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Embaixadora filipina que agrediu empregada exibiu filme sobre exploração de doméstica no Cine Brasília

Embaixadora filipina que agrediu empregada exibiu filme sobre exploração de doméstica no Cine BrasíliaFoto: Ludimila Barbosa/ SECEC DF

Marichu Mauro recebeu 400 alunos de escolas públicas para uma sessão de “Qual é a cor dos sonhos perdidos?”, no Cine Brasília

Leilane Menezes - Metrópoles - 28/10/2020 - 06:39:29

À embaixadora das Filipinas no Brasil, Marichu Mauro, assumiu a missão de apresentar ao público o drama de uma empregada doméstica filipina. Subiu ao palco do Cine Brasília, diante da plateia formada por 400 jovens de escolas públicas, e se esforçou para falar algumas palavras em português antes de exibir o filme “Qual é a cor dos sonhos perdidos?”. Na tela, a história fictícia de uma mulher que dedicou 60 anos de sua vida a uma família que agora quer deixá-la sem teto. Em algumas cenas a patroa grita com a funcionária e a humilha.

Era 28 de agosto de 2019 e, exatamente um ano depois, Marichu Mauro tornaria-se a protagonista de um enredo “mais estranho que a ficção”, com cenas de violência real. Em várias ocasiões entre março e outubro de 2020, a embaixadora foi flagrada por câmeras de segurança agredindo uma empregada doméstica, também filipina, de 51 anos, dentro da residência oficial, em Brasília. No fim de agosto deste ano, funcionários da embaixada entregaram as imagens em uma denúncia entregue ao Ministério Público do Trabalho (MPT), que investiga o caso.

A vítima embarcou de volta para as Filipinas e a agressora também foi convocada de volta pelo governo de seu país de origem, após divulgação do caso pelo Fantástico, no domingo (25/10).

  • O título original do filme exibido por Marichu Mauro é Ano ang Kulay ng mga Nakalimutang Pangarap?, do diretor Jose Javier Reyes. Marichu estava sentada na primeira fila durante a exibição, no evento feito em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do DF, em uma extensão do projeto Escola Vai ao Cinema.
    • O filme foi apresentado pela Secretaria em sua página oficial como “uma espécie de Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015), no qual o diretor filipino Jose Javier Reyes explora os sentimentos de culpa da classe média de seu país com empregadas domésticas, que não apenas cuidam da casa, mas educam os filhos na ausência de pais que trabalham ambos para sustentar o padrão de vida da família.”

      O filme internacional, vencedor em várias categorias no Golden Screen Awards em 2013, uma premiação filipina, foi exibido com legendas em inglês para os estudantes dos Centros Interescolares de Línguas (CIL) do DF.

      “Na ocasião, eles puderam conhecer algumas tradições filipinas que o longa-metragem retrata, bem como treinar a leitura e a compreensão da língua inglesa”, informou a Secretaria, em texto publicado no site oficial.

      O relato sobre a ocasião também traz que “a história, que explora os sentimentos de culpa da classe média filipina com relação às empregadas domésticas e suas trajetórias de vida, cativou a plateia que se emocionou com cada detalhe.”

      Marichu Mauro agradeceu pela lotação da sala de cinema e ressaltou a importância de estreitar relações culturais com a Secretaria. “Esperamos que seja o início de uma cooperação junto à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. Estamos muito felizes por lotar a sala de estudantes”, celebrou.

      O encontro foi finalizado com um lanche oferecido aos alunos no foyer do Cine Brasília, onde a embaixadora Marichu posou com os estudantes para sessões de fotos e esclareceu dúvidas sobre o filme, em inglês. Ainda de acordo com o relato, “professores e alunos se surpreenderam com a trama, que terminou de modo inusitado”.

      No mês seguinte à exibição do filme, em 11 de setembro, o secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, Adão Cândido, recebeu de Marichu Mauro, na residência oficial, a mesma onde ela agrediu a empregada, uma placa de agradecimento.

      “A homenagem decorre do bem-sucedido evento de transmissão do filme filipino “Qual a Cor dos Sonhos Esquecidos?” no Cine Brasília”, afirma a nota de divulgação. “É isso que une o mundo, nós podermos conhecer aqueles que são diferentes de nós”, disse Cândido, ao receber a honraria.

      Após a cerimônia, a embaixadora ofereceu almoço com comidas típicas filipinas. Entre os empregados da casa estava a mulher que era agredida toda semana, segundo os funcionários que fizeram a denúncia. A embaixadora puxava as orelhas da empregada com força, beliscava-a, dava tapas na cara e agrediu com um guarda-chuva. O Metrópolestentou contato com Marichu Mauro por meio do telefone da embaixada, mas ninguém atendeu a ligação.

      Em nota, a Secec respondeu: “O evento citado foi uma entre as muitas parcerias realizadas entre o Cine Brasília e as representações diplomáticas aqui sediadas. A Secretaria de Cultura e Economia Criativa não tem nada a declarar sobre esta pauta”.

      Histórico

      No palco do Cine Brasília não foi a primeira ocasião em que Marichu Mauro se comportou como porta-voz de problemas relacionados a trabalhadores filipinos. Em 5 de agosto de 2014, quando ocupava o posto de Cônsul Geral das Filipinas, ela se encontrou com os líderes da associação filipina em Gênova, na Itália.

      Na reunião, trabalhadores domésticos e da área de turismo esclareceram dúvidas sobre questões consulares e direitos trabalhistas. Além de trabalhar em casas particulares, hotéis, restaurantes e fábricas, muitos filipinos também trabalham na reparação e limpeza de iates e pequenos navios.

      Quando chegou ao Brasil, há dois anos e meio, a embaixadora das Filipinas foi recepcionada pelo ex-presidente Michel Temer e, no início deste mês, recebeu uma condecoração do presidente Jair Bolsonaro.

      Exploração

      Denúncias sobre violações de direitos de trabalhadores filipinos são frequentes, porém difíceis de investigar quando envolvem questões relacionadas à imunidade diplomática.

      Em maio, a Repórter Brasil divulgou o caso de uma filipina mantida em cárcere privado por 8 meses em São Paulo por Nadya Saeed Khalfan Dhuhai Alhameli, funcionária de alto escalão do consulado dos Emirados Árabes Unidos em São Paulo.

      A filipina de 26 anos contou à Repórter Brasil que sofreu agressões físicas e verbais, foi proibida de sair do apartamento e obrigada a trabalhar em uma jornada exaustiva, sem nenhum dia de folga. Seu salário era pago no exterior e seu passaporte foi retido pela empregadora.

      Em 2017, trabalhadoras trazidas pela agência Global Talent foram encontradas em situação análoga à escravidão, como revelou a Repórter Brasil. No ano seguinte, a Justiça do Trabalho condenou os diretores da empresa a pagarem R$ 2,8 milhões.

      Nos EUA, o Departamento de Estado faz desde 2015 uma entrevista obrigatória anual com os empregados domésticos das embaixadas em Washington. Governos europeus também possuem uma cartilha sobre o tema.

      No Brasil, é o Itamaraty quem faz o intermédio dos vistos concedidos a empregados em missões diplomáticas. O Metrópoles enviou perguntas sobre esse tema à assessoria de imprensa, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem

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