Em África, 62% das vítimas de tráfico humano são crianças

Grupos armados submetem milhares de menores a trabalhos forçados e ao combate nas linhas da frente, documenta a ONU

Em África, 62% das vítimas de tráfico humano são crianças
Em África, 62% das vítimas de tráfico humano são crianças

Agência Onu News - 02/06/2026 16:29:52 | Foto: © Unodc

Os grupos armados têm recorrido ao tráfico de crianças para reforçar as suas fileiras e aumentar o seu poder. O recrutamento de menores foi verificado em pelo menos 12 países africanos e afeta mais de 5 mil crianças.

Proteção de crianças
O novo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, documenta a existência de entre 80 e 90 grupos armados a operar em África envolvidos no tráfico de crianças e na sua exploração em operações relacionadas com conflitos em 2023.

O deslocamento forçado por conflitos armados impulsiona o colapso de sistemas destinados à proteção de crianças, criando vulnerabilidades exploradas por grupos armados e traficantes, sublinha a Unodc.

Pobreza extrema
Globalmente, uma em cada três vítimas de tráfico identificadas são crianças. Em África, as crianças constituem 62% das vítimas de tráfico de seres humanos, expostas à pobreza extrema, a sistemas de proteção frágeis e à separação familiar.

“Os rebeldes vão às aldeias e levam crianças”, afirmou Jacob Kattin, agente da Polícia Judiciária na República Centro-Africana. “Prometem-lhes dinheiro, poder e proteção, mas acabam por ficar presos em campos, a transportar armas e obrigados a combater”, acrescentou.

Crianças combatem na linha da frente
Depois de recrutadas, as crianças são forçadas a combater na linha da frente, a transportar armas e a recolher informações através de zonas perigosas, correndo risco de vida.

No entanto, muitas crianças sofrem lesões físicas a longo prazo, traumas, ansiedade, depressão e estigmatização social mesmo após o fim dos conflitos e a desvinculação dos grupos armados a que pertenciam.

No Sudão do Sul, onde milhares de crianças foram recrutadas à força, os esforços de reabilitação revelam a profundidade do trauma.

“A recuperação não se resume à libertação. Trata-se de reconstruir uma vida”, afirmou Wani Francis Lasu, da Taskforce Nacional de Combate ao Tráfico de Seres Humanos no Sudão do Sul. “As crianças precisam de apoio psicológico, educação e competências para reconstruírem o seu futuro. Sem isso, o ciclo continua”, conclui.

Violência contínua enfraquece
De acordo com o Unodc, a aplicação das leis internacionais contra o tráfico de crianças é particularmente difícil em regiões instáveis.

A agência sublinha que, por um lado, a violência contínua enfraquece as instituições e, por outro, o medo abafa as denúncias de violação dos direitos humanos entre a população.

No entanto, o padrão é inegável: “Onde o conflito persiste, as crianças estão em risco”, afirmou Kattin. “São arrastadas para sistemas de violência que não escolheram, forçadas a crescer demasiado cedo e deixadas a suportar as consequências muito depois de os combates terminarem.”

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