Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina após várias viagens frustradas

Embora divulgado pela Cosac como o retorno da editora à ficção brasileira contemporânea após um longo hiato, o livro de Bergstein se aproxima mais de um ensaio híbrido do que de um romance

Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina após várias viagens frustradas
Artista plástica Lena Bergstein lança livro sobre a Palestina após várias viagens frustradas

Diogo Bercito-washington, Eua (folhapress) - 23/07/2026 10:12:37 | Foto: @LenaCeciliaBergstein • Facebook Lena Bergstein

A artista plástica carioca Lena Bergstein, 80, queria muito conhecer Jerusalém. Três vezes tentou realizar essa longa e custosa viagem, sem sucesso. Por fim, decidiu visitar a cidade na sua imaginação. O resultado é o livro "Um Diário em Aberto: Palestina", lançado há pouco.

Embora divulgado pela Cosac como o retorno da editora à ficção brasileira contemporânea após um longo hiato, o livro de Bergstein se aproxima mais de um ensaio híbrido do que de um romance. O texto mescla autobiografia intelectual, crítica literária e experimentos visuais.

O interesse pela região é antigo, conta à Folha. Nasceu como uma curiosidade quase arqueológica. "O que eu mais queria era ver os manuscritos do mar Morto", diz.

Em sua carreira como artista, explorou por décadas as relações entre a palavra e seu suporte material. Tinha vontade de ver, por exemplo, como aqueles textos tinham sido gravados não só em papiros e pergaminhos, mas também em folhas de cobre.

Nessa trajetória de investigação artística sobre texto e material, travou uma parceria com o filósofo francês Jacques Derrida nos anos 1990. Em 1998, Bergstein ilustrou o texto "Enlouquecer o Subjétil" -premiado com um Jabuti na categoria de produção editorial.

Depois de três tentativas frustradas de viajar a Jerusalém e ver os manuscritos do mar Morto, assistiu a um documentário sobre o intelectual palestino Edward Said. "Fiquei comovida", ela conta. Saiu da sessão e comprou livros.

Said é conhecido, em especial, por seu livro "Orientalismo". O texto de 1978 critica a produção de conhecimento sobre o dito Oriente, usada historicamente para projetos coloniais. Abriu caminho para todo um novo jeito de pensar a história da região, ainda respeitado na academia.

Bergstein assistiu ao filme e fez as leituras durante a pandemia. Além de não poder viajar, mal podia sair de casa. Aproveitou para estudar. Passava os dedos pelas notas de rodapé e ia anotando todas as referências. "Eu queria saber o que precisava ler."
Foi assim que travou contato com acadêmicos como o israelense Avi Shlaim e o palestino Nur Masalha. Mas foi a literatura que a cativou mais, em especial os palestinos Mahmud Darwich e Emile Habibi. Bergstein costura trechos de poemas e romances dos dois no seu ensaio.

"Eu me embrenhei tanto, fiquei tão apaixonada por eles", diz. Tanto que, em algumas passagens, se permite imaginar como seria caminhar ao lado deles na Palestina. Esses são os trechos mais fictícios de seu livro, apresentados entre longas reflexões históricas e filosóficas.

Bergstein reflete de maneira explícita sobre sua posição em relação ao tema tratado. Judia, conta que outrora tinha uma opinião mais positiva sobre Israel.

"Quando comecei a estudar, me deu vergonha, desgosto", diz sobre a criação do país em 1948, que levou à expulsão de mais de 700 mil palestinos e à destruição de centenas de vilarejos. "Como puderam fazer isso? Trataram os habitantes da terra com perversidade."
"Chega uma hora em que um artista se depara com algo moral, com algo político, uma questão que sente necessidade de abraçar e que o faz se envolver", ela escreve em um dos últimos trechos.

Embora predominantemente escrito, o livro traz intervenções visuais. Entre os capítulos, há gravuras inspiradas em poemas de Darwich, com versos manuscritos como rascunhos provisórios. Em outro trecho, as páginas ganham um tom acinzentado para acompanhar a discussão mais histórica, ao lado de mapas da região.

É como se a artista fizesse um trabalho de colagem, misturando técnicas. O livro é incomum e de difícil classificação -e, com isso, talvez também peça leitores incomuns, dispostos a transitar por formatos inesperados.

Bergstein não oferece respostas. É a ideia do "em aberto" do título. "Tem essa possibilidade de ir e vir, de subir e mergulhar", diz.

UM DIÁRIO EM ABERTO: PALESTINA
- Preço R$ 86 (160 págs.)
- Autoria Lena Bergstein
- Editora Cosac

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