Lula e Xi falam por telefone e concordam em acelerar tratativa de acordo China-Mercosul, diz Planalto
São Paulo, Sp (folhapress) - 27/07/2026 11:29:50 | Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República
A China afirmou nesta segunda-feira (27) apoiar os esforços do Brasil para preservar sua soberania e independência e se opor a "interferência externa", após telefonema entre o presidente Lula (PT) e o líder chinês, Xi Jinping. Segundo a Reuters, a agência estatal chinesa Xinhua reportou que a mesma frase foi dita por Xi diretamente a Lula na ligação.
Os dois líderes falaram neste domingo. A necessidade de acelerar o início das tratativas de um acordo entre o Mercosul e a China foi um dos principais assuntos tratados.
O comunicado de Pequim não cita os Estados Unidos nem a Argentina, mas ocorre em meio a investidas dos governos Donald Trump e Javier Milei sobre a política nacional.
No sábado (25), o Itamaraty negou o visto a dois funcionários do Departamento de Estado do país que viajariam ao Brasil nos próximos dias.
Segundo o jornal The Washington Post, o presidente americano planejava mandar os auxiliares para lançar dúvidas sobre a integridade e a transparência do processo eleitoral brasileiro.
O governo Donald Trump também impôs neste mês tarifa de 25% a produtos brasileiros ao fim de investigação comercial. A abertura da apuração foi anunciada em julho do ano passado, em carta na qual Trump anunciou sobretaxa em retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.
Já Milei foi no sábado (25) à convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro (PL) como candidato à Presidência, em São Paulo. O argentino atacou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, que havia negado seu pedido para visitar Jair Bolsonaro. Em resposta, o governo Lula convocou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires e chamou o representante argentino em Brasília ao Itamaraty.
Lula tem buscado usar o mote da soberania nacional e associar Flávio ao tarifaço, chamando os integrantes da família Bolsonaro de traidores da pátria.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda mostrou que 52% dos brasileiros acreditam que Trump impôs o tarifaço para ajudar a candidatura de Flávio, ante 37% que discordam. Além disso, 34% dizem que Lula está certo ao atribuir ao rival responsabilidade pela medida, ante 26% que concordam com Flávio ao culpar o governo brasileiro.
Na conversa com Xi, Lula também defendeu ampliar a cooperação bilateral em inteligência artificial, energia e minerais e afirmou que o Brasil quer receber mais empresas chinesas. Segundo o comunicado, os dois líderes trataram ainda de coordenação no Brics, multilateralismo e reforma da governança global.
Lula e Xi falam por telefone e concordam em acelerar tratativa de acordo China-Mercosul, diz Planalto
VICTORIA DAMASCENO-PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) - A necessidade de acelerar o início das tratativas de um acordo entre o Mercosul e a China foi um dos principais assuntos tratados no telefonema que ocorreu neste domingo (26) entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder do regime chinês Xi Jinping.
Segundo relato do Planalto, os líderes concordaram que era necessário acelerar o início da negociação, com "as flexibilidades necessárias". A publicação da mídia estatal chinesa não tratou do tema.
A conversa durou mais de uma hora e partiu do lado brasileiro.
O telefonema acontece cerca de quatro dias após o início da nova tarifa imposta pelos Estados Unidos ao Brasil, criando uma alíquota adicional de 25% sobre cerca de 3.000 produtos brasileiros. A decisão do governo de Donald Trump foi tomada a partir de uma investigação da Seção 301, feita pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA), que examina práticas comerciais consideradas injustas.
As informações divulgadas pelo Planalto e pela mídia estatal chinesa não afirmam se o novo tarifaço foi ou não tratado no telefonema. Ao mesmo tempo, Xi declarou que apoia o Brasil "na defesa de sua soberania e independência, na oposição à interferência externa e na contribuição para a manutenção da paz e da estabilidade regional e mundial".
A fala faz eco ao posicionamento da chancelaria chinesa feito após o estabelecimento das tarifas. Na ocasião, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, declarou que "as guerras tarifárias não têm vencedores e não servem aos interesses de ninguém".
"A China está pronta para trabalhar com o Brasil e outros países para defender o regime multilateral de comércio, que tem a OMC como pilar central, e para promover a equidade e a justiça internacionais", disse.
Xi e Lula também trataram do fortalecimento do Brics, com o líder chinês afirmando que a cooperação entre os membros do bloco auxilia a "manter o ímpeto da unidade, alcançar mais resultados e escrever um novo capítulo de solidariedade e autossuficiência para o Sul Global", segundo Pequim.
Ao enumerar o que faz de 2026 um ano particular para os dois países, Xi citou o 105º aniversário de fundação do Partido Comunista Chinês, o início ciclo de metas de cinco anos que organiza o planejamento econômico do país asiático, e o fato de que o Brasil terá pela frente uma agenda política doméstica decisiva -não nomeou, porém, a eleição presidencial de outubro.
Foi nesse enquadramento que o líder chinês afirmou estar disposto a reforçar a coordenação estratégica com o Brasil tanto no plano bilateral quanto no multilateral, e disse que Pequim dá alto valor à posição e à influência internacionais do país.
A nota do Planalto é mais específica sobre o conteúdo bilateral. Segundo o texto, os dois reiteraram o propósito de ampliar a cooperação em áreas estratégicas e de alta tecnologia, entre elas inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes.
O presidente brasileiro ressaltou que seu governo "segue comprometido com a diversificação de mercados e parceiros comerciais", diz o documento, no trecho em que o documento aproxima a conversa do impasse com Washington.
Os dois também destacaram os resultados do comércio bilateral, o efeito das jornadas culturais em curso neste ano nos dois países, como o ano cultural Brasil-China, e o acordo de isenção de vistos de curta duração, que segundo o Planalto deve ampliar o fluxo de turistas e as oportunidades de negócio.
Os líderes também discutiram a proliferação de conflitos no mundo e seus efeitos sobre a segurança alimentar e energética global, além das perdas humanas e materiais.
Sobre o Oriente Médio, concordaram que as restrições à livre navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb têm efeitos negativos sobre a economia mundial, e expressaram ainda preocupação com a continuidade da situação humanitária em Gaza.
Quanto à Ucrânia, apontaram o Grupo de Amigos da Paz, iniciativa lançada por Brasil e China, como caminho possível para a retomada das negociações.
Os dois líderes criticaram a incapacidade do Conselho de Segurança das ONU (Organização das Nações Unidas) de responder a essas crises e observaram que o próximo secretário-geral da organização enfrentará um cenário desafiador.
Ao fim, segundo a mídia estatal chinesa, Xi ampliou o quadro. Disse que China e Brasil, como membros importantes do Sul Global, devem se posicionar firmemente do lado certo da história e do lado do progresso da civilização, e ter papel construtivo maior na reforma do sistema de governança global.
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