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Diário de uma vida sem lixo

Diário de uma vida sem lixoFoto: Estadão

Perrengues e (boas) surpresas da tentativa de adotar esse estilo de vida mais consciente com o planeta

Estadão Conteúdo - 02/09/2020 - 08:53:10

Já sabemos que separar o lixo (supostamente) reciclável não é o bastante para diminuir os impactos da nossa própria produção de resíduos no planeta - evitar canudos e a sacola plástica do supermercado tampouco. Inspiradas pelas ambientalistas e influenciadoras Bea Johnson e Cristal Muniz, resolvemos (nós, as repórteres Ana Lourenço e Danielle Nagase) tentar colocar em prática a filosofia Zero Resíduos por uma semana. O que isso quer dizer: por sete dias corridos, recusamos - ou pelo menos tentamos recusar - embalagens descartáveis de uso único. Plástico foi terminantemente proibido. Vidro, metal, papel e papelão foram aceitos em último caso - mas a ideia era, de fato, não utilizar.

Para que essa empreitada fosse possível, percebemos que precisaríamos cozinhar mais - para fazer do zero comidas que antes eram compradas prontas -, além de produzir nossos próprios itens de higiene e beleza, assim como os produtos de limpeza doméstica - afinal de contas, tudo isso é comprado do mercado dentro do quê? Embalagens. Com isso, passou a fazer mais sentido comprar em lojas a granel e hortifrutis do que no supermercado.

Mudança de hábito: compras feitas em potes retornáveis e sacos de panoAna Lourenço/Estadão

Se é verdade que uma mulher prevenida vale por duas, duas valem por quatro. Para começar a semana zero resíduos sem falhas, tratamos de ir às compras para providenciar alguns itens básicos. Com vários potes de vidro - garimpados no fundo do armário da cozinha -, fomos a lojas a granel garantir os ingredientes para fazer desodorante e pasta de dentes, além de mantimentos para o café da manhã da segunda-feira, dia 1 do desafio.

Apesar de já ter o hábito de fazer compras em lojas a granel, foi a primeira vez que (eu, Danielle) pedi a um atendente que pesasse os produtos nos meus próprios potes retornáveis. A vergonha era grande, mas, olhe só, fui surpreendida. “Você faz que nem na Europa, né moça?!”, disse o atendente. Bem, o leite vegetal para tomar com café logo cedo estava garantido - ou quase. Eu ainda precisava deixar as castanhas de molho e depois bater com água (peguei a receita na internet).

Lojas a granel viram parte da rotina para evitar desperdício de embalagens e ingredientesEpitácio Pessoa/Estadão

Já eu (Ana), que tenho passado a quarentena em Piracicaba, tive uma resposta bem diferente ao apresentar os meus potes. “Só estou tirando a tara porque você é a única cliente aqui na loja agora. Se estivesse cheia não faria isso, não.”

Com ou sem simpatia, ambas conseguimos arrematar os produtos, inclusive o mais importante de todos - o bicarbonato de sódio, presente em uma porção de receitas zero waste. Também compramos óleo de coco, óleos essenciais e vinagre de maçã em garrafa de vidro, detalhe importante - sim, ele é mais caro que o seu concorrente em embalagem de plástico. Em alguns casos, adotar um estilo de vida zero resíduos pode sair mais caro.

Ana: Acordei, lavei o rosto e comecei a preparar a minha pasta de dentes, com óleo de coco, bicarbonato de sódio e óleo essencial de hortelã. Em menos de três minutos estava pronta. Sabia que o gosto não iria ser dos melhores, apesar do cheirinho refrescante. Com uma espátula, coloquei um pouco na minha escova e comecei o processo, que foi acompanhado de uma careta durante todo o tempo. Eca! Fiz um bochecho com bastante água para tirar o salgado da boca, mas não deu muito certo. Deixei a água esquentando para o café enquanto descia para ver se o “moço do ovo” já tinha chegado - sim, aqui em Piracicaba o criador de galinhas vende seus ovos para os moradores do prédio. “Me vê uma dúzia, por favor”, pedi, entregando uma bacia funda.

Um pouco descrente por causa da pasta de dente, fui fazer o desodorante. Quem diria que óleo de coco com bicarbonato de sódio e óleo essencial de lavanda dariam certo? Pois deram, sim, e muito! Com o dedo, peguei um pouco da mistura e espalhei diretamente na axila até ficar “sequinho”. A sensação foi como passar um hidratante. Me protegeu o dia todo.

Em seguida, fui na horta. Chegando lá, decepção: tudo estava embalado em plástico. “Se eu tirar, você pode reutilizar, moça?”, perguntei ainda com um fio de esperança. “Alguns dá para eu usar de novo, sim”. Desembalamos alfaces, tomates, rúculas e cenouras e colocamos diretamente na sacola retornável. Aqueles produtos que não poderiam ter sua embalagem reaproveitada, de maneira que ela só iria ficar com o lixo que, de um jeito ou de outro, eu produzi, eu deixei.

A tal da pasta de dentes, feita com óleo de coco e bicarbonato de sódioDanielle Nagase/Estadão

Danielle: Fiz a pasta de dentes, assim como o desodorante, no dia anterior. Óleo de coco, bicarbonato de sódio e óleo essencial de hortelã-pimenta. Quem cheirinho gostoso! Se o peixe morre pela boca, eu morri pelo nariz: fui traída pelo aroma e me esqueci que o bicarbonato é sal-ga-do. Que susto! Nosso primeiro encontro foi péssimo, mas combinamos de tentar outras vezes.

Tsh! Tsh! Apertei o desodorante duas vezes em cada axila, pedi pra tudo o que foi santo para não ficar fedida no meio do caminho, e fui para a zona cerealista atrás de outros ingredientes para fazer um tônico e um sérum para o rosto. A maioria dos cosméticos que eu tinha em casa (ainda tenho, não ia jogar fora, mas não usei por sete dias) era embalado em plástico - inclusive o sabonete facial e o protetor solar, mas esses não abandonei.

Bati perna por uma hora. Arrematei: óleos de abacate e de chia, óleos essenciais de lavanda e de alecrim, chá verde (pesado no meu pote de vidro) e a cara emburrada do vendedor por ter feito esse sacrifício. Melhor ser zero resíduos nas lojas a granel de bairro, fica a dica. Não encontrei manteiga de cacau para testar uma outra receita de desodorante. Tudo bem. Nem fiquei fedida mesmo.

Ana: Acordei pensando em lixo. Levantei da cama e fui lavar o rosto. Olhei para todos os produtos da bancada. Diversas embalagens com produtos das mais diferentes funções: creme para o cabelo, outro para a pele, outro para os olhos, mais um para o cabelo… Precisamos de tanto? Lavei o rosto com um sabonete facial e passei o protetor solar por cima - sim, ele vem em uma embalagem. Nem no cabelo consegui ser completamente lixo zero. Apenas escovei, mas ao cair alguns fios, tive que colocá-los na pilha de lixos da semana. Acredita que eles não são compostáveis? Nem eu.

Decidi ir a outra horta. Lá a plantação não era visível, porém muito menos coisas estavam embaladas (uhul!). Coloquei os alimentos in natura nas minhas sacolas retornáveis e parti em direção à madeireira, onde compro serragem para a minha composteira. Normalmente, compro o saco (de plástico) pronto que está na prateleira, mas dessa vez pedi, com toda gentileza do mundo, para o atendente colocar mais ou menos o mesmo tanto diretamente na minha embalagem retornável. “Claro, moça. Que atitude legal!”, disse ele, para minha surpresa.

Danielle: Coloquei o desodorante à prova de novo, mas dessa vez de fogo: saí para correr. Trinta muito depois eu estava pingando de suor e ainda com o cheirinho herbal da melaleuca debaixo do braço. Grata surpresa! Além de não fazer mal pra minha pele, por não conter alumínio e outra porção de coisas que não sei nem decifrar nos rótulos dos produtos convencionais, ele ainda é muito, mas muito mais barato. Esse hábito vou levar para a vida.

Descasque mais, desembale menos: feiras e hortifrutis são alternativa para comprar ingredientes sem embalagemRafael Arbex/Estadão

Bem, correr dá fome e eu precisava abastecer a despensa. Mais do que levar minha sacola retornável (isso já é o mínimo, né gente?!), desviei meu caminho de costume para ir à feira livre e não ao mercado. Mesmo assim, tive de rebolar para não levar nenhum saco plástico para casa. Frutas e legumes soltos, acomodei em saco de pano (daqueles que vêm com calçados novos, nunca usados), mas não sem antes avisar aos feirantes. “Posso colocar aqui? Vou levar meia dúzia. Pode conferir, se quiser”, “Não, não precisa de sacola pras banana, obrigada”, “Só tem ervilha no isopor? Pena, então não vou levar.”

Alface roxa e americana, depois de muitos “obrigada, não precisa MESMO”, foram direto para a sacola de feira. A rúcula de sempre, não comprei. Existe rúcula vendida sem saco plástico? Na peixaria do mercado municipal do Tucuruvi, fui buscar uma peça de atum. Levei um refratário de vidro com tampa e, já sem vergonha, me sentindo a própria garota propaganda zero resíduo, entreguei ao peixeiro dizendo que preferia não usar a de isopor.

Ana: Mais uma manhã com gosto salgado. Que saudade daquela sensação refrescante na boca… Só não é maior do que a saudade que eu estou do papel higiênico. Pois é, estou levando muito a sério essa semana sem lixo. O objetivo é usar somente o bidê depois das necessidades fisiológicas. Isso porque o papel higiênico não é reciclável ou compostável. Falando em compostagem, a minha composteira está muito bem, obrigada. Se não fosse ela, a minha pilha de lixos orgânicos realmente estaria muito maior.

À noite, decidi parar de postergar e finalmente lavar o cabelo. Antes, claro, fui para cozinha fazer o xampu e o condicionador.

Composteira caseira acolhe resíduos orgânicos para transformar em aduboBruno Geraldi

Entrei no banheiro com duas jarras de metal: uma com água, bicarbonato, leite de coco e azeite e a outra com vinagre de maçã diluído em água. Com o xampu, a experiência durante o banho pareceu ótima. Senti realmente que ele estava sendo lavado e o cheirinho do leite de coco era gostoso.

Já o condicionador não foi tão bom. O cheiro forte invadiu completamente o meu box e ao pentear, percebi que ele não ajudou em nada a tirar o embaraçado. O jeito foi passar só um pouquinho de condicionador. “Pelo menos vai sair um pouco desse cheiro horrível”, pensei, sem nem saber que esse seria o menor dos meus problemas. Ao sair do banho e começar a secar o cabelo, quase chorei. Meus fios estavam brilhantes de tão oleosos - além do fedor do bendito vinagre que continuava lá.

Danielle: Adiei o tanto que eu pude - me aproveitando descaradamente do fato de estar em quarentena e, portanto, sem ver ninguém conhecido. Meu cabelo estava sujo, desgrenhado, precisava ser lavado. Não tinha mais jeito. Entrei no box com duas bisnagas, uma com água e bicarbonato, outra com água e vinagre de maçã e sabendo que esse teste poderia dar muito errado. Meu cabelo é cacheado, naturalmente seco.

Lavar sem condicionador? Como vou desembaraçar os fios? Respira fundo, vai: primeiro o bicarbonato, só no couro cabeludo. Nenhum xampu tradicional de limpeza profunda é capaz de reproduzir aquela sensação de limpeza extrema, zero, vírgula, zero por cento de gordura no couro cabeludo. Hora de enxaguar e passar a solução de vinagre, dessa vez nas pontas para “dar maciez e brilho”. Tentei desembaraçar com os dedos, como de costume. Duas mechas se uniram em um nó de marinheiro. Esquece, deixa assim, vamos ver no que dá. Passei óleo de abacate para finalizar - li que quatro gotinhas eram suficientes, risos. Passei, no mínimo, uns dez mililitros. O cabelo ficou apresentável, mas era impossível mexer nele, de tão seco.

Ana: A vontade de comer chocolate continua me invadindo (não achei nenhum a granel). Mas, em compensação, minha pele melhorou muito com esse distanciamento dos doces. Por falar em pele, hoje decidi fazer um blush com pó de beterraba, cacau em pó e óleo essencial de lavanda. Não consegui muita aderência de primeira, mas depois de algumas passadas, deu uma corzinha, sim. O que me incomodou foi o cheiro forte da planta. Vou tentar fazer sem o óleo da próxima vez - se é que ela vai existir.

Se por um lado ainda tenho minhas dúvidas com o blush, por outro, o sabão é um produto que já posso afirmar: não sei mais viver sem.

Sabão multiuso, pasta de dentes e até blush foram feitos em casaAna Lourenço/Estadão

É incrível como a gente usa um produto para cada coisa sem necessidade - sabão para a roupa, desinfetante para o piso, detergente para a louça. Com essa versão multiuso - feita de sabão de coco, álcool e bicarbonato de sódio - não preciso de mais nenhum outro produto.

Testei com tudo. Com a louça - que grata surpresa, sempre quis trocar o detergente por algum biodegradável, mas acabava desistindo por conta do preço -, com as roupas, que saíram na máquina menos cheirosas do que de costume, mas limpas e sem manchas. Na bancada e no piso - ora, a receita dizia multiuso, certo? - também funcionou bem. Já no vidro, apesar de ter tirado a poeira da superfície, o líquido criou uma pequena mancha no lugar.

Danielle: Sigo num relacionamento complicado com a pasta de dentes natureba. Saudade do gostinho refrescante e gostoso das pastas de farmácia. No mais, sem novidades (e muito pouco lixo produzido).

Ana: Não aguentava mais comer ovo puro (difícil encontrar acompanhamentos ou alternativas que não gerassem lixo). Fui até a padaria comprar pão. “Moça, será que você pode me vender três pãezinhos e colocar nessa minha sacola de pano por favor?” - sim, mais uma vergonha para coleção. Ela concordou, mas disse que o único jeito que poderia pesar era com o saco de papelão. Depois de ter a certeza que ela reutilizaria esse saco com o próximo cliente, aceitei. Voltei para casa sem lixo e fiz mais um ovo - porque queijo, manteiga ou requeijão estavam fora da lista.

Em vez de café, fiz chá. A sorte é que eu tinha especiarias soltas para colocar no infusor, porque apesar de saquinhos de chás serem permitidos na composteira, o plástico que embala a caixa, a caixa e o plástico que embala o chá (pra quê tudo isso?) são lixo.

Sabendo que no dia seguinte teria de lavar o cabelo de novo, decidi ligar para uma amiga que faz uso do xampu e do condicionador caseiro há tempos para saber se estava fazendo tudo certo. “É questão de costume”, disse ela, confirmando que o seu cabelo também passou pela fase oleosa. Não quis arriscar e saí para comprar xampu e condicionador em barra.

Alternativas sem embalagem plástica para cuidar do cabelo: bicarbonato de sódio, vinagre de maçã, óleo de abacate e xampu em barraDanielle Nagase/Estadão

Eu e minhas amigas tínhamos planejado há alguns dias fazer um “amigo secreto de delivery” nesta sexta. Infelizmente, calhou de ser na mesma semana da experiência, porém achei uma boa oportunidade para ver como era o tal do lixo zero quando envolvia outras pessoas. Resultado: ninguém consegue ser zero lixo sozinho. Tive de ligar para mais de seis restaurantes para saber a possibilidade de um delivery com menos lixo. Fui vencida pela preguiça. Apesar de não ter encontrado nenhuma opção perto da casa da minha amiga secreta com embalagens biodegradáveis ou retornáveis, um restaurante tinha embalagens de papelão em vez do temido plástico.

A amiga que me tirou também entrou no desafio e fez questão de ligar para uma lanchonete piracicabana, que usou a menor quantidade possível de embalagens na entrega. O pedido veio com uma mensagem simpática:“Parabéns pela atitude”, escreveram.

Danielle: Minha criatividade culinária para variar o cardápio sem usar nenhum ingrediente com embalagem, assim como minha paciência para cozinhar, já estavam se esgotando. Usei e abusei das saladas caprichadas à noite. Até niçoise, com aquele atum que comprei, eu fiz. Sopas de legumes variados também salvaram algumas refeições. Não estava ruim, mas bateu vontade de comer macarrão. Eu tinha três opções: comprar espaguete embalado em plástico, optar pelo produto que vem na caixinha de papelão, ou não comprar e fazer do zero em casa. Eu não queria furar minha semana zero resíduos, mas também não queria colocar a mão na massa, literalmente (sim, eu sei que é fácil fazer macarrão). Quer adotar o tal do estilo zero waste? Se organize, planeje o cardápio semanal e cozinhe muito. Delivery? Carta fora do baralho.

Ana: Acordei e, curiosa para testar o xampu em barra, fui direto para o banho. Apesar de ser muito mais agradável do que a experiência anterior, não foi um sucesso. O cabelo continuou embaraçado e - de novo - foi preciso passar mais condicionador. Em tempo: estamos em quarentena e o meu cabelo não tem uma boa hidratação ou qualquer tipo de corte nas pontas há seis meses.

Já que o cabelo não estava hidratado, fui deixar o corpo. Fiz um creme caseiro com manteiga vegetal, óleo de coco e óleo de amêndoas. A receita pedia manteiga de karitê, cacau, manga ou abacate, mas não encontrei nenhuma das opções. Substitui por um creme vegetal que, infelizmente, vinha em um potinho de plástico. Não sei se foi essa troca de ingredientes, mas o resultado não foi o que eu esperava. Realmente hidratou e foi gostoso de passar na pele, mas demorou horas para secar completamente, o que me obrigou a deitar na cama imóvel durante a espera para fugir da minha cachorra que queria, de qualquer jeito, lamber meu pé.

Cosméticos feitos em casa para substituir as versões embaladas em plástico da indústriaDanielle Nagase/Estadão

Danielle: Estou impressionada com a pele do meu rosto, de pêssego, modéstia à parte. Os produtos de beleza natural realmente funcionam. Desde o dia 1 da semana zero resíduos tenho passado um tônico de chá verde e vinagre de maçã pela manhã - sim, tem cheiro de vinagre, mas ele some assim que sua pele absorve o líquido (bom, eu acho que some, pelo menos eu paro de sentir).

À noite, depois de lavar o rosto, passo o sérum que eu mesma fiz com óleos de chia e abacate e gotinhas de óleos essenciais de melaleuca, alecrim e lavanda. A alquimia hidrata e acalma a pele, isso sem falar no glow. Certamente isso não deve valer para todos os tipos de pele, ok?! Eu arrisquei e deu certo. Minha pele agradece.

Ana: Nem acredito que é o último dia! A semana, para mim passou devagar pela sua intensidade - tanto em aprendizado quanto em mudanças. Quero levar algumas delas comigo, como o sabão e o desodorante. Outras, no entanto, assumo o lixo - adeus pasta de dente salgada, bem-vindo de volta papel higiênico. Acho que o maior aprendizado foi o que eu carinhosamente apelidei de sexto R: repensar. Nossa atitudes, consumos, impactos. Se dá para fazer melhor, por que não?

Repensar, no entanto, entendendo que existe a possibilidade de errar. A qual, aliás, eu admito não orgulhosamente. Fui vencida pelo cansaço (literalmente) e abri uma latinha de energético. O almoço também teve resíduos. Meu avô fez uma receita especial que levou uma lata de creme de leite. “Pelo menos é metal”, pensei, enquanto me deliciava com a comida.

Dani: Faltam três escovações para eu me livrar dessa pasta de dentes. Bem que tentamos, mas não nos suportamos. Melhor cada uma ir para o seu lado e seguir a vida. Esse lixo vou continuar produzindo, infelizmente. Também devo retomar minha rotina de cuidados com o cabelo - sim, é muito plástico, estou com faniquitos, mas uma mulher com cabelo hidratado, dizem, não quer guerra com ninguém. Talvez, quem sabe, eu teste as versões em barra. Talvez. De resto, levo todos os ensinamentos aprendidos nessa semana zero resíduos para a vida. Os potes de vidro (já esvaziados) e os saquinhos de pano já estão a postos para as compras da semana. Ai, não! Tomei um café em cápsula. Juro que por distração! Nossa, estou mal.

Quase zero resíduos: admitimos, houveram falhar durante a semana, mas poucas - e não eram de plásticoAna Lourenço/Estadão


‘Aprendi que pequenas ações fazem a diferença’

Eu sempre me considerei ambientalmente consciente. Sou vegetariana, evito ao máximo fazer parte de um consumismo exagerado, reciclo, tenho uma composteira e sempre reutilizo canudos, sacolas e garrafas térmicas. Achava que já fazia bastante, e realmente dava a desculpa de que iria me dar muito trabalho fazer algo a mais. Quando jogo meu lixo na lixeira, automaticamente penso que ele não é mais problema meu. Mas é. Ele não é teletransportado, mas atirado em aterros sanitários que contaminam o meio ambiente.

Aprendi com essa reportagem que pequenas ações diárias fazem muita diferença. Para mim, ficou claro que existe um certo pré-conceito do movimento. Afinal, antes mesmo de começar, estava convicta que daria muito mais trabalho procurar os ingredientes, fazer os produtos e ficar atenta a todo o lixo o tempo todo. Além disso, existia a preocupação do outro, um certo medo de recusar os lixos oferecidos e pedir algo diferente do comum. No hortifruti, por exemplo, quando eu entreguei minha sacola de pano cheia de pêras para a senhora do caixa pagar, minha mãe logo começou a se desculpar. “Ai, que trabalho, né? Desculpa, viu? Ela está fazendo uma experiência.” Ainda bem que estávamos de máscara!

Durante a semana, pedi delivery e pude ver a dificuldade de não produzir lixo nesse caso. Me questionei, durante o Dia dos Pais, sobre o tanto de lixo que o meu avô produziu com cada ingrediente usado no almoço. Tudo isso me fez perceber que existe um lado social que deve também ser levado em conta. Por isso, acho que o problema, além de ser nosso, é também das grandes empresas que poderiam se conscientizar e mudar suas embalagens de plástico.

Temos um longo caminho pela frente. Mas, pesquisando e me informando sobre o assunto, fiquei feliz de saber que existe muita gente no mundo todo se esforçando e criando alternativas para essas mudanças acontecerem.


Danielle Nagase
Jornalista

‘É preciso se organizar para ser uma pessoa lixo zero’

Para minha sorte, alimentos ultraprocessados já não faziam parte da minha rotina - ponto para as famílias Santos e Nagase que desde sempre me ensinaram a gostar de comida de verdade. Com isso, não me privei de quase nada, mas confesso que senti bastante falta das cápsulas e cápsulas de café que tomava durante o dia. “É mais rápido!” Pura mentira! Passei a coar café toda vez que a vontade batia (para quem não sabe, o filtro de papel vai muito bem, obrigado, na composteira) e estou convencida de que não perdi tempo de vida produtiva com isso - mas, ô saudade de um expressinho…

Nesta semana, também cozinhei muito mais: fiz leite de castanha de caju e pasta de amendoim do zero em casa; usei e abusei da criatividade culinária para variar no cardápio semanal sem recorrer a nenhum ingrediente embalado em qualquer que fosse o material. Delivery também virou carta fora do baralho. Sim, você vai precisar se organizar para virar uma pessoa resíduo zero.

Antes que vocês digam que eu só penso em comida (isso é quase 100% verdade), eu também produzi meus próprios cosméticos - e fui surpreendida novamente. Nunca que achei que leite de magnésia e óleo essencial poderia substituir com louvor (e sem medo de levantar os braços) um desodorante convencional. O tônico facial e o sérum naturais também vou levar pra vida. Agora, a pasta de dentes com óleo de coco e bicarbonato, Deus me livre! Talvez outra alternativa. Também não me encontrei com as alternativas naturais para o cabelo. Agora que a semana zero resíduos acabou, volto (felizmente, mas infelizmente) para o meu xampu, condicionador, creme e gel para cachos de sempre - e haja embalagem!



Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Mariotto / Designer Multimídia Lucas Almeida / Edição Adriana Moreira/ Reportagem Ana Lourenço e Danielle Nagase / Coordenador de Produção Multimídia Everton Oliveira

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