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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

Gina Vieira Ponte. Por uma gestão democrática nas escolas

Gina Vieira Ponte. Por uma gestão democrática nas escolasFoto: Correio Braziliense

Existe uma interpretação equivocada de que vamos dizer que o menino tem de escolher o que vai ser.

Por Ana Viriato-correio Braziliense - 23/04/2019 - 15:06:11

Em meio à onda de leis que instituíram o Programa Escola sem Partido em diversos municípios do país e às propostas que pretendem implementá-lo a nível nacional, a professora Gina Vieira Ponte questiona esse modelo. “O papel da escola é ajudar o estudante a pensar criticamente sobre tudo o que acontece ao redor dele. Não se pode fabricar uma bolha que caiba nos parâmetros de mundo ideal de algumas pessoas”, argumentou, em entrevista ao programa CB.Poder, parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília.


Educadora da rede pública há 28 anos e idealizadora do projeto Mulheres Inspiradoras, ela criticou, ainda, a investida de alguns segmentos para barrar a discussão de questões de gênero em escolas. “Temos de promover uma educação que dê conta da diversidade. Quando falamos sobre trabalhar gênero, trata-se de ensinar crianças e adolescentes a respeitarem as pessoas, sejam elas quem forem”, pontuou.


Para Gina, que adota postura contrária à militarização das escolas, o governo precisa remodelar o sistema educacional do início ao fim para melhorá-lo. A mudança, sugere a professora, deve passar por diversos pontos. Na lista, estão a fuga do formato convencional — cadeiras enfileiradas e cópia do quadro —, o investimento na formação dos educadores e a valorização salarial.



Qual é sua opinião sobre o modelo de gestão compartilhada nas escolas públicas do DF?

A minha concepção de educação está muito mais relacionada à ideia de gestão democrática. O que experimentei como professora é que nosso maior desafio é fazer com que o estudante se sinta seguro, respeitado integralmente. Ninguém aprende debaixo de opressão. Acredito em uma educação que respeite a voz do estudante, a subjetividade, a identidade, quem ele é, de onde ele veio, qual é o lugar dele no mundo.


Há um longo debate sobre a discussão da questão de gênero nas escolas. Como você avalia essa situação?

É resultado de uma discussão muito rasa. As pessoas opinam sobre os temas sem conhecê-los. O direito de discutir temas como gênero é assegurado pela Constituição, que nos garante uma educação laica, e o Estado é laico. Tenho 28 anos de exercício como professora e, nesse período, encontrei alunos heterossexuais, homossexuais, transexuais, negros, indígenas, brancos. Não posso promover uma educação que determine a extinção de determinadas existências. Tenho de promover uma educação que dê conta da diversidade. Quando falamos sobre trabalhar gênero, trata-se de ensinar crianças e adolescentes a respeitarem as pessoas, sejam elas quem forem. Existe uma interpretação equivocada de que vamos dizer que o menino tem de escolher o que vai ser.


Acredita que o Programa Escola sem Partido e projetos que tentam barrar a discussão de gênero nas escolas são formas de censura?

Com certeza. O papel da escola é ajudar o estudante a pensar criticamente sobre tudo o que acontece ao redor dele. Não se pode fabricar uma bolha que caiba nos parâmetros de mundo ideal de algumas pessoas. Tenho que levar para a escola tudo aquilo que é relevante para esses jovens se colocarem no mundo como cidadãos integrais, que vão se deparar com alguém que tem pensamentos e valores diferentes, e saberão conviver com essa pessoa.


O que precisa ser feito para o ensino público melhorar? O novo governo tem dado abertura para mudanças?

Estou muito otimista quanto a mudanças. Mas acho que ainda temos que pensar em muitas coisas. Por exemplo, numa política mais consistente de valorização dos professores da rede. Temos um histórico de defasagem salarial. Mas, para além disso, — e o secretário de Educação tem anunciado propostas nesse sentido — precisamos de um programa de formação continuada. Outra coisa que sempre me incomodou e espero que esse governo mude: o quadro reduzido de profissionais na escola.


Como começou o Projeto Mulheres Inovadoras criado pela senhora?

Antes de tudo, uma proposta de ressignificação do espaço escolar. Começou quando eu, tentando me aproximar dos estudantes e notando uma dificuldade deles em ver sentido na minha prática, criei uma conta em uma rede social e comecei a usá-la como uma ferramenta pedagógica. À medida que fui acessando os conteúdos que eles produziam e postavam, me dei conta de que era recorrente que as meninas reproduzissem o referencial da mulher objetificada. A proposta foi apresentar outras referências a partir das quais elas pudessem se inspirar.


Como foi a escolha das mulheres do projeto?

Escolhi, primeiro, seis obras escritas por mulheres. Mais tarde, quando separei 10 mulheres para pesquisarem sobre, queria que fosse um time diverso. Coloquei desde meninas jovens, como Anne Frank, até mulheres idosas, como Cora Coralina. Grandes nomes da Academia, como Nise da Silveira, a mulheres quase sem escolaridade, como Carolina Maria de Jesus. Pretendo mostrar que não existe mulher no sentido universal da palavra. Existem mulheres, uma diversidade, cada uma com sua especificidade. Sejam quem for essas mulheres — nova, idosa, negra, branca, que estudou muito ou pouco — podem ser inspiradoras.


A ideia foi bem recebida logo ao começo?

Não adiantava levar um projeto com uma temática arrojada e desenvolvê-lo de modo tradicional, com cópia do quadro, carteira enfileirada e apenas o professor falando. Como trabalhei com metodologias que envolviam debate, pesquisa em grupo, trabalho com outras linguagens, como audiovisual, teatro e roda de conversa, eles se envolveram para além do que eu imaginava. O estudante quer ser parte do processo. Ninguém gosta de ser só espectador e plateia.

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