Interpretação psicanalítica da expressão “unir o útil ao agradável”

Na teoria clássica da psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud, essa relação pode ser interpretada à luz do princípio do prazer e do princípio da realidade

Interpretação psicanalítica da expressão “unir o útil ao agradável”
Interpretação psicanalítica da expressão “unir o útil ao agradável”

Por Maria José Rocha Lima* - 30/04/2026 18:56:56 | Foto: Divulgação

Do ponto de vista psicanalítico, a expressão popular “unir o útil ao agradável” pode ser compreendida como uma tentativa de harmonizar duas dimensões fundamentais da vida psíquica: a realidade externa, com suas exigências e deveres, e o mundo interno, com seus desejos, prazeres e necessidades emocionais.

Na teoria clássica da psicanálise, desenvolvida por Sigmund Freud, essa relação pode ser interpretada à luz do princípio do prazer e do princípio da realidade. O primeiro orienta o sujeito à busca de satisfação e à evitação do desprazer; o segundo impõe limites, exigindo a adaptação às condições do mundo externo. Assim, “unir o útil ao agradável” pode ser visto como uma solução madura: encontrar formas de satisfazer desejos pessoais enquanto se cumprem as exigências da realidade.

Nessa perspectiva, a expressão revela um funcionamento psíquico relativamente integrado, no qual o ego consegue mediar as demandas internas e externas sem recorrer a defesas rígidas ou a conflitos excessivos. Quando uma pessoa transforma uma obrigação em algo minimamente prazeroso — por exemplo, estudar um tema que desperte curiosidade ou realizar uma tarefa doméstica em um ambiente acolhedor — ela está, simbolicamente, conciliando dever e desejo. Essa conciliação reduz a sensação de sacrifício e favorece a continuidade das ações necessárias à vida.

Há alguns anos, uma paciente trouxe um dilema aparentemente irreconciliável. Após uma falência financeira e o abandono por parte do marido, viu-se obrigada a retornar à casa materna. Embora estivesse em um ambiente fisicamente confortável, com suas necessidades materiais atendidas, vivia intenso sofrimento psíquico. O “útil” — a segurança e o amparo — não conseguia se converter em “agradável”, pois a situação reativava sentimentos de fracasso, dependência e perda de autonomia. Esse exemplo ilustra como, quando não há integração psíquica, mesmo condições favoráveis podem ser vividas com angústia.

A psicanálise contemporânea, especialmente nas contribuições de Donald Winnicott, acrescenta um elemento importante: a ideia de que o prazer não está apenas no resultado, mas na experiência vivida. Winnicott destaca que a criatividade e o sentimento de vitalidade emergem quando o indivíduo encontra espaço para ser espontâneo dentro das exigências da realidade. Nesse sentido, unir o útil ao agradável representa a capacidade de tornar a vida mais pessoal e autêntica, sem abrir mão das responsabilidades.

Por outro lado, a impossibilidade constante dessa integração pode indicar sofrimento psíquico. Quando o sujeito vive apenas no campo da obrigação, sem encontrar sentido em suas atividades, pode surgir uma sensação de esvaziamento ou alienação. Em alguns casos, isso se relaciona ao predomínio de um falso self — conceito winnicottiano — no qual a pessoa se adapta excessivamente às exigências externas, perdendo contato com seus desejos genuínos.

Há ainda uma leitura simbólica relevante: unir o útil ao agradável pode ser entendido como uma forma de sublimação, conceito freudiano que descreve a transformação de impulsos psíquicos em atividades socialmente valorizadas. Trabalhar, estudar ou cuidar de alguém pode tornar-se fonte de satisfação quando a energia psíquica encontra vias criativas e significativas de expressão.

Em síntese, sob a ótica psicanalítica, a expressão “unir o útil ao agradável” representa uma forma saudável de integração psíquica. Ela indica a capacidade de conciliar prazer e responsabilidade, desejo e realidade, mantendo viva a criatividade e o sentido pessoal nas tarefas do cotidiano. Trata-se, portanto, de um sinal de maturidade emocional: quando o útil não exclui o agradável, a vida psíquica torna-se mais equilibrada, e o viver adquire maior densidade afetiva e significado.

*Maria José Rocha Lima é professora, mestre em Educação e doutora em Psicanálise. Foi deputada estadual de 1991 a 1999.

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