×
ContextoExato

Conhecemos os cães de Chernobyl em tour virtual 34 anos após tragédia

Conhecemos os cães de Chernobyl em tour virtual 34 anos após tragédiaFoto: Reprodução/Airbnb

Cachorro passeia por uma das paisagens mais comuns de Chernobyl

Juliana Simon De Nossa - 26/04/2020 - 19:36:47

Nunca cogitei uma viagem a Chernobyl, cujo acidente nuclear completa 34 anos neste domingo (26). Parece perigoso demais, estranho demais, dramático demais. Pelo menos era o que eu tinha na cabeça até o último sábado (18).

Por convite do Airbnb, ingressei na experiência "Meet the Dogs of Chernobyl", que consiste em conhecer os cães (fofo) que habitam a zona de exclusão (oi?) em um tour virtual de uma hora (estranho...).

Cachorro passeia por uma das paisagens mais comuns de Chernobyl  - Reprodução/Airbnb

Cachorro passeia por uma das paisagens mais comuns de Chernobyl Imagem: Reprodução/Airbnb

Mais viagens do isolamento

Livros para "viajar" dentro de casa em tempos de coronavírus

Coronavírus: museus oferecem tours virtuais e são opção durante isolamento

Conheça cenários dos filmes da saga "O Senhor dos Anéis" sem sair de casa

E confesso: não foi sem preconceitos que ingressei em uma reunião do Zoom para o tour. Nas outras janelas de "turistas" estávamos eu, seis americanos e uma japonesa que mora em Londres. Todos estavam lá de curiosos, gente comum entediada na quarentena.

Lucas e um dos cães que habitam Chernobyl - Reprodução/Airbnb

Lucas e um dos cães que habitam Chernobyl

Imagem: Reprodução/Airbnb

Nosso guia, o americano Lucas Hixson, começa o passeio pela paisagem um tanto sem graça - a entrada do que poderia ser uma fábrica qualquer. E conta sua história: especialista em radiação, reside na macabra região há cinco anos e, desde 2017, é o anjo que alimenta e cuida dos mais de 600 cachorros que circulam livremente pelos 30 quilômetros da zona de exclusão ao redor da usina nuclear.

A aflição está no ar

Nos primeiros minutos, Lucas expõe na tela o mapa da usina e mostra por onde "passaremos". Alguns blocos de prédios aqui e ali e um "U4" faz soar a maior referência que eu tenho do lugar: a série da HBO e aquela trilha espetacular (a minha "mais tocada" do Spotify em 2019, ó) da trama baseada em fatos tristemente reais.

Nasci quatro meses depois do acidente em 26 de abril de 1986. Chernobyl, para mim, era tema de livros, de documentários, mas jamais de um roteiro de viagem. Da Ucrânia mesmo o que conheço são as belas imagens de Kiev, os relatos de perseguições aos judeus e, óbvio, a guerra recente com a Rússia e todas aquelas notícias que parecem de um mundo muito, muito distante.

Cachorro passeia por uma das paisagens de Chernobyl  - Reprodução/Airbnb

Cachorro passeia por uma das paisagens de Chernobyl

Imagem: Reprodução/Airbnb

Na "U4" aconteceu o maior acidente nuclear da história, que pode ter causado 16 mil mortes pela contaminação da radiação liberada no ar e que viajou por toda a Europa. Lembrando disso, meu interesse pelo tour agora é total.

Em que outra oportunidade circularia em um diminuto grupo por um símbolo de uma das maiores tragédias da humanidade? Bem, ela chegou bem quando estamos enfrentando outro drama na pele. Estou de casa em quarentena, assim como meus colegas de tour. "In loco" somente o guia e seu motorista, já que tudo também está fechado por conta da pandemia e os 2 mil funcionários do local (sim, eles existem) também isolados.

E mais: a região está sendo atingida há duas semanas por incêndios florestais. Desgraça pouca é bobagem.

Encontro agridoce

Lucas e os cães que habitam Chernobyl - Reprodução/Airbnb

Lucas e os cães que habitam Chernobyl

Imagem: Reprodução/Airbnb

Como anuncia a experiência, estamos aqui para ver os cães. Lucas sai do carro, assovia e grita em ucraniano. Despeja um saco de ração e pedaços de carne no chão. Surge o primeiro cachorro.

(Segura o choro porque a história é triste - e se seu espírito Luisa Mell é aguçado, prepare-se para se revirar).

Dócil, mas bastante desconfiado, o enorme cão se alimenta com tímidas abanadas de rabo.

Como se a cena não fosse triste o bastante, lá vai o guia começar seu relato de partir o coração: a primeira imagem que teve ao chegar em Chernobyl, em 2015, foi a de oito cachorros na estação de trem, atrás de comida - eles escolhem as áreas mais habitadas por entenderem que humanos são sinais de comida (dada ou furtada).

Depois disso, mais informações que só dão mais vontade de atravessar a tela e dar um cafuné em cada um dos bichinhos:

Acredita-se que a população canina atual é de descendentes dos pets abandonados na evacuação da cidade mais atingida pelo acidente nuclear (Pripyat). Em 34 anos, eles se reproduziram loucamente, muitos sobreviveram ao frio, fome, radiação e a ataques de lobos nas florestas fugindo, justamente, para as estruturas da usina.

Cão se alimenta em Chernobyl - Reprodução/Airbnb

Cão se alimenta em Chernobyl

Imagem: Reprodução/Airbnb

Os cães são bastante independentes e não querem interação além da que resulta em comida ou abrigo. Com isso, não entendem o conceito de potinho, caminha, brinquedos. Lucas dá o exemplo de um programa de adoção para EUA e Canadá com filhotes recolhidos em Chernobyl: nenhum deles entendia o "brincar" durante meses.

A média de vida dos cachorros é de 2 a 3 anos. A mais velha que surge ao final do tour é uma "senhorinha sortuda" de apenas 5 anos.

Mas nem só de más notícias vivem esses bichinhos. Todo dia, Lucas faz a ronda de alimentos para os animais - e a taxa paga para o passeio virtual é a responsável por boa parte do sucesso da iniciativa, além de doações no site Clean Futures Fund.

Eles ganham nomes e, se quiserem, muito carinho. Nas carinhas das câmeras do Zoom, olhos marejados e uma infinidade de "awns". Eles são enormes, famintos, maltrapilhos, arredios e lindos. Os cães merecem o céu, como todo mundo sabe.

Cães se alimentam em frente ao monumento em homenagem aos heróis de Chernobyl - Juliana Simon/UOL

Cães se alimentam em frente ao monumento em homenagem aos heróis de Chernobyl

Imagem: Juliana Simon/UOL

A pergunta irresistível

"O que você e as pessoas por aí acharam da série da HBO?", pergunto com um tremendo medo de soar meio fútil diante do sofrimento alheio, romanceado e televisionado. A resposta é carinhosa, educada e zero problematização:

"Todo mundo assistiu e eu acho um trabalho fantástico. Claro que todos sabem que é uma recriação e que terá um certo nível de 'criatividade', mas acho que muitos concordam comigo quando digo que ampliou a curiosidade e o conhecimento não só sobre o acidente, como sobre a região", opina Lucas.

Depois do lançamento da série em 2019, o turismo local "bombou" e hoje é o segundo centro de visitantes na Ucrânia. O guia acredita que, diante da covid-19, quem reclamou da série vai mesmo é sentir saudades dos visitantes.

34 anos depois, presos de novo

Por uma hora, estive em Chernobyl e esqueci que estou há um mês em casa, vendo rua somente quando levo o Ziggy para passear.

Ao fim do tour, porém, é inevitável comparação do pavor de Pripyat, Ucrânia e Europa de 34 anos atrás com o que vivemos hoje, em uma escala mundial, por conta do coronavírus.

"Turistas" de Chernobyl se despedem depois do tour virtual - Juliana Simon/UOL

"Turistas" de Chernobyl se despedem depois do tour virtual

Imagem: Juliana Simon/UOL

Assim como depois da explosão lá em 1986, ninguém sabe quando poderemos voltar à vida normal. Para a população local, é reviver os dias de máscaras nos poucos rostos que saem às ruas, de isolamento, distância e tensão. Hoje, o mundo todo sabe como eles se sentiram.

Apesar disso, ao me despedir dos cães que posam em frente ao monumento em homenagem aos bombeiros heróis de Chernobyl, relembro que, apesar de ninguém saber quando, o fato é que a doença encontra controle, a fumaça se dissipa e o temor uma hora acaba.

Assim como os cães, a luta por sobreviver pode ser à distância, mas não é solitária. Fica em casa - e aproveita as telas para explorar o mundo.

Comentários para "Conhecemos os cães de Chernobyl em tour virtual 34 anos após tragédia":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório