Elon Musk.

O plano da Nasa é testar os módulos na Artemis 3, prevista para 2027. Essa missão consistirá em um voo em órbita baixa da Terra com astronautas a bordo da cápsula Orion, que deve se acoplar a um dos módulos –ou a ambos.

Nasa diz que viagem da Artemis 2 à Lua abre uma nova era de exploração espacial

"Este é o começo de uma nova era da exploração espacial humana", afirmou Howard Hu, gerente do programa Orion na Nasa, a nave tripulada que levou os astronautas da missão Artemis 2 à Lua, durante entrevista coletiva após o pouso bem-sucedido da cápsula nas águas do Pacífico na noite desta sexta-feira (10). "Nós vamos ter vários desses momentos a partir de agora."
A fala de Hu -apreciando o momento atual, mas já mostrando foco no que vem a seguir em missões espaciais- captura o espírito e as falas de todos os representantes da Nasa presentes na entrevista coletiva que marcou o sucesso da Artemis 2. A missão que acaba de ser concluída também foi lembrada como um voo de teste.

O olhar para o futuro próximo ficou claro quando uma pergunta sobre a Artemis 3 foi respondida, sem muitos rodeios.

Amit Kshatriya, administrador-associado da Nasa, foi direto ao falar que, em breve, a tripulação da Artemis 3 será anunciada. "Não vou colocar números, mas em breve", disse.

O plano para essa missão é testar os módulos de pouso lunar em um voo em órbita baixa da Terra.

Tanto a SpaceX, de Elon Musk, quanto a Blue Origin, de Jeff Bezos, estão desenvolvendo módulos para o programa Artemis, em uma disputa para ver qual empresa será a primeira a realizar o pouso na Lua para a Nasa.

A missão atualizada da Artemis 3 envolverá a Orion, com astronautas a bordo, demonstrando a capacidade da cápsula de acoplar com um ou ambos os módulos de pouso em órbita baixa da Terra. O processo é uma etapa crucial no caminho da agência até a Lua.

Já para 2028 está programada a Artemis 4, na qual a Nasa espera recolocar humanos sobre o solo lunar.

"O caminho para a superfície lunar está aberto", afirmou Kshatriya. "O trabalho daqui para frente é maior do que o que ficou para trás. Sempre será. Cinquenta e três anos atrás a humanidade deixou a Lua. Dessa vez nós voltamos para ficar."
Quando questionado sobre o principal desafio para que a empreitada atual não termine como terminaram as missões Apollo –que começaram em meio a uma corrida espacial, mas que não tiveram, necessariamente, uma continuidade em relação à Lua–, Kshatriya afirmou: "Os arquitetos da Apollo queriam aprender a trabalhar e viver no espaço por um longo tempo. Mas, por causa da natureza do ambiente em que estavam, em uma corrida. Eles atingiram seus objetivos geopolíticos e tecnológicos. Mas, uma vez que estava feito, acabou."
Segundo Kshatriya, o que se queria construir lá atrás foi feito na sequência, como a partir da contínua presença de pessoas na órbita terrestre, na ISS (Estação Espacial Internacional) por mais de duas décadas.

"É uma estranha ironia da história ter levado tanto tempo para conseguirmos fazer isso. Mas não ficamos parados. Desenvolvemos as capacidades para ter uma presença duradoura no espaço. E agora vamos aproveitar isso, agora que voltamos à Lua", afirmou Kshatriya.

Um dos jornalistas que participaram da entrevista coletiva pediu que os representantes da Nasa escolhessem seus momentos favoritos da missão.

Shawn Quinn, gerente do Programa de Sistemas Terrestres de Exploração, escolheu o lançamento do foguete SLS, que deu início à missão, em 1º de abril, em Cabo Canaveral, na Flórida.

Hu disse que a abertura dos paraquedas, considerando as velocidades envolvidas. "Eu estava falando comigo mesmo 'vai, vai vai'. Me filmaram fazendo isso, achando que eu estava louco."
Rick Henfling, diretor de voo de reentrada da Artemis 2, afirmou que a sugestão de nomes para duas crateras foi seu momento favorito. Esse foi um ponto particularmente emocionante na missão, levando os astronautas às lágrimas. Isso porque a tripulação sugeriu que uma das crateras seja batizada de Carroll, nome da esposa de Reid Wiseman, comandante da Artemis 2. Ela morreu em 2020.

"Quando eles responderam, depois da amerissagem: 'quatro tripulantes verdes [fala de Wiseman, que significa que todos na nave estavam bem]'. E quando vimos Christina [Koch] saindo da cápsula", disse Lori Glaze, diretoria de Missão de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, sobre seus momentos favoritos.

"O meu é fácil. Vai ser amanhã quando eu encontrar meus amigos de novo", afirmou Kshatriya, possivelmente se referindo aos astronautas -durante a entrevista coletiva, ele havia reforçado a importância de trazer a tripulação de volta em segurança.

Pôr da Terra, eclipse, homenagem e Nutella: confira momentos-chave e outros curiosos da Artemis 2

PHILLIPPE WATANABE-BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Uma pelúcia de Lua flutuando. Cookies comidos no lado escondido do satélite natural da Terra. A única privada da missão lunar com defeito. Uma Nutella flutuando em meio a astronautas trabalhando. Uma emocionada homenagem. E olhos humanos vendo um eclipse solar direto do espaço.

Os americanos Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e o canadense Jeremy Hansen, 50 voltaram à Terra nesta sexta-feira (10). Eles contornaram a Lua e se tornaram os humanos a viajar mais longe da Terra.

E também fizeram história ao participar da primeira missão a levar humanos ao redor da Lua neste século.

Veja a seguir alguns dos principais momentos e outros curiosos da missão do quarteto, agora de volta ao planeta.

*
Lançamento da histórica missão
Após um considerável atraso, a missão com Wiseman, Glover, Koch e Hansen decolou, com sucesso, em 1º de abril de 2026. Eles partiram de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA).

Rastro da missão
Um rastro em zigue-zague logo acima da Terra foi o sinal deixado pela Artemis 2. Ele foi visto e registrado pelo americano Chris Williams, que passa uma temporada na ISS (Estação Espacial Internacional). Ele só não teve a sorte de ver a nave.

Diferenças políticas, mas concordância quanto ao espaço sideral
Pesquisa da Reuters/Ipsos durante a Artemis 2 mostra que 69% dos americanos disseram estar empolgados com a exploração espacial e aproximadamente 80% têm visão favorável da Nasa, incluindo grandes maiorias tanto de republicanos quanto de democratas.

Pessoas se reúnem no dia do lançamento da missão Artemis 2, em Titusville, Flórida, nos EUA Marco Bello
Terra, redonda como sempre
Uma olhadela para trás, no caminho para a Lua, proprocionou visões como esta para os astronautas da Artemis 2.

A Terra em registro feito a partir da cápsula Orion, da missão Artemis 2 Nasa no X Imagem da Terra vista do espaço mostrando a Austrália em destaque à esquerda, com nuvens dispersas sobre os oceanos e continentes visíveis. Fundo preto do espaço circunda o planeta. Imagem pequena **
Uma pelúcia no espaço
Um pequeno bichinho de pelúcia, criado por uma criança, acompanhou os astronautas durante a missão e as conversas, ao vivo, que tiveram com a Terra. Era o sempre sorridente Rise.

Morcego na Orion
Wiseman brincou que Koch dormiu, na viagem, "de cabeça para baixo no meio do veículo, tipo um morcego pendurado no nosso túnel de acoplamento". Koch lembrou, porém, que não existe teto ou chão no espaço.

Missão Nutella?
O que em um filme ou uma postagem em rede social poderia ser uma inserção publicitária, na nave da Artemis 2 era apenas um dos itens do cardápio dos astronautas. Durante a transmissão da missão, um pote de Nutella pôde ser visto flutuando ao lado da tripulação. Assim como na Terra, um docinho sempre vai bem.

'Pôr da Terra'
William Anders, da Apollo 8, fez a famosa foto "Earthrise" (nascer da Terra) em dezembro de 1968, na véspera do Natal. Após 57 anos, a tripulação da Artemis 2 apresentou a foto "Earthset" (pôr da Terra).

Uma cratera lunar chamada Carroll
A esposa de Wiseman, Carroll Taylor Wiseman, morreu em 2020. Como homenagem, a tripulação da Artemis 2 indicou uma cratera, que puderam ver ao se aproximar da Lua, para receber o nome Carroll. A situação levou a um momento emocionante durante a missão.

Apagão
Ao dar a volta na Lua, a Artemis 2 ficou cerca de 40 minutos sem contato com a Terra. A missão levou os astronautas para o mais longe da Terra que uma pessoa já foi.

Terra parcialmente obstruída pela Lua, em cena captada pela Artemis 2 enquanto contornava o satélite
O lado escuro dos cookies
Os astronautas passaram pelo lado oculto da Lua e viram paisagens que nenhum olho humano havia visto pessoalmente antes. E, enquanto viviam uma parte da história, eles decidiram por um breve momento celebrar com cookies.

Eclipse solar
Durante a volta na Lua, os astronautas puderam presenciar um eclipse solar do espaço, com a Lua se posicionando entre a nave Orion e o Sol. Esse era um dos momentos mais esperados para observações científicas.

Alegria de quem vai e de quem fica
Na Nasa, aqueles que acompanhavam a jornada e davam apoio à Artemis 2, sorriram, emocionaram-se e celebraram as observações científicas da missão.

Treinados para fotografar
Os astronautas tiveram um detalhado treinamento para conseguir tirar boas e necessárias fotos durante a missão. Tiveram direito até a uma Lua inflável para praticar.

Eles tinham uma privada e um problema
Logo no início da viagem, um alerta soou na missão: a privada do único e exclusivo banheiro –que não existiu em outras missões à Lua– não estava funcionando como deveria. Koch foi a responsável por tentar resolver a situação. "Tenho orgulho de me chamar de encanadora espacial."
De volta pra casa
A amerissagem ocorreu exatamente como planejado, inclusive com precisão no horário: 21h07 (horário de Brasília).

Mas, após dias se comunicando do espaço com a Terra praticamente sem atrasos, os tripulantes da missão não conseguiam contato com os mergulhadores que deveriam ir tirá-los de dentro da nave, que permaneceu intocada, por um bom tempo, boiando no mar.

Nasa terá trabalho para concretizar ambições lunares após a Artemis 2

SALVADOR NOGUEIRA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a missão Artemis 2 concluída com sucesso, a Nasa certamente celebra a ocasião histórica. Mas não por muito tempo. Há muito trabalho pela frente se a agência quiser fazer desse marco de fato o primeiro passo na árdua tarefa de estabelecer uma presença constante na Lua e, então, preparar o terreno para uma futura missão tripulada a Marte.

Ao ser nomeado administrador, em dezembro do ano passado, após uma série de idas e vindas, Jared Isaacman concentrou esforços em fazer uma rápida e agressiva reformulação do programa Artemis, anunciada poucos dias antes do voo inaugural de Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50 -o primeiro sobrevoo lunar tripulado do século 21.

A palavra de ordem foi aumentar a cadência de voos, ou seja, realizar missões do programa de exploração com maior frequência e mais clareza de propósito. Para isso, foi introduzida uma missão de ínterim antes daquela que seria a destinada a realizar a primeira tentativa de pouso tripulado neste século.

Originalmente, essa alunissagem aconteceria na Artemis 3, em 2028. A data foi mantida, mas ela agora é a Artemis 4, e a terceira missão realizará, em órbita da Terra e já no ano que vem, testes com os futuros módulos de pouso -a serem fornecidos à Nasa pelas empresas SpaceX e Blue Origin, ambas em uma competição entre si para ver quem terá a chance de realizar esse histórico pouso inaugural do programa.

A grande questão é: algum desses módulos estará pronto para esses testes orbitais no ano que vem e, mais ainda, para um voo até a superfície da Lua em pouco mais de dois anos?
Há razão para dúvidas, menos com relação a 2027 do que com relação a 2028. Uma das vantagens de introduzir essa "nova" Artemis 3 (que espelha uma escolha feita pela Nasa no século passado com a Apollo 9, que testou o módulo lunar em órbita terrestre em março de 1969) é que os dois veículos candidatos a realizar o primeiro pouso podem ser lançados em versões mais "cruas", destinadas apenas para testes de acoplagem e desacoplagem, além de manutenção de tripulações a bordo.

Eles são o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, e o Starship, da SpaceX. Ambos são muito maiores que seus equivalentes do programa Apollo (o Starship quase inimaginavelmente maior, com 50 metros de altura) e exigirão procedimentos de reabastecimento em órbita e demonstrações de pouso sem tripulação antes que possam cumprir a missão lunar.

Lori Glaze, gerente do programa de exploração da Nasa, diz que as duas empresas reagiram bem às solicitações de planos para acelerar o desenvolvimento dos veículos.

Nesse contexto, ajuda não só a decisão de criar a Artemis 3 ("a demonstração em órbita da Terra, esperamos, vai reduzir alguns dos requisitos para esses módulos de pouso para nos permitir testar uma versão inicial que não exige tantos recursos", disse ela, em entrevista ao site Ars Technica), como também a decisão de cancelar a estação espacial orbital lunar Gateway, planejada como um ponto de parada para missões à superfície.

A ser instalada em uma órbita bem alta ao redor da Lua (para facilitar a chegada e a partida das cápsulas Orion), ela tornava o trabalho dos módulos de pouso bem mais difícil, exigindo mais reabastecimentos. Com o cancelamento (e o uso de partes do antigo Gateway já fabricadas ou em fabricação para uma missão não tripulada que testará propulsão nuclear numa viagem a Marte), o trabalho da Artemis 4 ficou um pouco mais fácil.

Ainda assim, os progressos são lentos, e não há nesse momento sinal de que possam ser muito acelerados. A SpaceX ainda está às voltas com a qualificação do foguete Starship (cujo segundo estágio é o próprio módulo de pouso lunar), que já chegou à sua terceira versão, a ser lançado pela primeira vez em cerca de um mês.

A empresa de Elon Musk quer demonstrar a capacidade de reabastecimento em órbita ainda neste ano e estar pronta para dar suporte à Artemis 3 com uma versão minimamente funcional do Starship no ano que vem.

Já a Blue Origin segue desenvolvendo o seu Blue Moon Mark 2, mas tem uma carta na manga –o Blue Moon Mark 1, módulo de pouso originalmente destinado apenas a carga, mas que tem um porte capaz de ser adaptado para um voo tripulado, se a Nasa tiver pressa. Essa versão cargueira está em fase final de teste e deve ser lançada e realizar uma alunissagem ainda neste ano.

A empresa tem planos de adaptar o sistema de suporte de vida desenvolvido para o Mark 2 no Mark 1 para criar um híbrido, capaz de realizar as primeiras missões lunares. Talvez essa seja a única chance para a Nasa cumprir a meta de ter o primeiro pouso com a Artemis 4 em 2028.

A base lunar e os pés no chão
Como parte da reformulação do programa, Isaacman decidiu cancelar o Gateway e substituí-lo por uma futura base lunar tripulada. O novo plano tem três fases, a primeira vai de 2026 a 2029, a segunda de 2029 a 2032, e a terceira de 2032 em diante. Cada uma vem com uma etiqueta de preço de US$ 10 bilhões e faz uma transição entre missões robóticas e não tripuladas.

Para a fase 1, a Nasa realizaria até 25 missões, com 21 pousos na Lua, mas a imensa maioria por cargueiros robóticos, como os recém-desenvolvidos pelas empresas Firefly e Intuitive Machines, que já realizaram viagens lunares, e outros que estão por vir, como os da Blue Origin e da Astrobotic. Ainda assim, nas 25 o plano inclui duas tripuladas, Artemis 4 e 5. Essa fase preparatória levaria até quatro toneladas de cargas úteis à superfície.

Na segunda fase, as coisas começam a se tornar mais intensas, com a instalação de reatores nucleares, rovers para tripulação (com ou sem pressurização interna) e sistemas de habitação permanente. A partir de 2032, e a terceira fase, começaria a presença semipermanente na Lua, com tripulações realizando expedições à base, como já acontece hoje na Estação Espacial Internacional (cerca de mil vezes mais perto).

Tudo isso é muito bonito e empolgante. Mas, no meio do caminho, tem a realidade.

Os EUA andam nessa fase estranha em que o que o governo faz e o que o governo fala são duas coisas inteiramente diferentes.

Ao mesmo tempo em que esses planos grandiosos de exploração são apresentados, a Casa Branca apresenta ao Congresso sua proposta de orçamento para a Nasa no ano que vem, que sugere cortar em quase 25% a verba total da agência, cancelando mais de 40 missões.

No ano passado, primeiro de Trump 2, foi a mesma coisa, e o Congresso reverteu, mantendo ao menos o mesmo patamar aproximado de investimento dos anos anteriores. Não é improvável que aconteça de novo neste ano.

Em carta aos funcionários da agência, Isaacman deu um conselho: "Deixem a política com os políticos". Para ele, os engenheiros, técnicos e cientistas devem se concentrar em realizar as missões dadas, em vez de discutir questões orçamentárias. Fácil falar, talvez mais difícil fazer.

Após um programa agressivo de demissões voluntárias e dispensas no ano passado, a agência tem hoje uma força de trabalho bem menor do que nos tempos da Apollo -que dirá em orçamento que, no auge do Apollo, era 5% do gasto federal, e atualmente gira em torno de 0,5% (0,4% se Trump conseguir implementar os cortes).

Um leão por dia
Mesmo pensando nos planos mais imediatos, há desafios consideráveis a superar. Um voo da dupla SLS e Orion, respectivamente foguete e cápsula usados nas missões Artemis 1 e 2, até hoje não saiu por menos de US$ 4 bilhões. E a cadência (pelo menos) anual está longe de ser algo trivial. Entre os dois únicos voos do SLS se passaram quase quatro anos.

A Artemis 2, apesar do sucesso retumbante, também apresentou problemas que requerem atenção imediata. O mais sério deles, embora não tenha impactado no desenvolvimento da missão, envolveu uma perda de hélio pressurizante em válvulas do tanque de oxigênio do sistema de propulsão do módulo de serviço da cápsula, contribuição europeia ao projeto.

Segundo Amit Kshatriya, administrador associado da Nasa, as equipes fizeram um esforço de caracterização do problema ainda no espaço (uma vez que o módulo de serviço seria ejetado e queimaria na atmosfera sem retornar intacto para estudo posterior) e devem ter de redesenhar o sistema de válvulas para a missão Artemis 4. Para a terceira missão, em órbita terrestre, em princípio a atual configuração não oferece riscos.

Diz ele que será possível fazer o trabalho até a missão de 2028 e que o problema é muito menos grave que o que envolveu o escudo térmico da Artemis 1 e obrigou a uma mudança de planos para a trajetória de reentrada da Artemis 2, uma vez que ele era do mesmo modelo, com um novo design destinado a aparecer só na Artemis 3.

Nada disso é inesperado ou incomum em um programa que tenta viabilizar o que até agora jamais passou de um sonho -o estabelecimento de uma presença constante na Lua. Mas é inevitável que gere atrasos, o que incomoda os americanos, com a China fungando em seus cangotes.

Com a Artemis 2, os EUA venceram a primeira etapa dessa nova corrida para a Lua. Mas os chineses têm planos em andamento para realizar sua primeira alunissagem tripulada até 2030. A projeção americana de chegar antes, em 2028, é, no mínimo, otimista.

A disputa naturalmente põe a ambição de uma viagem tripulada a Marte como um objetivo mais distante. Nenhum dos dois países tem um projeto concreto para tal empreitada, mas ambos seguem de olho no planeta vermelho.

A China se concentra em um ambicioso retorno robótico de amostras, marcado para o começo dos anos 2030; a Nasa desistiu, ao menos por ora, de ir recolher as rochas separadas pelo rover Perseverance, mas tem agora um novo plano para lançar para lá uma nave experimental com propulsão nuclear -tecnologia que, se bem-sucedida, pode finalmente viabilizar a jornada marciana tripulada, muito mais difícil e perigosa que as viagens lunares.

"Este é o começo de uma nova era da exploração espacial humana", afirmou Howard Hu, gerente do programa Orion na Nasa, a nave tripulada que levou os astronautas da missão Artemis 2 à Lua, durante entrevista coletiva após o pouso bem-sucedido da cápsula nas águas do Pacífico na noite desta sexta-feira (10). "Nós vamos ter vários desses momentos a partir de agora."
A fala de Hu -apreciando o momento atual, mas já mostrando foco no que vem a seguir em missões espaciais- captura o espírito e as falas de todos os representantes da Nasa presentes na entrevista coletiva que marcou o sucesso da Artemis 2. A missão que acaba de ser concluída também foi lembrada como um voo de teste.

O olhar para o futuro próximo ficou claro quando uma pergunta sobre a Artemis 3 foi respondida, sem muitos rodeios.

Amit Kshatriya, administrador-associado da Nasa, foi direto ao falar que, em breve, a tripulação da Artemis 3 será anunciada. "Não vou colocar números, mas em breve", disse.

O plano para essa missão é testar os módulos de pouso lunar em um voo em órbita baixa da Terra.

Tanto a SpaceX, de Elon Musk, quanto a Blue Origin, de Jeff Bezos, estão desenvolvendo módulos para o programa Artemis, em uma disputa para ver qual empresa será a primeira a realizar o pouso na Lua para a Nasa.

A missão atualizada da Artemis 3 envolverá a Orion, com astronautas a bordo, demonstrando a capacidade da cápsula de acoplar com um ou ambos os módulos de pouso em órbita baixa da Terra. O processo é uma etapa crucial no caminho da agência até a Lua.

Já para 2028 está programada a Artemis 4, na qual a Nasa espera recolocar humanos sobre o solo lunar.

"O caminho para a superfície lunar está aberto", afirmou Kshatriya. "O trabalho daqui para frente é maior do que o que ficou para trás. Sempre será. Cinquenta e três anos atrás a humanidade deixou a Lua. Dessa vez nós voltamos para ficar."
Quando questionado sobre o principal desafio para que a empreitada atual não termine como terminaram as missões Apollo –que começaram em meio a uma corrida espacial, mas que não tiveram, necessariamente, uma continuidade em relação à Lua–, Kshatriya afirmou: "Os arquitetos da Apollo queriam aprender a trabalhar e viver no espaço por um longo tempo. Mas, por causa da natureza do ambiente em que estavam, em uma corrida. Eles atingiram seus objetivos geopolíticos e tecnológicos. Mas, uma vez que estava feito, acabou."
Segundo Kshatriya, o que se queria construir lá atrás foi feito na sequência, como a partir da contínua presença de pessoas na órbita terrestre, na ISS (Estação Espacial Internacional) por mais de duas décadas.

"É uma estranha ironia da história ter levado tanto tempo para conseguirmos fazer isso. Mas não ficamos parados. Desenvolvemos as capacidades para ter uma presença duradoura no espaço. E agora vamos aproveitar isso, agora que voltamos à Lua", afirmou Kshatriya.

Um dos jornalistas que participaram da entrevista coletiva pediu que os representantes da Nasa escolhessem seus momentos favoritos da missão.

Shawn Quinn, gerente do Programa de Sistemas Terrestres de Exploração, escolheu o lançamento do foguete SLS, que deu início à missão, em 1º de abril, em Cabo Canaveral, na Flórida.

Hu disse que a abertura dos paraquedas, considerando as velocidades envolvidas. "Eu estava falando comigo mesmo 'vai, vai vai'. Me filmaram fazendo isso, achando que eu estava louco."
Rick Henfling, diretor de voo de reentrada da Artemis 2, afirmou que a sugestão de nomes para duas crateras foi seu momento favorito. Esse foi um ponto particularmente emocionante na missão, levando os astronautas às lágrimas. Isso porque a tripulação sugeriu que uma das crateras seja batizada de Carroll, nome da esposa de Reid Wiseman, comandante da Artemis 2. Ela morreu em 2020.

"Quando eles responderam, depois da amerissagem: 'quatro tripulantes verdes [fala de Wiseman, que significa que todos na nave estavam bem]'. E quando vimos Christina [Koch] saindo da cápsula", disse Lori Glaze, diretoria de Missão de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, sobre seus momentos favoritos.

"O meu é fácil. Vai ser amanhã quando eu encontrar meus amigos de novo", afirmou Kshatriya, possivelmente se referindo aos astronautas -durante a entrevista coletiva, ele havia reforçado a importância de trazer a tripulação de volta em segurança.

Pôr da Terra, eclipse, homenagem e Nutella: confira momentos-chave e outros curiosos da Artemis 2

PHILLIPPE WATANABE-BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Uma pelúcia de Lua flutuando. Cookies comidos no lado escondido do satélite natural da Terra. A única privada da missão lunar com defeito. Uma Nutella flutuando em meio a astronautas trabalhando. Uma emocionada homenagem. E olhos humanos vendo um eclipse solar direto do espaço.

Os americanos Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e o canadense Jeremy Hansen, 50 voltaram à Terra nesta sexta-feira (10). Eles contornaram a Lua e se tornaram os humanos a viajar mais longe da Terra.

E também fizeram história ao participar da primeira missão a levar humanos ao redor da Lua neste século.

Veja a seguir alguns dos principais momentos e outros curiosos da missão do quarteto, agora de volta ao planeta.

*
Lançamento da histórica missão
Após um considerável atraso, a missão com Wiseman, Glover, Koch e Hansen decolou, com sucesso, em 1º de abril de 2026. Eles partiram de Cabo Canaveral, na Flórida (EUA).

Rastro da missão
Um rastro em zigue-zague logo acima da Terra foi o sinal deixado pela Artemis 2. Ele foi visto e registrado pelo americano Chris Williams, que passa uma temporada na ISS (Estação Espacial Internacional). Ele só não teve a sorte de ver a nave.

Diferenças políticas, mas concordância quanto ao espaço sideral
Pesquisa da Reuters/Ipsos durante a Artemis 2 mostra que 69% dos americanos disseram estar empolgados com a exploração espacial e aproximadamente 80% têm visão favorável da Nasa, incluindo grandes maiorias tanto de republicanos quanto de democratas.

Pessoas se reúnem no dia do lançamento da missão Artemis 2, em Titusville, Flórida, nos EUA Marco Bello
Terra, redonda como sempre
Uma olhadela para trás, no caminho para a Lua, proprocionou visões como esta para os astronautas da Artemis 2.

A Terra em registro feito a partir da cápsula Orion, da missão Artemis 2 Nasa no X Imagem da Terra vista do espaço mostrando a Austrália em destaque à esquerda, com nuvens dispersas sobre os oceanos e continentes visíveis. Fundo preto do espaço circunda o planeta. Imagem pequena **
Uma pelúcia no espaço
Um pequeno bichinho de pelúcia, criado por uma criança, acompanhou os astronautas durante a missão e as conversas, ao vivo, que tiveram com a Terra. Era o sempre sorridente Rise.

Morcego na Orion
Wiseman brincou que Koch dormiu, na viagem, "de cabeça para baixo no meio do veículo, tipo um morcego pendurado no nosso túnel de acoplamento". Koch lembrou, porém, que não existe teto ou chão no espaço.

Missão Nutella?
O que em um filme ou uma postagem em rede social poderia ser uma inserção publicitária, na nave da Artemis 2 era apenas um dos itens do cardápio dos astronautas. Durante a transmissão da missão, um pote de Nutella pôde ser visto flutuando ao lado da tripulação. Assim como na Terra, um docinho sempre vai bem.

'Pôr da Terra'
William Anders, da Apollo 8, fez a famosa foto "Earthrise" (nascer da Terra) em dezembro de 1968, na véspera do Natal. Após 57 anos, a tripulação da Artemis 2 apresentou a foto "Earthset" (pôr da Terra).

Uma cratera lunar chamada Carroll
A esposa de Wiseman, Carroll Taylor Wiseman, morreu em 2020. Como homenagem, a tripulação da Artemis 2 indicou uma cratera, que puderam ver ao se aproximar da Lua, para receber o nome Carroll. A situação levou a um momento emocionante durante a missão.

Apagão
Ao dar a volta na Lua, a Artemis 2 ficou cerca de 40 minutos sem contato com a Terra. A missão levou os astronautas para o mais longe da Terra que uma pessoa já foi.

Terra parcialmente obstruída pela Lua, em cena captada pela Artemis 2 enquanto contornava o satélite
O lado escuro dos cookies
Os astronautas passaram pelo lado oculto da Lua e viram paisagens que nenhum olho humano havia visto pessoalmente antes. E, enquanto viviam uma parte da história, eles decidiram por um breve momento celebrar com cookies.

Eclipse solar
Durante a volta na Lua, os astronautas puderam presenciar um eclipse solar do espaço, com a Lua se posicionando entre a nave Orion e o Sol. Esse era um dos momentos mais esperados para observações científicas.

Alegria de quem vai e de quem fica
Na Nasa, aqueles que acompanhavam a jornada e davam apoio à Artemis 2, sorriram, emocionaram-se e celebraram as observações científicas da missão.

Treinados para fotografar
Os astronautas tiveram um detalhado treinamento para conseguir tirar boas e necessárias fotos durante a missão. Tiveram direito até a uma Lua inflável para praticar.

Eles tinham uma privada e um problema
Logo no início da viagem, um alerta soou na missão: a privada do único e exclusivo banheiro –que não existiu em outras missões à Lua– não estava funcionando como deveria. Koch foi a responsável por tentar resolver a situação. "Tenho orgulho de me chamar de encanadora espacial."
De volta pra casa
A amerissagem ocorreu exatamente como planejado, inclusive com precisão no horário: 21h07 (horário de Brasília).

Mas, após dias se comunicando do espaço com a Terra praticamente sem atrasos, os tripulantes da missão não conseguiam contato com os mergulhadores que deveriam ir tirá-los de dentro da nave, que permaneceu intocada, por um bom tempo, boiando no mar.

Nasa terá trabalho para concretizar ambições lunares após a Artemis 2

SALVADOR NOGUEIRA-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a missão Artemis 2 concluída com sucesso, a Nasa certamente celebra a ocasião histórica. Mas não por muito tempo. Há muito trabalho pela frente se a agência quiser fazer desse marco de fato o primeiro passo na árdua tarefa de estabelecer uma presença constante na Lua e, então, preparar o terreno para uma futura missão tripulada a Marte.

Ao ser nomeado administrador, em dezembro do ano passado, após uma série de idas e vindas, Jared Isaacman concentrou esforços em fazer uma rápida e agressiva reformulação do programa Artemis, anunciada poucos dias antes do voo inaugural de Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50 -o primeiro sobrevoo lunar tripulado do século 21.

A palavra de ordem foi aumentar a cadência de voos, ou seja, realizar missões do programa de exploração com maior frequência e mais clareza de propósito. Para isso, foi introduzida uma missão de ínterim antes daquela que seria a destinada a realizar a primeira tentativa de pouso tripulado neste século.

Originalmente, essa alunissagem aconteceria na Artemis 3, em 2028. A data foi mantida, mas ela agora é a Artemis 4, e a terceira missão realizará, em órbita da Terra e já no ano que vem, testes com os futuros módulos de pouso -a serem fornecidos à Nasa pelas empresas SpaceX e Blue Origin, ambas em uma competição entre si para ver quem terá a chance de realizar esse histórico pouso inaugural do programa.

A grande questão é: algum desses módulos estará pronto para esses testes orbitais no ano que vem e, mais ainda, para um voo até a superfície da Lua em pouco mais de dois anos?
Há razão para dúvidas, menos com relação a 2027 do que com relação a 2028. Uma das vantagens de introduzir essa "nova" Artemis 3 (que espelha uma escolha feita pela Nasa no século passado com a Apollo 9, que testou o módulo lunar em órbita terrestre em março de 1969) é que os dois veículos candidatos a realizar o primeiro pouso podem ser lançados em versões mais "cruas", destinadas apenas para testes de acoplagem e desacoplagem, além de manutenção de tripulações a bordo.

Eles são o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, e o Starship, da SpaceX. Ambos são muito maiores que seus equivalentes do programa Apollo (o Starship quase inimaginavelmente maior, com 50 metros de altura) e exigirão procedimentos de reabastecimento em órbita e demonstrações de pouso sem tripulação antes que possam cumprir a missão lunar.

Lori Glaze, gerente do programa de exploração da Nasa, diz que as duas empresas reagiram bem às solicitações de planos para acelerar o desenvolvimento dos veículos.

Nesse contexto, ajuda não só a decisão de criar a Artemis 3 ("a demonstração em órbita da Terra, esperamos, vai reduzir alguns dos requisitos para esses módulos de pouso para nos permitir testar uma versão inicial que não exige tantos recursos", disse ela, em entrevista ao site Ars Technica), como também a decisão de cancelar a estação espacial orbital lunar Gateway, planejada como um ponto de parada para missões à superfície.

A ser instalada em uma órbita bem alta ao redor da Lua (para facilitar a chegada e a partida das cápsulas Orion), ela tornava o trabalho dos módulos de pouso bem mais difícil, exigindo mais reabastecimentos. Com o cancelamento (e o uso de partes do antigo Gateway já fabricadas ou em fabricação para uma missão não tripulada que testará propulsão nuclear numa viagem a Marte), o trabalho da Artemis 4 ficou um pouco mais fácil.

Ainda assim, os progressos são lentos, e não há nesse momento sinal de que possam ser muito acelerados. A SpaceX ainda está às voltas com a qualificação do foguete Starship (cujo segundo estágio é o próprio módulo de pouso lunar), que já chegou à sua terceira versão, a ser lançado pela primeira vez em cerca de um mês.

A empresa de Elon Musk quer demonstrar a capacidade de reabastecimento em órbita ainda neste ano e estar pronta para dar suporte à Artemis 3 com uma versão minimamente funcional do Starship no ano que vem.

Já a Blue Origin segue desenvolvendo o seu Blue Moon Mark 2, mas tem uma carta na manga –o Blue Moon Mark 1, módulo de pouso originalmente destinado apenas a carga, mas que tem um porte capaz de ser adaptado para um voo tripulado, se a Nasa tiver pressa. Essa versão cargueira está em fase final de teste e deve ser lançada e realizar uma alunissagem ainda neste ano.

A empresa tem planos de adaptar o sistema de suporte de vida desenvolvido para o Mark 2 no Mark 1 para criar um híbrido, capaz de realizar as primeiras missões lunares. Talvez essa seja a única chance para a Nasa cumprir a meta de ter o primeiro pouso com a Artemis 4 em 2028.

A base lunar e os pés no chão
Como parte da reformulação do programa, Isaacman decidiu cancelar o Gateway e substituí-lo por uma futura base lunar tripulada. O novo plano tem três fases, a primeira vai de 2026 a 2029, a segunda de 2029 a 2032, e a terceira de 2032 em diante. Cada uma vem com uma etiqueta de preço de US$ 10 bilhões e faz uma transição entre missões robóticas e não tripuladas.

Para a fase 1, a Nasa realizaria até 25 missões, com 21 pousos na Lua, mas a imensa maioria por cargueiros robóticos, como os recém-desenvolvidos pelas empresas Firefly e Intuitive Machines, que já realizaram viagens lunares, e outros que estão por vir, como os da Blue Origin e da Astrobotic. Ainda assim, nas 25 o plano inclui duas tripuladas, Artemis 4 e 5. Essa fase preparatória levaria até quatro toneladas de cargas úteis à superfície.

Na segunda fase, as coisas começam a se tornar mais intensas, com a instalação de reatores nucleares, rovers para tripulação (com ou sem pressurização interna) e sistemas de habitação permanente. A partir de 2032, e a terceira fase, começaria a presença semipermanente na Lua, com tripulações realizando expedições à base, como já acontece hoje na Estação Espacial Internacional (cerca de mil vezes mais perto).

Tudo isso é muito bonito e empolgante. Mas, no meio do caminho, tem a realidade.

Os EUA andam nessa fase estranha em que o que o governo faz e o que o governo fala são duas coisas inteiramente diferentes.

Ao mesmo tempo em que esses planos grandiosos de exploração são apresentados, a Casa Branca apresenta ao Congresso sua proposta de orçamento para a Nasa no ano que vem, que sugere cortar em quase 25% a verba total da agência, cancelando mais de 40 missões.

No ano passado, primeiro de Trump 2, foi a mesma coisa, e o Congresso reverteu, mantendo ao menos o mesmo patamar aproximado de investimento dos anos anteriores. Não é improvável que aconteça de novo neste ano.

Em carta aos funcionários da agência, Isaacman deu um conselho: "Deixem a política com os políticos". Para ele, os engenheiros, técnicos e cientistas devem se concentrar em realizar as missões dadas, em vez de discutir questões orçamentárias. Fácil falar, talvez mais difícil fazer.

Após um programa agressivo de demissões voluntárias e dispensas no ano passado, a agência tem hoje uma força de trabalho bem menor do que nos tempos da Apollo -que dirá em orçamento que, no auge do Apollo, era 5% do gasto federal, e atualmente gira em torno de 0,5% (0,4% se Trump conseguir implementar os cortes).

Um leão por dia
Mesmo pensando nos planos mais imediatos, há desafios consideráveis a superar. Um voo da dupla SLS e Orion, respectivamente foguete e cápsula usados nas missões Artemis 1 e 2, até hoje não saiu por menos de US$ 4 bilhões. E a cadência (pelo menos) anual está longe de ser algo trivial. Entre os dois únicos voos do SLS se passaram quase quatro anos.

A Artemis 2, apesar do sucesso retumbante, também apresentou problemas que requerem atenção imediata. O mais sério deles, embora não tenha impactado no desenvolvimento da missão, envolveu uma perda de hélio pressurizante em válvulas do tanque de oxigênio do sistema de propulsão do módulo de serviço da cápsula, contribuição europeia ao projeto.

Segundo Amit Kshatriya, administrador associado da Nasa, as equipes fizeram um esforço de caracterização do problema ainda no espaço (uma vez que o módulo de serviço seria ejetado e queimaria na atmosfera sem retornar intacto para estudo posterior) e devem ter de redesenhar o sistema de válvulas para a missão Artemis 4. Para a terceira missão, em órbita terrestre, em princípio a atual configuração não oferece riscos.

Diz ele que será possível fazer o trabalho até a missão de 2028 e que o problema é muito menos grave que o que envolveu o escudo térmico da Artemis 1 e obrigou a uma mudança de planos para a trajetória de reentrada da Artemis 2, uma vez que ele era do mesmo modelo, com um novo design destinado a aparecer só na Artemis 3.

Nada disso é inesperado ou incomum em um programa que tenta viabilizar o que até agora jamais passou de um sonho -o estabelecimento de uma presença constante na Lua. Mas é inevitável que gere atrasos, o que incomoda os americanos, com a China fungando em seus cangotes.

Com a Artemis 2, os EUA venceram a primeira etapa dessa nova corrida para a Lua. Mas os chineses têm planos em andamento para realizar sua primeira alunissagem tripulada até 2030. A projeção americana de chegar antes, em 2028, é, no mínimo, otimista.

A disputa naturalmente põe a ambição de uma viagem tripulada a Marte como um objetivo mais distante. Nenhum dos dois países tem um projeto concreto para tal empreitada, mas ambos seguem de olho no planeta vermelho.

A China se concentra em um ambicioso retorno robótico de amostras, marcado para o começo dos anos 2030; a Nasa desistiu, ao menos por ora, de ir recolher as rochas separadas pelo rover Perseverance, mas tem agora um novo plano para lançar para lá uma nave experimental com propulsão nuclear -tecnologia que, se bem-sucedida, pode finalmente viabilizar a jornada marciana tripulada, muito mais difícil e perigosa que as viagens lunares.

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