Em Portugal, associação lança plataforma para travar desperdício alimentar

Cada português desperdiça 183 kg de comida por ano; Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar celebra-se este 29 de setembro; iniciativa garante anonimato dos beneficiados

Em Portugal, associação lança plataforma para travar desperdício alimentar
Em Portugal, associação lança plataforma para travar desperdício alimentar

Sara De Melo Rocha* / Agência Onu News - 29/09/2026 08:41:54 | Foto: Banco Mundial/Maria Fleischmann

Em Portugal, mais de 180 quilos de comida vão parar ao lixo por pessoa, todos os anos. Uma parte substancial desta perda acontece dentro de casa, mas o problema estende-se a toda a cadeia, incluindo nos campos agrícolas, na restauração, supermercados ou cantinas.

Para combater esse desperdício, a associação ambientalista Zero acaba de lançar em Portugal o projeto FoodConnect, numa altura que se assinala o Dia Internacional da Consciencialização sobre Perdas e Desperdício Alimentar, instituído pelas Nações Unidas este 29 de setembro.

Ferramentas gratuitas
“No conjunto da União Europeia, Portugal é dos que mais desperdiça. Sabemos que isso também decorre em parte do facto de ser um país muito turístico, que agudiza esta tendência para o desperdício alimentar, mas não explica tudo e, portanto, consideramos que é importante trabalhar o tema”, disse à ONU News Susana Fonseca da Zero.

A aplicação foi desenvolvida pela associação Zero com parceiros de Malta e do Chipre, para transformar a forma como os excedentes são geridos através de ferramentas digitais gratuitas.

Ao contrário de outras plataformas no mercado que vendem excedentes a preços reduzidos, o FoodConnect assenta exclusivamente na doação sem qualquer custo económico.

Uma ponte direta para doar comida
A ferramenta funciona em duas frentes: Do lado do doador, o registo é feito numa plataforma online.

Do outro lado, as ofertas ficam visíveis numa aplicação móvel utilizada pelos beneficiários. Qualquer pessoa ou instituição de solidariedade pode consultar a comida disponível na sua zona, reservar a caixa pretendida e recolhê-la no local e horário definidos.

Em entrevista à ONU News, Susana Fonseca explica que a meta é criar uma ligação direta entre quem doa e quem recebe.

O impacto invisível no ambiente e nos recursos
“É puramente por doação e os beneficiários podem ser qualquer pessoa, portanto, pode ser uma instituição, um cidadão individual, seja alguém que tem dificuldades, quem não tem dificuldades, o combate ao desperdício alimentar deve ser um desígnio de todos, independentemente da capacidade financeira que se tenha.”

A par da resposta social, a iniciativa alinha-se com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU ao mitigar o impacto ambiental associado ao desperdício alimentar. Quando um alimento é deitado fora, perdem-se também todos os recursos naturais e humanos usados para o produzir.

“Sempre que nós desperdiçamos um alimento estamos a desperdiçar todo o investimento foi feito em energia, em água, em solo, em trabalho humano, muitas vezes em transporte, embalamento. Portanto, tudo isto tem um impacto ambiental muito significativo e económico”, detalha.

Num país onde a atividade turística também pressiona os volumes de resíduos, grande parte da comida descartada acaba em aterros ou incineradoras, sem passar por processos de compostagem que devolvam nutrientes ao solo.

Anonimato e acesso universal sem barreiras
Um dos pilares centrais da FoodConnect é a garantia de anonimato e a ausência de qualquer avaliação de rendimentos ou da situação social do beneficiário. A recolha dos alimentos é efetuada mediante a apresentação de um identificador único no telemóvel, assegurando que o nome de quem recebe não é transmitido a quem doa.

O objetivo desta abordagem é afastar o estigma de que o aproveitamento de excedentes se destina unicamente a famílias em situação de pobreza ou vulnerabilidade económica.

“Salvar alimentos é benéfico para todos, enquanto sociedade, independentemente do nosso bem-estar económico, se podemos ou não até comprar esse alimento. O mais importante é evitar que esse alimento seja desperdiçado.”

A plataforma está aberta a qualquer cidadão movido pela consciência ambiental e pela vontade de evitar a pegada de carbono e o desperdício de água e energia associados à cadeia alimentar.

*Sara de Melo Rocha é correspondente da ONU News em Lisboa.

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