Ataque dos EUA ao Pix é recado a países que estudam seguir caminho do Brasil, dizem autoridades

Governo Trump diz que BC favorece Pix de forma discriminatória sobre empresas americanas

Ataque dos EUA ao Pix é recado a países que estudam seguir caminho do Brasil, dizem autoridades
Ataque dos EUA ao Pix é recado a países que estudam seguir caminho do Brasil, dizem autoridades

Nathalia Garcia-brasília, Df (folhapress) - 02/06/2026 15:49:04 | Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O ataque dos Estados Unidos ao Pix é visto por autoridades brasileiras como um recado para os países que estudam seguir o caminho do Brasil e implementar um sistema de pagamentos instantâneos gratuito.

Em documento divulgado na madrugada desta terça-feira (2) pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), o governo de Donald Trump acusou o Banco Central do Brasil de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento.

Na América Latina, a Colômbia tem o processo mais avançado, com o lançamento em outubro de 2025 do Bre-B -um sistema de pagamentos instantâneos via QR code inspirado no Pix. Mas Peru, Chile e México também buscam entender o sucesso do modelo brasileiro.

Em abril, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, usou as redes sociais para defender o Pix brasileiro após a Casa Branca classificar o sistema como prejudicial a empresas americanas, como Visa e Mastercard, e pediu a adoção da modalidade de pagamentos em seu país.

Na avaliação de um interlocutor ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato, o relatório dos EUA reflete a pressão do lobby de empresas americanas de cartão de crédito e da indústria de stablecoins, criptomoedas que acompanham o valor de um ativo de referência (em geral o dólar), contra a gratuidade do Pix.

Na visão dele, o segmento de cartões, que vem perdendo competitividade no mercado com o avanço da tecnologia, observou a tendência de diversos bancos centrais do mundo de seguirem o exemplo brasileiro e passou a exercer pressão sobre o governo americano para mudar a natureza pública e gratuita da infraestrutura do Pix.

Essa pressão já vinha sendo acompanhada pelas autoridades brasileiras, que se movimentaram para tentar blindar o Pix por meio da PEC (proposta de emenda à Constituição) que dá autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central.

Após a ofensiva de Trump sobre o Pix na abertura da investigação do USTR, em julho de 2025, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) costurou com o governo Lula (PT) um ajuste ao texto. O dispositivo estabelece que "compete exclusivamente ao Banco Central a regulação e operação do arranjo de pagamentos de varejo Pix".

Além disso, prevê gratuidade do uso do Pix por pessoas físicas e acesso não discriminatório a serviços e à infraestrutura necessária ao funcionamento do sistema. Fala também em "eficiência, contabilidade e qualidade dos serviços", e segurança na sua utilização, inclusive quanto à prevenção e combate a fraude.

EUA citam decisão de Toffoli que anulou provas da Odebrecht para justificar tarifaço

JOSÉ MARQUES E RICARDO DELLA COLETTA-BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A decisão do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), que anulou todas as provas oriundas do acordo de leniência da Odebrecht, de setembro de 2023, foi citada pelo governo Donald Trump como exemplo de que o Brasil falha no combate à corrupção.

O caso de Toffoli é uma das justificativas do USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, para propor uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. Além da corrupção, o governo Trump cita queixas sobre o Pix, tarifas consideradas injustas e desmatamento, entre outros.

O documento do governo Trump aponta ainda para uma decisão posterior de Toffoli, que suspendeu o pagamento de multas da empreiteira, e critica a falta de transparência na renegociação do acordo.

O texto afirma que o Brasil "falhou e continua falhando em tomar medidas de aplicação da lei para combater o suborno e a corrupção", e usa como referência um relatório da OCDE que manifesta preocupação com as decisões de Toffoli.

Procurado por meio da assessoria de imprensa do STF, o ministro ainda não se manifestou sobre as afirmações do governo americano.

"Essa decisão, proferida em setembro de 2023 pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, tratou do maior esquema de corrupção transnacional da história e levou à anulação de mais de uma centena de casos no Brasil", diz o documento.

"Em 2024, penalidades impostas pela Operação Lava Jato a empresas que haviam confessado corrupção em larga escala foram suspensas e autorizadas a serem renegociadas. A renegociação desses acordos de leniência tem sido criticada por avançar sem transparência e em meio a graves conflitos de interesse."
A renegociação dos acordos com a União foi concluída em 2025 e validada pelo ministro do STF André Mendonça, mas ainda não foi pautada para apreciação do plenário da corte.

"Sobre essas renegociações, a Organização dos Estados Americanos concluiu que as ações do Brasil 'correm o risco de minar a confiança pública no uso desses acordos e podem contribuir para uma sensação de insegurança jurídica para as pessoas jurídicas', além de levantar questionamentos sobre a equidade desses acordos", afirma o texto dos Estados Unidos.

"Em 2025, a Transparência Internacional caracterizou a anulação desses casos como a mais grave violação do Brasil à Convenção Antissuborno da OCDE."
De acordo com o escritório comercial de Trump, os atos "irrazoáveis" e "insuficientes" do Brasil na área de anticocorrupção "oneram ou restringem o comércio dos Estados Unidos porque permitem que empresas corruptas operem no Brasil com impunidade, enquanto empresas americanas, sujeitas a exigências significativas e à possibilidade de responsabilização por práticas corruptas no exterior, ficam em desvantagem".

A tarifa de 25% é apontada como uma medida corretiva para diversas práticas comerciais brasileiras. A investigação comercial conduzida com base na Seção 301 abrange temas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas "injustas ou preferenciais", leis anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Os alvos da investigação vão desde antigas reclamações de Washington, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até o Pix. Empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula nega.

A decisão de Toffoli de 2023 determinava que as provas oriundas tanto do acordo quanto dos sistemas Drousys e MyWebDay -respectivamente de comunicação interna e de contabilidade e controle de pagamentos de vantagens indevidas- são imprestáveis em qualquer âmbito ou grau de jurisdição.

Na decisão, o ministro disse que a Lava Jato foi "uma armação fruto de um projeto de poder de determinados agentes públicos em seu objetivo de conquista do Estado por meios aparentemente legais, mas com métodos e ações contra legem [a lei]".

"Digo sem medo de errar, foi o verdadeiro ovo da serpente dos ataques à democracia e às instituições que já se prenunciavam em ações e vozes desses agentes contra as instituições e ao próprio STF. Ovo esse chocado por autoridades que fizeram desvio de função, agindo em conluio para atingir instituições, autoridades, empresas e alvos específicos", disse o ministro na ocasião.

Em fevereiro de 2024, o ministro suspendeu os pagamentos da multa da Odebrecht referentes ao acordo feito com o Ministério Público Federal.

Em uma série de decisões, o ministro também vem anulando nos últimos anos os atos de integrantes da Lava Jato contra alvos da operação, como o doleiro Alberto Youssef, o ex-ministro Antonio Palocci e o executivo Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira.

As decisões têm acontecido sob a justificativa de que houve conluio entre o ex-juiz Sergio Moro e a acusação.

Câmara americana de comércio vê chance de negociação para evitar novo tarifaço dos EUA

GABRIELA CECCHIN-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio no Brasil) afirmou nesta terça-feira (2) que o relatório preliminar do governo dos Estados Unidos que recomenda tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros deixa aberta uma janela de negociação que poderá evitar a adoção das medidas, por reconhecer avanços em algumas áreas. O novo tarifaço traz uma lista de exceções, com produtos dos quais os EUA dependem, como suco de laranja e carnes.

Segundo a Amcham, o documento divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) destaca o diálogo intensificado nas últimas semanas após o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, realizado em 7 de maio, e sinaliza interesse na continuidade das negociações até a decisão final, prevista para 15 de julho.

Em nota, a câmara de comércio afirmou que, caso sejam confirmadas, as tarifas adicionais elevarão custos, reduzirão a competitividade e criarão obstáculos ao comércio e aos investimentos entre os dois países.

"O relatório não é final e reforça que ainda há tempo para evitar a adoção de novas tarifas. O setor empresarial espera que os dois governos intensifiquem seus esforços nas próximas semanas e alcancem uma solução que enderece as questões em discussão", disse Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

A entidade afirmou ainda que acompanha a expectativa pela divulgação de um segundo relatório de investigação comercial conduzido pelos Estados Unidos, relacionado à importação de produtos elaborados com trabalho forçado. Segundo a Amcham, o processo poderá resultar em novas tarifas para cerca de 60 países, incluindo o Brasil.

A decisão do governo americano vem após uma investigação contra supostas práticas comerciais injustas do Brasil, incluindo o Pix e a rua 25 de Março.

Segundo os EUA, o Banco Central brasileiro favorece seu serviço de pagamento instantâneo de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios, como as empresas de cartão de crédito americanas.

O documento também aponta falha em combater a importação, distribuição, venda e uso generalizados de produtos falsificados, e cita a rua 25 de Março como exemplo do volume de falsificações.

Agora, o USTR vai abrir uma consulta para que o setor privado comente os resultados antes da elaboração do relatório definitivo, que precisa ser publicado até 15 de julho.

Governo Trump diz que BC favorece Pix de forma discriminatória sobre empresas americanas

RICARDO DELLA COLETTA E ISABELLA MENON-BRASÍLIA, DF, E WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O governo de Donald Trump acusou o Banco Central do Brasil de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento, numa referência a empresas de cartões de crédito americanas.

As conclusões constam em um documento divulgado na madrugada desta terça-feira (2) pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros para lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump. Diversos setores foram excluídos da sobretaxa sugerida.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que concorrentes concedam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites tarifários, e o Brasil discrimina fornecedores norte-americanos de serviços de pagamento eletrônico ao conceder essas vantagens exclusivamente ao seu sistema nacional", diz o documento.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix constituem um ônus ou uma restrição ao comércio dos Estados Unidos, ao impor custos aos prestadores de serviços norte-americanos e ao forçá-los a promover seu concorrente brasileiro sem qualquer compensação", prossegue o relatório.

A tarifa de 25% é apontada como uma medida corretiva para diversas práticas comerciais brasileiras. A investigação comercial conduzida com base na Seção 301 abrange temas como comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas consideradas "injustas ou preferenciais", leis anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

A Seção 301 faz parte da Lei de Comércio dos EUA de 1974 e autoriza o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos a investigar práticas consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano.

A legislação permite que o governo dos EUA adote medidas de retaliação, tarifárias ou não tarifárias, contra países acusados de manter práticas consideradas injustificadas ou discriminatórias. China e União Europeia já foram alvo desse instrumento.

Os alvos da investigação vão desde antigas reclamações de Washington, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até o Pix. Empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula nega.

Em relação ao Pix, o governo Trump afirma que o Banco Central exerce um "duplo papel" de regulador e proprietário/operador do sistema, o que criaria "um conflito de interesses". Segundo o USTR, a atuação regulatória do BC favorece o meio de pagamento brasileiro e prejudica provedores americanos de serviços de pagamento eletrônico.

O relatório também afirma que o Banco Central incentiva o uso do Pix em detrimento de outros serviços, determina que as instituições participantes ofereçam o sistema gratuitamente para pessoas físicas e limita as tarifas que podem ser cobradas das empresas por transações realizadas por meio da plataforma.

Entenda a Seção 301, usada pelos EUA em investigação que mira Pix, 25 de Março e desmatamento

MATHEUS DOS SANTOS-SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O governo Trump concluiu a investigação da seção 301 contra o Brasil e propôs novo tarifaço de 25% sobre bens importados do país. O próximo passo é uma consulta pública para que o setor privado comente os resultados antes da publicação do relatório final, que precisa ser publicado até 15 de julho, segundo cronograma do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA).

Os pontos criticados pelo governo Trump incluem Pix, decisões do STF sobre big techs e Lava Jato, etanol e até a rua 25 de Março, centro de comércio popular da capital paulista.

As conclusões constam em um documento divulgado na madrugada desta terça-feira (2) pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), que propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros para lidar com práticas comerciais consideradas desleais pela gestão Trump. Diversos setores foram excluídos da sobretaxa sugerida. Veja principais pontos e temas que estão na mira de Trump.

O QUE É A SEÇÃO 301 DA LEI DE COMÉRCIO DOS EUA?
A Seção 301 faz parte da Lei de Comércio dos EUA de 1974 e autoriza o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos a investigar práticas consideradas prejudiciais ao comércio norte-americano.

A legislação permite que o governo dos EUA adote medidas de retaliação, tarifárias ou não tarifárias, contra países acusados de manter práticas consideradas injustificadas ou discriminatórias. China e União Europeia já foram alvo desse instrumento.

A investigação foi aberta contra o Brasil em julho de 2025 para apurar práticas do país em áreas como comércio eletrônico, tecnologia, tarifas de importação e desmatamento. Além desse procedimento, o Brasil passou a ser alvo de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para avaliar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano.

A investigação de 2025 argumenta que o Brasil pode estar prejudicando a competitividade de empresas americanas ao retaliar plataformas de redes sociais por não removerem determinados conteúdos políticos e ao restringir a capacidade dessas companhias de oferecer serviços.

O documento cita ainda "tarifas preferenciais e injustas", deficiências em práticas anticorrupção, problemas relacionados à propriedade intelectual, barreiras ao acesso ao mercado de etanol, desmatamento ilegal e suposta discriminação contra americanos no comércio.

Diferentemente do tarifaço, a Seção 301 possui respaldo jurídico mais consolidado nos Estados Unidos, e punições adotadas com base nela teriam menos chances de ser revertida judicialmente.

Atualmente, o principal alvo de medidas adotadas com base na Seção 301 é a China. Em 2018, durante seu primeiro mandato, Trump impôs tarifas punitivas ao país asiático por práticas consideradas desleais nas áreas de transferência de tecnologia, propriedade intelectual e inovação.

As tarifas atingiram cerca de US$ 370 bilhões em produtos chineses. Sete anos depois, elas continuam em vigor e foram ampliadas para outros segmentos, incluindo o setor naval.

ENTENDA QUAIS POLÍTICAS E PRÁTICAS DO BRASIL SÃO ALVO DOS EUA
A investigação elenca os fatores centrais nos quais o Brasil estaria prejudicando a economia norte-americana.

PIX E SERVIÇOS DE PAGAMENTO ELETRÔNICO
Numa referência a empresas de cartão de crédito americanas, o relatório aponta o Pix entre os alvos de supostas práticas abusivas, acusando o Banco Central do Brasil de favorecer o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento.

Os EUA chamam o Pix de "campeão nacional" de sistemas de pagamento.

"O duplo papel do Banco Central brasileiro como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas procedimentais adequadas. O banco tem atuado como regulador para prejudicar provedores americanos de serviços de pagamento eletrônico e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central obriga o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e exige que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque não inferior ao de qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência".

OUTROS PONTOS NA MIRA DOS EUA
- Tarifas preferenciais injustas do Brasil: Afirma que o Brasil reduziu tarifas de forma preferencial para determinados parceiros comerciais de grande porte, como Índia e México, em setores específicos, enquanto mantém tarifas mais elevadas sobre importações dos Estados Unidos, o que desfavoreceria as exportações norte-americanas;
- Aplicação da Lei Anticorrupção: Defende que os esforços anticorrupção do Brasil enfraqueceram, com promotores celebrando acordos de leniência pouco transparentes e indícios de conflitos de interesse em decisões judiciais, o que poderia prejudicar empresas americanas com atividades de comércio e investimento no país;
- Proteção da propriedade intelectual: Aponta falha em combater eficazmente a importação, distribuição, venda e uso generalizados de produtos falsificados, consoles de jogos modificados e dispositivos de streaming ilícitos, sem remédios ou penalidades dissuasoras. O documento cita como exemplo a Rua 25 de Março;
- Acesso ao mercado de etanol: Diz que o Brasil abandonou o tratamento recíproco e virtualmente livre de impostos para o etanol, que promovia o comércio bilateral, e impôs tarifas de importação injustas sobre o etanol dos EUA;
- Desmatamento ilegal: Cita a suposta falta de fiscalização efetiva das leis e regulamentações ambientais brasileiras, o que contribuiria para o desmatamento ilegal. Segundo o documento, áreas desmatadas ilegalmente são utilizadas para atividades agropecuárias, como pecuária e produção de milho e soja, conferindo uma vantagem competitiva considerada injusta às exportações agrícolas brasileiras.

Governo Trump conclui investigação contra o Brasil e propõe novo tarifaço de 25%

ISABELLA MENON E RICARDO DELLA COLETTA-WASHINGTON, EUA, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O governo Trump concluiu a investigação da seção 301 contra o Brasil e propôs novo tarifaço de 25% sobre bens importados do país. A investigação acontece por meio do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA), que fez a sugestão de um novo tarifaço como resposta ao que vê como práticas comerciais injustas do Brasil. A decisão sobre aplicação ou não cabe ao presidente dos EUA, Donald Trump.

Agora, o USTR vai abrir uma consulta para que o setor privado comente os resultados antes da elaboração do relatório definitivo, que precisa ser publicado até 15 de julho.

Mesmo que preliminar, a decisão negativa para o Brasil acontece na esteira da decisão dos EUA de designar CV e PCC como terroristas e reforça a pressão do governo republicano sob o governo Lula.

Por meio de comunicado, o USTR, que é comandado pelo embaixador Jamieson Greer, afirma que propôs medidas de resposta para consulta pública, enquanto os "Estados Unidos continuam a manter negociações intensas com o Brasil em busca de uma solução para as preocupações americanas".

"Lancei esta investigação sob a Seção 301 por determinação do presidente Trump para tratar de preocupações antigas e persistentes dos Estados Unidos em relação a determinadas políticas e práticas comerciais do Brasil. Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros, que se intensificaram nas últimas semanas", afirma Greer.

Segundo o embaixador, os países continuam "tendo divergências substanciais sobre a resolução dos temas identificados nesta investigação. Espero continuar o diálogo com o governo brasileiro antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a adoção de medidas de resposta."
A sugestão prevê 25% de tarifas sob os produtos brasileiros, mas exclui uma ampla lista de bens considerados estratégicos para a economia dos Estados Unidos ou cuja oferta doméstica é insuficiente. Entre eles estão diversos alimentos e produtos agropecuários, como carne bovina, castanha-do-pará, castanha de caju, coco, banana, manga, mamão, abacaxi, laranja, limão e outras frutas tropicais.

O anexo também preserva matérias-primas e produtos que poderiam causar problemas de abastecimento ou aumento de preços caso fossem taxados. O próprio USTR afirma que as isenções abrangem itens cuja tributação poderia provocar interrupções econômicas mais amplas, além de produtos que não podem ser produzidos nos EUA em quantidade suficiente ou obtidos facilmente de outros fornecedores.

Outro destaque é a exclusão da indústria aeronáutica. O documento poupa aeronaves civis, motores, peças, componentes e simuladores de voo, preservando um dos setores mais integrados entre Brasil e Estados Unidos. Também ficam fora da medida materiais informativos, doações, bagagens acompanhadas e produtos já sujeitos às tarifas impostas por outras legislações comerciais americanas.

Entre os resultados da investigação, o USTR acusa o Brasil de impor restrições a empresas americanas de tecnologia por meio de decisões judiciais que ordenam a remoção de conteúdos, a suspensão de perfis e o sigilo dessas determinações. Também criticam multas e outras punições aplicadas às plataformas que não cumprem essas ordens. Além disso, alegam que políticas brasileiras favorecem empresas nacionais de pagamento eletrônico em detrimento de concorrentes americanas.

O governo americano afirma que o Brasil concede tarifas mais baixas para centenas de produtos vindos do México e da Índia por meio de acordos comerciais preferenciais, sem oferecer tratamento equivalente aos produtos dos Estados Unidos.

Segundo o USTR, o Brasil não faz esforços suficientes para investigar, punir e prevenir casos de suborno e corrupção, o que prejudicaria a concorrência justa e os interesses comerciais americanos.

Por fim, os EUA argumentam que o Brasil falha no combate à falsificação e à pirataria, demora excessivamente para analisar pedidos de patente - especialmente no setor farmacêutico - e não mantém ações consistentes para proteger direitos de propriedade intelectual.

Assim, o escritório diz que, para garantir que seus pedidos sejam considerados, os interessados devem apresentar solicitações para participar da audiência pública, junto com um resumo de seus depoimentos, até 22 de junho de 2026. Comentários por escrito devem ser enviados até 1º de julho de 2026. Uma nova audiência sobre as medidas propostas acontecerão em 6 de julho de 2026.

Greer foi a autoridade que, na reunião entre Lula e Trump no início de maio, mais se queixou da forma como o Brasil conduz seu comércio com os Estados Unidos.

Esta investigação foi instaurada em julho de 2025, como uma das medidas anunciadas por Trump em reação ao que o republicano classificou como uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O governo americano incluiu no processo a análise de práticas em diferentes frentes: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas consideradas "injustas ou preferenciais"; leis anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

Os alvos vão desde queixas antigas de Washington, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até o Pix. Empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula nega.

Após o encontro entre os presidentes, foi instaurado um grupo de trabalho com integrantes dos dois países para trabalharem juntos em meio à investigação. A expectativa era de que os países trabalhariam por 30 dias -o prazo se encerraria na próxima segunda (7), porém a decisão da Seção 301 veio antes.

No dia 19 de maio, Greer teve uma primeira reunião virtual com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa e, pelos dois lados, foi vista como positiva. Apesar disso, os brasileiros saíram frustrados com a falta de clareza sobre o prazo de um mês que Lula e Trump teriam dado a seus auxiliares para resolver divergências comerciais
Também sob a justificativa de perseguição política a Bolsonaro, o Brasil foi atingido no ano passado por um tarifaço de Trump que elevou a sobretaxa para até 50% sobre uma série de produtos.

Impactos inflacionários nos Estados Unidos e a gradual aproximação entre as gestões Lula e Trump -que culminou em dois encontros entre os presidentes no fim de 2025- levaram à ampliação de exceções ao tarifaço.

Em fevereiro, a Suprema Corte americana considerou ilegal o uso da IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) para justificar tarifas abrangentes contra parceiros comerciais dos Estados Unidos. Como reação à determinação judicial, o republicano impôs uma tarifa global de 10%, que expira no final de julho.

Além da apuração aberta em 2025, o Brasil entrou na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano.

Esse processo avalia práticas em cerca de 60 países e foi lançado poucas semanas após a decisão da Suprema Corte que derrubou o tarifaço. Segundo especialistas, o objetivo dos EUA é mirar o comércio de parceiros com a China.

O plano do governo Trump é que essa segunda investigação tenha tramitação acelerada e as conclusões do USTR sejam publicadas em prazo mais curto do que o tradicional.

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