A dinâmica entre os dois lembra bastante Sherlock Holmes e o doutor Watson, uma comparação que o autor acata. Como referências no gênero, ele cita também Agatha Christie e diz que está disposto a fazer de Ana Dolabra seu Hercule Poirot
Isadora Laviola-são Paulo, Sp (folhapress) - 19/05/2026 10:18:01 | Foto:
Em visita ao Brasil para participar do Festival Literário de Fantasia, o autor Robert Jackson Bennett veio pela primeira vez dos Estados Unidos para a América Latina, mas não foi seu primeiro contato com a cultura local.
Ele conta ter conhecido o gênero do realismo mágico da região ainda na infância e cita Jorge Luis Borges como uma das inspirações para seu livro "O Cálice Contaminado", que tem trama de mistério, mas cenário de fantasia.
No conto "Funes, o Memorioso", de Borges, um homem que não consegue se esquecer de nada passa uma vida acumulando informações, mas nunca consegue transmitir suas memórias. No livro de Bennett, o protagonista e narrador Dinios Kol é apresentado como um gravador, uma pessoa biologicamente modificada para recordar tudo.
Para resolver a articulação de Dinios, Bennett faz dele contraponto para a detetive Ana Dolabra, de quem é assistente. Enquanto o primeiro capta acontecimentos e detalhes, a segunda os explica e encaixa no enigma do assassinato a ser resolvido.
A dinâmica entre os dois lembra bastante Sherlock Holmes e o doutor Watson, uma comparação que o autor acata. Como referências no gênero, ele cita também Agatha Christie e diz que está disposto a fazer de Ana Dolabra seu Hercule Poirot.
"Eu poderia escrever um monte de livros sobre eles", afirma. Nos Estados Unidos, a detetive e seu assistente já protagonizaram três livros desde 2024 -o mais novo sairá em agosto. O Brasil, por enquanto, só conheceu "O Cálice Contaminado", recém-lançado pela Aleph.
O trabalho, diz o autor, é o que ele sempre quis ler, mas nunca encontrou em outros livros. Sua estratégia é criar personagens que agem como as pessoas normais agiriam se fossem parar em um mundo de fantasia.
"Uma boa razão para escrever é tentar descobrir como sinto e vejo as coisas. Eu escrevo muito e, para chegar a um livro de 50 mil palavras, descarto outras 300 mil."
Se o processo de escrita é tempestuoso, como diz, isso não transparece quando ele fala das obras já publicadas. Em entrevista, o autor repete a mesma postura tranquila que já demonstrou em outras aparições públicas.
Bennett veio ao Brasil neste último mês, ainda no embalo da vitória do prêmio Hugo em 2025, o troféu mais prestigioso da fantasia e ficção científica. Quando questionado sobre isso, ele dá uma resposta pragmática.
"Sendo honesto, [o autor] Adrian Tchaikovsky estava concorrendo com dois títulos e acredito que isso dividiu os votos dele. Meu livro, que seria o terceiro, acabou levando a melhor."
A humildade parece fruto das duas experiências anteriores, quando Bennett concorreu, mas não ganhou. Na indicação mais recente, em 2023, perdeu o prêmio justamente para Tchaikovsky.
Mas Bennett também reconhece mértios em sua obra. "Acredito que ganhei pelo mundo que construí, ele me deu muito trabalho." O universo de "O Cálice Contaminado" tem casas feitas de plantas, muros que se abrem ao se aproximarem de venenos e hierarquias militares que lembram castas.
Bastante vocal contra o governo de Donald Trump nas redes sociais, o autor injeta críticas ao poder no livro. Seus detetives não têm medo de encontrar culpados entre pessoas mais poderosas do que eles.
"Eu queria escrever um mundo onde alguém realmente poderoso faz algo errado e paga as consequências -e isso é, provavelmente, o que faz do livro uma fantasia."
O CÁLICE CONTAMINADO
- Preço R$ 89,90 (448 págs.)
- Autoria Robert Jackson Bennett
- Editora Aleph
- Tradução Flavia de Lavor
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